Texto Fraternizar 4, Edição 155, Fev.º 2020
A avaliar pelos sinais, o Covid-19, com origem na China, ainda mal acaba de entrar em acção. E, como todos os vírus com poder de dizimar populações inteiras e converter grandes cidades em grandes desertos, também este não lhes fica nada atrás. Vem assim juntar-se a todas as guerras que os Estados desencadeiam e alimentam, geração após geração, numa manifestação de generalizada e crassa demência. A Síria que o diga. Pelo que os povos das nações bem podem continuar a gemer e a chorar, mas não há nenhum Poder nem nenhum deus das religiões e igrejas cristãs que lhes valha. E como podem valer-lhes, se o Poder e o deus das religiões e igrejas são de sua natureza assassinos e ladrões, por mais democráticos ou santos que se digam? Tanto progresso e tanto desenvolvimento tecnológico e não há maneira de descolarmos da idade da pedra.
Enquanto teimamos em ver nos outros-como-nós, estranhos e inimigos, em lugar de irmãos-a-acolher-amar-cuidar, todo o desenvolvimento tecnológico e científico de que hoje dispomos serve apenas para nos manter ainda mais aprisionados na idade da pedra. É muito mais ilustrada do que a primitiva, mas por isso mesmo muito mais demente e destrutiva. Um passo mais na busca do Ter em detrimento do Ser, e é o inferno nuclear.
As medidas que todos os Estados começam febrilmente a adoptar não passam de rudimentares defesas das populações, postas de quarentena, nas suas próprias casas, convertidas, assim, em outras tantas prisões. E em estado de pânico permanente. E porque parar em casa é morrer, pode muito bem acontecer que as casas passem de prisões a cemitérios, onde os cadáveres se amontam e então estão de volta os flagelos das pestes da idade-media. Com uma capacidade de matar absolutamente incontrolável.
O grande Capital e seus cérebros vêem, impotentes, as Bolsas a afundar-se e os seus lucros a desaparecer como areia por entre os dedos. Os dias que se avizinham são de choro e de raiva. Mas estéreis. Porque não quisemos nem queremos ouvir as sábias vozes que nos advertiam, advertem, nem atentamos nos sinais cada vez mais reveladores de que é imperioso e urgente de mudarmos de rumo, como, no tempo do fascismo, oportunamente canta o nosso querido companheiro José Afonso às formigas a que então estávamos reduzidos, Mudem de rumo, Mudem de rumo! Ainda derrubamos o fascismo, mas não decapitamos o Capital, antes de mais, nas nossas próprias mentes.
Aqui nos trouxeram os três mil anos de judaísmo-cristianismo-islamismo e o seu deus todo-poderoso. E aqui estamos. Num planeta à deriva. Para cúmulo, ainda sem disponibilidade interior para nascermos de novo, do Sopro da Vida, antípoda do sopro do Poder. Somos Cosmos-consciência, não para o dominarmos e explorarmos, como demencialmente temos feito. Sim, para cuidarmos dele, de nós próprios, uns dos outros. Não faltaram vozes, ao longo das sucessivas gerações, que nos alertaram. Ignoramos-las e ostracizamos-las como vozes de ‘loucos’. Só porque o Poder e o deus todo-poderoso das religiões e dos clérigos, mais os livros sagrados que eles próprios redigiram e difundiram como ‘palavra de salvação’, sempre são muito mais sedutores. E porque fomos por eles, eis-nos agora, reféns duma descrição geradora de vírus cada vez mais mortais.
Há ainda antídotos suficientemente eficazes para neutralizarmos este Covid-19? Sempre há, mas à custa de muitas vidas e angústias. Mais do que isso, fica aí bem vivo o alerta: Não há poder nenhum nem nenhum deus fora de nós que nos valham. E como podem valer-nos se são eles os produtores de todos os vírus que nos matam? Imperioso é mudarmos de Ser e de Deus. E permanecermos fiéis, vida fora, à nossa matriz original de nascidos de mulher, por isso, religados uns aos outros como outras tantas fragilidades, a cuidarmos ininterruptamente de nós, uns dos outros e da Terra, o nosso útero comum.
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