

O Menino Jesus é um mistério.
Verdade.
E porquê?
Porque pouco sabemos dele. Porque apenas sabemos que nasceu e que possivelmente berrava e mamava, cagava-se e borrava as palhinhas, como todos os meninos. Soubemos mais tarde, através dos meios de comunicação, que teve um grave acidente aos 33 anos – mas nada sabemos da sua vida naquele longo intervalo, que tipo de vida levou, se tinha estudos ou não, se era malandro, se batia na mãe, se roubava a caixa das esmolas, rebuçados na mercearia, etc.
Se era um mau aluno do Secundário, se faltava às aulas, se jogava matraquilhos, se cursou a universidade, se foi à tropa, se frequentava bares discutíveis pelas noites dentro. Ou, se pelo contrário, era certinho e menino vicente ajuizado, a bater com a mão no peito, a levar o avô a arejar, a ajudar na lida casa e por aí fora.
Nunca o saberemos. A Bíblia (uma forma antiga e simultaneamente precoce da televisão) nada informa sobre todos esses importantes anos de vida do senhor, daquele senhor que se finou tão jovem ainda.
Terá sido a Censura da época a grande responsável? Teria ele sido internado compulsivamente a maior parte da sua adolescência e maturidade sequente? Seria um perigoso socialista, com ideias abstrusas em termos de relação de classes, que convinha calar e arquivar?
Não há certezas.
Ele ainda fez alguns interessantes milagres pouco antes do passamento – pequenas cirurgias sem anestesia, melhoria de visão em vistas francamente cansadas, alguns curativos frankensteinianos… Consta até que uma vez arreou em grande em repulsivos capitalistas da época, expulsando-os da Bolsa à porrada com excelentes e bem apontados pontapés, a demonstrar uma excelente forma física.
Fazendo ainda hoje parte daquele misterioso mistério do costume, sendo uma das suas incompreendidas (e incompreensíveis) partes, ele próprio é um mistério, ainda mais denso e tenebroso que o da Santíssima Trindade no seu todo, podeis crer.
Nem o Hercule Poirot nos vale.
Carlos
