Chega a ser inacreditável, pelo menos para mim, que a Polícia Judiciária se tenha permitido deixar cair por mãos alheias os créditos que a dizem altamente competente e logo num caso simples de deslindar, como é o da investigação à morte na praia das Valeiras, Marinha Grande, do pároco Pe. Marco Brites, 38 anos, da Diocese Leiria-Fátima. E tenha concluído, depois de meses de investigação, pelo seu arquivamento, por falta de provas. Uma decisão que logo mereceu uma Nota informativa pública do cardeal António Marto a lamentar-se e a chorar lágrimas de crocodilo por não se ter chegado à descoberta da verdade. Lamenta Sua Eminência o arquivamento, ou congratula-se?!
É público e notório que a PJ está apetrechada de toda a tecnologia mais sofisticada para deslindar casos muito mais complicados e tem-no conseguido com sucesso. E não é capaz de deslindar um caso tão gritantemente fácil como este? Então aparece um cadáver na praia, sem ter estado desaparecido dias e noites no mar. Está ali à vista de alguém que por ali passe, acontecimento raro, nos dias em que a praia, vestida de frio, é deserta de gente viva. Avistado casualmente por um pescador desportivo, a Polícia é chamada e logo se depara com um cadáver vestido, tal como terá saído, nesse mesmo dia, de sua residência. Conclui, logo ali, que só pode ser o cadáver de um clérigo católico, pároco de profissão, da Empresa-Diocese de Leiria-Fátima, a tal que em 1930 reconhece como dignas de fé as ‘aparições’ encenadas, entre maio e outubro de 1917, pelo Cónego Fomigão, hoje a caminho dos altares, graças ao milagre de ter transformado o tosco teatrinho num poço de dinheiro e de objectos de ouro, sugados às populações mais sofridas e deprimidas do país e do mundo. Coisa muito pouca, por sinal, se comparado com o obtido através da lavagem de dinheiro sujo que a PJ nunca quis investigar, porque nunca se sabe do que são capazes a mítica senhora de fátima e o seu alto clero católico do país e do Vaticano.
Se ela e ele juntos foram capazes de derrubar a República de 1910 e implantar, em seu lugar, em Maio de 1926, o que veio a ser o Estado Novo de Salazar, com os seus 48 anos de fascismo e 13 de Guerra Colonial, o que não farão uma e outro juntos à PJ, se esta, neste caso, se descuidasse e viesse a concluir que o clérigo pároco, tido em alta estima por sua Eminência o Cardeal António Marto, se suicidou – coisa pouco provável, uma vez que o cadáver estava vestido e com todos os objectos pessoais nos respectivos bolsos – ou, hipótese mais provável, foi assassinado em consequência do seu envolvimento em cenas de sexo com mulheres, para cúmulo, algumas delas videogravadas por ele no seu próprio computador. E todas bastante comprometedoras para ele e para as envolvidas.
O meu espanto maior vai para a decisão da PJ no final da investigação de destruir aquelas gravações, como é uso e costume fazer, mas em casos de carregamentos de droga e de armas apreendidas, quando as gravações seriam sempre úteis para potenciais reaberturas do processo, possíveis até 2033. Chega por isso a bradar às ondas e às areias da praia das Valeiras esta decisão da PJ, que, deste modo, pôde devolver à Diocese o computador do seu clérigo pároco mais do que limpo. Como limpa era para o cardeal a vida deste seu clérigo pároco, no dizer da referida Nota informativa.
Espantem-se comigo. Porque se, neste caso, é muito fácil afastar a hipótese de suicídio, não assim a de homicídio. Nem seria tão difícil assim investigar potenciais suspeitos, até porque, pelo menos, um dos casos tinha a ver com uma mulher casada. Porém, o mais gritante do arquivamento é que o pároco em questão está morto e não pode explicar-se perante os pais e os paroquianos, legitimamente indignados com a PJ e com o cardeal que continua a chorar lágrimas de crocodilo. E a cultuar a sua mítica galinha de ovos de ouro, numa basílica que custou 80 milhões de euro, pagos a pronto. É preciso ter lata!
Nota: Os outros títulos dos novos Textos das Pastas:
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SALMO DO HOMEM QUE VÊ A REALIDADE E NÃO SE CALA
Ernesto Cardenal
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CORONAVÍRUS: A MILITARIZAÇÃO DAS CRISES
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