A GALIZA COMO TAREFA – aprendido – Ernesto V. Souza

Hesitei muito com o título. A noção a destacar é talvez “repetido”, mais do que “aprendido”. Talvez deveria intitular “repetido – aprendido” ou “aprendido – repetido”, mas empenhei-me, pelo tamanho da seção, em preferir palavras únicas. Não sei. A cousa é que repetir é o jeito mais comum de aprender: tanto intelectualmente como fisicamente, a memória fixa-se pelo hábito e a repetição.

O físico é evidente, seja a cavalaria no uso assassino da espada, seja a serra carpinteira precisa na madeira, bem a faca comum na cozinha, ou as palavras combinadas na escrita, é a prática por sobre as condições naturais que nos torna habilidosos e, com critério, especialistas. A memorística intelectual, é semelhante. Por repetição ou acumulação terminamos adquirindo ingentes quantidades de saber. Outrossim é saber se isso tudo que aprendemos, a base de repetição, tem qualquer utilidade prática, ou se todavia é mais ou menos verdade, ou uma simples acumulação de lugares comuns de cada época.

As ferramentas mudam, com a técnica e a tecnologia. Com elas mudam os processos, e daí os hábitos de trabalho, que são os que condicionam os movimentos repetidos que se apreendem e refinam com a prática.

Um bom trabalhador normalmente é aquele que uma vez adquirida uma destreza simplifica os processos e reduz os movimentos a aqueles que melhor se adequam as suas características pessoais e ao espaço em que trabalha, normalmente isso redunda num menor gasto de energia, de tempo e numa maior precisão.

Efetivamente não sempre é possível. E também não sempre os sistemas mecanizados industriais têm qualquer interesse para além de robotizar os processos e neles os operários.

Intelectualmente é semelhante. A escola e os processos de aprendizagem no sistema educativo convencional não fomentam tanto a capacidade crítica individual quanto a qualidade e excelência aprendida da produção repetida. E cada época valoriza mais a adequação à temática e troppos vigentes que ao questionamento. Celebra-se as grandes mentes, capazes de reformular os sistemas científicos, mas raramente no seu momento, e sempre que por pessoalidade, sorte ou apoio consigam suceder. Dado que em boa medida questionam o que se aprende e como se solucionam os problemas, e com isto curiosamente termina por estabelecer-se que se questiona a ordem estabelecida e as hierarquias.

Todas as ramas do saber, o saber mesmo como parte do corpus e doutrina que mantém as sociedades, evolui em função das épocas e das próprias sociedades. O conhecimento da física, das matemáticas, da biologia evolui com elas. E também as ideias que conformam o corpus ideológico, moral, político, religioso. Delas a estética, a percepção das artes e do artístico, o valor da história, dos momentos, episódios e personagens em destaque da história, do literário com os seus cânones, marginálias e descartes.

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Ilustração N. C. Wyeth em Ladies home jornal, 1922

Uma das ideias comuns mais espalhadas nas últimas duas décadas e in crescendo sobre a língua portuguesa é o do característico do seu pluricentrismo e o marcado valor definidor das suas variações normadas. Por algum motivo, e arredor da polêmica do Acordo, das questões aduaneiras do mercado intelectual, académico e do livro, da emergência de Brasil para potência, da configuração da identidade cultural dos países africanos de língua Portuguesa e a redefinição nacional de Portugal após 1974, este troppo parece ter ido adquirindo qualquer notoriedade ou importância no debate e, a base de repetir, hoje forma parte do discurso geral sobre a língua portuguesa.

A noção é talvez interessante: existem variantes diatópicas, diafásicas e diastráticas, lógicas variantes locais (mais quanto mais na origem e nas periferias), e falares regionais característicos consolidados de velho e mesmo literaturizados; e, nos últimos séculos apareceram uns padrões nacionais unificadores, fixados na escrita, pelos estados para a imprensa e para a escola, e depois consagradas modernamente até na oralidade, pela alfabetização e a TV. Mas em que língua não acontece?

Está a notícia, a curiosidade e a constatação da vitalidade e riqueza do corpus linguístico da língua: na história, pela geografia e através das classes sociais. Mas e daí?

Por mais que se me repita e que as amizades galegas por acaso moradores em Brasil e Portugal ou simpatizantes das ideias doutros amigos, mo queiram fazer ver de evidente, não passa de me parecer de uma ideia original e nova que querem que aprenda como verdade relevante ou noção de importância capital. Eu aí o que mais enxergo é uma questão aduaneira e de mercados intelectuais e académicos, fechados historicamente e protecionistas.

Porém, a mim, como galego, que a língua seja uma e vária, ou trina sendo toda verdadeira, francamente é algo que não me atinge, nem preocupa, quitando que por culpa das aduanas e das dificuldades do mercado livrário é difícil e caro adquirir livros em língua portuguesa na Espanha.

E total, a verdade, eu estou mais com o fascínio numa concepção mais ecumênica da língua portuguesa. Uma, mais própria dos tempos em que andamos, a de uma das línguas da globalização, da multi-conexão, da sindicação internacionalista em espaços virtuais e da criação de comunidades multiculturais.

Uma percepção que vigorava na década e moda de 70, aquela de Ernesto Guerra da Cal e de Manuel Rodrigues Lapa; uma mais acaida, que me permite destacar, como diz Maria Dovigo, a existência de um espaço comum, para além dos estados e as nações, no que os galegos  – que nem temos passaporte próprio, nem estado próprio padronizador que nos aprenda repetindo; e que não somos portugueses, nem brasileiros, nem africanos, nem asiáticos, ou somos talvez ou podemos ser parcial ou ocasionalmente também isso tudo – podemos fazer parte e dar sabor, com todas as nossas marcadas características, singularidades, mestiçagens periféricas desencaminhadas e possibilidades de raiz.

Let’s Call the Whole Thing Off.

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