BRASIL – DIÁLOGOS DO SUL – ENTREGA DO PRÉ-SAL A EMPRESAS ESTRANGEIRAS É UM DESASTRE TOTAL CONTRA INTERESSE PÚBLICO, por PATRICIA FACHIN – selecção de CAMILO JOSEPH

Entrega do Pré-Sal a Empresas Estrangeiras é um desastre total contra interesse público, por Patricia Fachin

IHU Revista on-line, 11 de Outubro de 2019

Selecção de Camilo Joseph

 

Diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo Ildo Sauer reprova o modo como o tema vem sendo conduzido pelo atual governo

“Não há razão nenhuma para concluir Angra III” e “neste momento, na minha opinião e de vários que estudam alternativas energéticas, a energia nuclear está no fim da lista de prioridades como opção energética”, diz Ildo Sauer, diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo e doutor em Engenharia Nuclear, ao comentar a intenção do governo federal de retomar o projeto de Angra III e construir mais seis usinas nucleares no Brasil até 2050. Segundo ele, as razões objetivas dessa proposta, que ressurge em todos os governos desde 2008, já foram demonstradas: “há uma pressão do lobby da indústria nuclear internacional e das empreiteiras brasileiras, montadoras associadas, como era o caso da Andrade Gutierrez, que acabou resultando numa investigação da Polícia Federal”. Os interesses em torno da energia nuclear, afirma, estão “muito distantes dos interesses de uma política energética científica ou tecnológica relevante para o país, tanto que o líder da Eletronuclear acabou preso e está respondendo a processo. Mas isso justifica, talvez, o ímpeto com que, periodicamente, ignorando fatos objetivos em relação à viabilidade econômica, à conveniência ambiental e à presença de riscos, se pensa, em comparação com outras alternativas, sobre os benefícios de concluir uma usina ou iniciar outras”.

Na avaliação de Sauer, “é difícil compreender” o que move o governo atual e sua ala militar a proporem novos investimentos em energia nuclear, quando o Brasil dispõe de uma série de fontes alternativas. “Em geral, aparecem critérios obscuros, especialmente agora, na manifestação do ministro militar [Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Júnior, ministro de Minas e Energia], de que investir em energia nuclear é investir em tecnologia, de que é relevante, de que temos o ciclo do combustível, de que o Brasil detém reservas de urânio e capacidade de fazer enriquecimento de urânio, e de que seria uma perda estratégica não usufruir dessa possibilidade. Pois bem, nada disso se sustenta”, assegura.

Apesar de ser contrário aos investimentos em energia nuclear, o engenheiro adverte que “não podemos demonizá-la” e defende a continuidade das pesquisas científicas e tecnológicas na área nuclear por causa dos benefícios que elas podem trazer para a medicina, a agricultura e a biologia. “Agora, dizer que temos que usar o urânio existente na Bahia, no Ceará e talvez na Amazônia e exportá-lo ou usá-lo aqui só porque ele existe, não tem sentido”, reitera.

Na entrevista a seguir, concedida por telefone à IHU On-Line na semana passada, após participar de um ato em defesa da Petrobras no Rio de Janeiro, Sauer menciona que “a opção de desnacionalizar a Petrobras e a Embraer é defendida por uma fração pequena das Forças Armadas, que perderam a noção de que seu papel é relevante para garantir a soberania”. Para ele, hoje o ministro da Economia, Paulo Guedes, “é o grande inimigo do povo brasileiro”.

Crítico ao modo como os governos FHC, Lula e Dilma trataram a questão energética no país nas últimas décadas, Sauer também reprova o modo como o tema vem sendo conduzido pelo atual governo. “É isto o que o Guedes está anunciando: está entregando o pré-sal sem compreender a sua dimensão. De maneira que o plano que o governo vem anunciando é um desastre total contra o interesse público”, avalia. E lamenta: “Eu vejo com tristeza absoluta, como hienas se refestelando com sobras de um banquete futuro, governadores e senadores indo a Brasília e pedindo uma fatia daqueles 100 bilhões de reais do bônus de assinatura, esperado para entregar de 10 a 15 milhões de barris já descobertos, cuja produção vai gerar um excedente mínimo da ordem de 400 a 500 bilhões de dólares”.

Ildo Sauer foi diretor executivo da Área de Negócios de Gás e Energia da Petrobras de 2003 a 2007. Desde 1991, é professor na Universidade de São Paulo. Engenheiro civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sauer é mestre em Engenharia Nuclear e Planejamento Energético pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutor em Engenharia Nuclear pelo Massachusetts Institute of Technology. Recebeu pela USP o título de Livre Docência em 2004.

Foto: Gabriela Korossy | Câmara dos Deputados  Diretor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo e doutor em Engenharia Nuclear, Ildo Sauer

 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Muitos especialistas explicam os riscos de se apostar em energia nuclear. Apesar disso, o governo federal anunciou recentemente que estuda a possibilidade de construir mais seis usinas nucleares no Brasil até 2050. Por que o Estado brasileiro aposta nessa via?

Ildo Sauer – Há uma estranha tendência e cada novo governo ou novo ministério anuncia que vai retomar o programa nuclear e concluir Angra III. Foi assim quando o ministro Edison Lobão tomou posse, foi assim com os seus sucessores e é assim agora com este novo governo. Naquele tempo, meu colega Joaquim Francisco de Carvalho e eu publicamos um artigo na revista Energy Policy (2009) sobre a seguinte questão: “Does Brazil need new nuclar power pants?” [O Brasil precisa de novas usinas nucleares?]. O debate na época visava retomar Angra III e instalar um conjunto de usinas nucleares, preferencialmente, como foi anunciado e colocado no planejamento energético da Empresa de Pesquisa Energética – EPE, e colocar essas usinas no Nordeste, próximo dos lagos das usinas hidrelétricas do Rio São Francisco.

Desde 2008 até hoje já se vão onze anos e agora recebemos este anúncio feito pelo Ministério de Minas e Energia – MME de que Angra III será retomada e concluída. As razões objetivas dessa proposta, nas vezes anteriores, foram demonstradas: há uma pressão do lobby da indústria nuclear internacional e das empreiteiras brasileiras, montadoras associadas, como era o caso da Andrade Gutierrez, que acabou resultando numa investigação da Polícia Federal, porque retomaram um contrato dos anos 1970. A construção da usina Angra III já havia sido licitada e a principal empresa contratista havia sido a Andrade Gutierrez, há mais de 30 anos. Com as investigações da Polícia Federal, do Tribunal de Contas da União e outros órgãos, ficou claro que a motivação principal foi atender aos interesses desses grupos. Estavam, portanto, muito distantes os interesses de uma política energética científica ou tecnológica relevante para o país, tanto que o líder da Eletronuclear acabou preso e está respondendo a processos. Essa é uma questão cujo resultado final tem que ser aguardado. Mas isso justifica talvez o ímpeto com que, periodicamente, ignorando fatos objetivos em relação à viabilidade econômica, à conveniência ambiental e à presença de riscos, se pensa, em comparação com outras alternativas, sobre os benefícios de concluir uma usina ou iniciar outras.

Em termos, qual é o benefício de gerar energia elétrica e ampliar a capacitação tecnológica do país investindo em energia nuclear em comparação com outras alternativas? Ficou claro, desde o começo, que essa não era uma proposição razoável de ser defendida sob esses critérios. Em geral, aparecem critérios obscuros, especialmente agora, na manifestação do ministro militar [Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Júnior, Ministro de Minas e Energia], de que investir em energia nuclear é investir em tecnologia, de que é relevante, de que temos o ciclo do combustível e de que o Brasil detém reservas de urânio e capacidade de fazer enriquecimento de urânio, e de que seria uma perda estratégica não usufruir dessa possibilidade. Pois bem, nada disso se sustenta.

Angra III

Angra III é um projeto tecnologicamente avançado para o estado da arte da década de 1970; portanto, mais de quatro décadas atrás. Foi projetado a partir da tecnologia da Westinghouse, aperfeiçoado na Alemanha e hoje em dia faz parte do conglomerado europeu Areva, um sistema industrial de produção de reatores nucleares que opera na França e que, na Alemanha, estão sendo retirados de funcionamento, de acordo com o programa anunciado pelo governo alemão logo após o incidente de Fukushima.

A montagem, a conclusão, a construção e a operação de Angra III, do ponto de vista tecnológico, não traz nada de novo, de avançado, de conhecimento adicional, de aperfeiçoamento tecnológico para o país. Do ponto de vista econômico, já foi gasto muito dinheiro com a usina, e seus defensores alegam que existem contratos e financiamentos a serem honrados e, infelizmente, isso é verdade. Mas não é assim que se pensa em economia, em planejamento e em construção do futuro. A pergunta sempre é: dado o estado de hoje, quanto ainda falta investir para concluir a usina? Quanto isso custa, supondo que o que já foi gasto está perdido, ainda que seja em dívida, porque isso é irrecorrível?

As respostas são claras. O próprio governo já vem anunciando, desde que foi feita a decisão — depois abandonada por causa dos processos judiciais — de retomada das obras: vai ser preciso um investimento adicional, fora o que já foi gasto, da ordem de 15 a 16 bilhões de reais, para a usina produzir 1343 megawatts brutos de potência instalada, com um fator de capacidade próximo de 90% quando tudo correr bem. A usina tem que parar todo ano cerca de 43 dias para retirada de 1/3 de seus elementos combustíveis, e substituí-los por 1/3 novo, com mais reatividade. Então, é como se ela operasse cerca de 1.000 megawatts. Esse é o benefício energético. E é bom lembrar que as usinas nucleares têm baixa flexibilidade, isto é, não conseguem diminuir e aumentar a carga de acordo com o comportamento da demanda.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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