PALESTINA NO MEIO DA PROPAGAÇÃO DO CORONAVÍRUS

Obrigado ao Carlos Patrão

 

Precisamos mais do que nunca de apoio internacional e de pressão. Os palestinianos estão hoje na situação dramática de ter de escolher entre aderir às medidas de prevenção para se protegerem do coronavírus ou continuar, contra todas as probabilidades, com a resistência popular colectiva. Em qualquer dos casos, eles arriscam as suas vidas. DIVULGUE ESTE APELO: a proteção dos direitos humanos e fundiários fundamentais do povo palestiniano não deve ser suspensa.

A pandemia de COVID-19 está cada vez mais a trazer à tona as políticas racistas e desumanas de Israel. O regime do apartheid de Israel está a aproveitar-se da pandemia de coronavírus para aumentar drasticamente os seus ataques brutais contra os palestinianos, com assassinatos quase diários, e avançar rapidamente com as suas políticas de anexação, expropriação de terras e expulsão do povo palestiniano. Os ataques dos colonos estão a aumentar.

No terreno, estamos a organizar-nos para garantir que as comunidades mais visadas pelo apartheid e a ocupação israelitas e os membros socialmente mais frágeis da nossa sociedade tenham o apoio de que precisam, dos desinfectantes à comida. Mas eles precisam também do seu apoio para denunciar o modo como Israel se aproveita até mesmo do COVID-19 para promover as suas políticas de expropriação e deslocamento.

Stop the Wall pede à comunidade internacional e às organizações de direitos humanos que intervenham e apoiem o povo palestiniano na sua luta para combater tanto o coronavírus como a ocupação israelita, que se está a aproveitar deste momento para escalar as suas práticas agressivas e de colonização contra o povo palestiniano.

Contexto

Desde a propagação do coronavírus, Israel e as autoridades palestinianas na Cisjordânia ocupada e em Gaza anunciaram o estado de emergência; a ocupação israelita intensificou os ataques violentos e as campanhas de detenções contra o povo palestiniano. Dois palestinianos foram mortos pelas forças de ocupação israelitas desde a escalada da violência. Stop the Wall está preocupado com o aproveitamento pelas forças de ocupação israelitas do bloqueio e das dificuldades em organizar-se uma acção popular colectiva para roubar mais terra e recursos hídricos.

Os cuidados de saúde sob a ocupação e o apartheid são, mesmo em circunstâncias normais, um desafio. A pandemia é agora mais uma razão para Israel testar e expandir a sua capacidade de bloqueio. Os palestinianos na chamada Área C, áreas que estão sob total controlo militar e administrativo israelita e atualmente em risco acrescido de anexação, são os mais vulneráveis a esta pandemia. Se o coronavírus atingir essas comunidades, Israel colocará restrições à AP e às organizações internacionais para o fornecimento de ajuda. Essas comunidades também são vulneráveis devido às políticas israelitas de apartheid, que fazem com que elas careçam da infraestrutura necessária, como o acesso à água limpa que lhes permitiria tomar as medidas necessárias para evitar a propagação do vírus.

A política de apartheid de Israel e a desumanização dos palestinianos tornam-se cada vez mais evidentes nestes tempos: enquanto os residentes palestinianos sofrem da agressão acentuada, os privilegiados colonos ilegais são tratados e protegidos, mesmo quando atacam palestinianos. A pandemia representa um excelente momento para Israel promover e acelerar o seu projecto de limpeza étnica e anexação de terras a favor dos colonos. A situação na faixa de Gaza é ainda mais desastrosa do que na Cisjordânia, já que o cerco desumano de 13 anos tornou o sistema de saúde deficiente.

No entanto, a juventude palestiniana está a mobilizar-se em solidariedade com as comunidades marginalizadas na área C e nos campos de refugiados sobrelotados dentro da Cisjordânia. Membros do comité do Fórum da Juventude Palestiniana estão a lançar uma iniciativa para ajudar as comunidades beduínas no Vale do Jordão e as famílias necessitadas em campos de refugiados a combater o vírus. Os jovens, dirigentes da próxima geração, fornecem a essas comunidades e famílias desinfectantes e kits de primeiros socorros, além de esclarecimentos sobre a disseminação do vírus e dicas para tomar medidas de protecção.

As vidas dos palestinianos estão ameaçadas pelas balas israelitas, não só pelo coronavírus

  • No domingo 22 de março, seis balas disparadas pelas forças de ocupação israelitas na cabeça de Sofyan Al-Khawaja, de 32 anos, roubaram-lhe a vida. Mahmoud Al-Khwaja, primo de Sofyan, também foi ferido com três balas nas costas. O acto de agressão das forças de ocupação israelitas ocorreu num checkpoint militar israelita construído em terras confiscadas aos agricultores de Ni’lin. Sofyan, acompanhado de Mahmoud, voltava no seu carro para casa à noite, antes que entrasse em vigor (22:00) a decisão de quarentena tomada pelo PM palestiniano Mohammed Shtayyah para conter a pandemia. As forças de ocupação israelitas levaram o corpo de Sofyan e até agora recusam-se a dá-lo à família.
  • Na quarta-feira 11 de março, as forças de ocupação israelitas mataram Mohammed Hamayel, de 15 anos, enquanto este tentava evitar que a sua terra, o Monte Al-Arma, perto da Vila Beita, ao sul de Nablus, fosse tomada por colonos ilegais israelitas. Mais de cem outros também foram feridos, dois com balas reais que se encontram em estado grave. O uso de balas reais e a brutal violência indiscriminada contra defensores dos direitos humanos e manifestantes pacíficos pelas forças de ocupação israelitas podem iniciar outra escalada de violência contra comunidades palestinianas, particularmente crianças e jovens. As forças de ocupação israelitas e colonos têm atacado os defensores dos direitos humanos a partir de uma tenda montada desde há um mês no Monte Al-Arma. Estando a reunião de pessoas proibida nos territórios palestinianos ocupados, como medida preventiva da propagação do coronavírus, o medo que têm os palestinianos da epidemia mistura-se com o medo dos passos concretos do ocupante israelita no terreno para confiscar o Monte Al-Arma. A importância do Monte Al-Arma está na sua localização estratégica. Tem vista para o Vale do Jordão, uma terra fértil ameaçada de confisco iminente. Ocupar o topo da colina representa uma ferramenta defensiva panóptica que concede à ocupação israelita uma vista panorâmica sobre o Vale do Jordão e todo o distrito de Nablus. O confisco do Monte Al-Arma também permitiria a Israel expandir o colonato Itamar construído ilegalmente nas terras das aldeias vizinhas de Beita-Beit Foreek, Biet Dajan, Yanoun, Awrta e Aqraba. Para obter mais informações sobre o assassinato de Mohammed, veja por favor o artigo publicado no website de Stop the Wall.

Escalada de detenções apesar da pandemia do coronavírus

  • No domingo 22 de março, as forças de ocupação israelitas invadiram as casas de Mamdouh Barry e Alaa’ Sadeq de Qalqilya e prenderam-nos apesar de todos os palestinianos na Cisjordânia estarem agora de quarentena. No meio da epidemia, as vidas de Barry e Sadeq ficam expostas ao perigo de apanharem o COVID-19 através de contacto com os soldados israelitas.
  • Na quarta-feira 18 de março, 9 jovens palestinianos foram presos num ataque durante a noite em diferentes áreas da Cisjordânia ocupada: seis jovens palestinianos foram detidos em Ramallah, dois em Jerusalém e um em Qalqilya. A detenção de palestinianos de Jerusalém nunca foi interrompida; alguns foram presos quando estavam a limpar os seus bairros como medida de protecção contra o coronavírus.1

O isolamento dos presos palestinianos não os protege do coronavírus

  • A Palestinian Prisoners’ Society anunciou no dia 19 de março que quatro presos palestinianos tinham sido infectados com o coronavírus na prisão de Megiddo, depois de terem tido contacto com um preso que por sua vez foi infectado por um interrogador israelita no centro de investigação “Petah Tikva”. Actualmente, os prisioneiros palestinianos nas cadeias israelitas estão em risco de serem infectados pelos guardas e investigadores que, evidentemente, já representavam uma ameaça para os presos antes da propagação do coronavírus.2
  • As autoridades israelitas de ocupação excluíram os 5.000 prisioneiros palestinianos das medidas de emergência para conter e mitigar a pandemia. A administração penitenciária israelita decidiu cortar o fornecimento de produtos desinfectantes e produtos químicos higiénicos para as cantinas que vendem produtos aos prisioneiros. Instamos as organizações internacionais de direitos humanos a intervir para proteger a vida dos prisioneiros palestinianos; principalmente, fornecendo-lhes desinfectantes e buscando medidas preventivas conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

Enquanto a pandemia se expande, o território dos palestinianos encolhe

  • Há mais de uma semana, o PM israelita Benjamin Netanyahu anunciou perante os seus eleitores que pretende anexar o Vale do Jordão para torná-lo parte integrante de Israel, além de desenvolver colonatos ilegais israelitas noutras partes da Cisjordânia ocupada. O ministro israelita da Proteção Ambiental também proclamou que o objectivo é impor a soberania de Israel sobre o Vale do Jordão dentro de seis meses.3 No meio da pandemia, a luta popular dos palestinianos, que se mostrou eficaz para apoiar a firmeza das comunidades ameaçadas na área C e para evitar, ou pelo menos dificultar, os avanços da ocupação israelita para a anexação, tem de fazer uma pausa temporária. Isso significa que, para os palestinianos, a saúde e as terras estão em risco: os palestinianos soam o alarme sobre ambos, o coronavírus e a anexação do Vale do Jordão.
  • O Vale do Jordão constitui cerca de 30% da Cisjordânia. É uma faixa de terra fértil que os palestinianos consideram como a maior reserva de terra para o seu futuro Estado. A anexação do Vale do Jordão vai comprimir os palestinianos em bantustões ainda mais pequenos e impedi-los de conseguir qualquer desenvolvimento potencial. O “roubo do século” de Trump dá a Israel luz verde para anexar a área C, em particular o Vale do Jordão. A anexação de território palestiniano legitima e legaliza as práticas de expansão de colonatos na Cisjordânia desenvolvidas desde 1967.

Coronavírus: a nova maneira de os colonos israelitas intimidarem os palestinianos

  • Enquanto a Autoridade Palestiniana tenta restringir o movimento dos palestinianos até nas suas próprias cidades como medidas de proteção contra o coronavírus, no meio da escassez de instalações médicas, dezenas de colonos ilegais israelitas visitaram o sítio arqueológico de Sebastia (distrito de Nablus) sob a proteção do exército israelita. A presença dos colonos e do exército israelitas nas cidades palestinianas representa uma ameaça real, infligindo intimidação à população palestiniana, pois há uma notável expansão da pandemia entre os israelitas.4

Demolição de casas

  • Enquanto milhões de pessoas em todo o mundo, incluindo em Israel, estão de quarentena nas suas casas, como forma de se protegerem contra o COVID-19, cerca de uma semana atrás, uma família palestiniana do campo de refugiados de Shufat em Jerusalém ocupada foi forçada a demolir a sua própria casa! O Supremo tribunal israelita ordenou que a família demolisse a sua casa, alegando que ela foi construída sem licença de construção, o que as autoridades israelitas dificilmente emitem para os palestinianos. Tareq Mohammed Ali, o dono da casa, decidiu demoli-la, pois se se recusasse a fazê-lo teria de pagar as despesas da demolição caso ela fosse realizada pelas autoridades de ocupação israelitas. As autoridades israelitas praticam o apartheid contra o povo de Jerusalém, incluindo a rejeição de licenças de construção como uma maneira de reduzir gradualmente o número de palestinianos que vivem em Jerusalém, enquanto aumentam o número de judeus como forma de limpeza étnica dos palestinianos da sua cidade.5

A faixa de Gaza sitiada é a mais vulnerável ao coronavírus

  • Países desenvolvidos como a Itália e a Coreia do Sul, que não sofrem com ocupação militar de longa data e tremendas práticas de opressão e apartheid, estão a enfrentar um verdadeiro desafio para conter e mitigar a epidemia. Dois palestinianos vindos do exterior contraíram o COVID-19 e estão de quarentena desde que chegaram a Gaza. Se o COVID-19 atingiu a densamente povoada faixa de Gaza e colocou os seus 2 milhões de pessoas, que ainda estão a tropeçar sobre os escombros das suas casas destruídas por violentos ataques israelitas e a tentar curar as feridas dos manifestantes pacíficos que protestaram nas fronteiras com Israel, quando a Grande Marcha do Retorno eclodiu em 2017, as consequências que serão infligidas ao povo de Gaza serão desastrosas.
  • Em 2012, as Nações Unidas alertaram que até 2020, a Faixa de Gaza tornar-se-ia inabitável.6 2020 começou e trouxe consigo uma epidemia que vai piorar a situação no momento em que a COVID -19 encontrar uma lacuna no cerco hermético que Israel impõe a Gaza, que, de acordo com relatórios da ONU, tem causado uma grave escassez de suprimentos médicos. De acordo com um relatório publicado pela OCHA, 97% da água em Gaza não é potável.7 Isso significa que os médicos em Gaza nem sequer encontram água limpa para desinfectar as mãos antes de tratar as pessoas. 70% das pessoas em Gaza são refugiados expulsos das suas terras quando Israel foi criado em 1948. Eles recebem ajuda da Agência das Nações Unidas para o Socorro e o Trabalho (UNRWA), incluindo medidas de saúde e proteção contra a pandemia. No entanto, a UNRWA anunciou recentemente que precisa urgentemente de 14 milhões de dólares para responder à forte situação de emergência na Palestina e nos países árabes receptores de refugiados após o surto do COVID-19. O apelo que a agência lançou recentemente aponta as necessidades para a saúde e outros serviços relacionados com a contenção e a mitigação da pandemia na Cisjordânia, Gaza, Jerusalém Oriental, Jordânia, Líbano e Síria. O comissário-geral interino da UNRWA, Christian Saunders, afirmou que “as condições de vida sobrelotadas, o stress físico e mental e os anos de conflito prolongado tornam vulnerável uma população de mais de 5,6 milhões de refugiados palestinianos particularmente susceptíveis à ameaça permanente do COVID-19.”.8
  • A crise financeira que a UNRWA enfrenta atualmente começou em 2018, quando o governo dos EUA cortou a ajuda financeira à UNRWA, uma “operação irremediavelmente falhada”, tal como a descreve a administração, especificamente para programas de apoio aos refugiados palestinianos em Gaza.9 A política do governo dos EUA em relação à UNRWA desde que o presidente Donald Trump chegou ao poder é uma tentativa de liquidar a causa dos refugiados palestinianos. Isso combina com o que Trump anunciou no “Acordo do Século” em janeiro passado: os refugiados palestinianos devem desistir do seu direito de retorno.

Notas:

1http://english.pnn.ps/2020/03/18/iof-arrest-9-palestinians-in-overnight-raids/

2https://www.middleeasteye.net/news/coronavirus-palestine-prisoners-israel-jail-test-positive-covid-19

3http://english.pnn.ps/2020/03/10/netanyahu-vows-to-impose-israeli-sovereignty-over-jordan-valley-and-settlements/

4https://www.palestinechronicle.com/israeli-army-allows-settlers-into-west-bank-site-despite-coronavirus-closure/

5https://www.palestinechronicle.com/palestinian-family-forced-to-demolish-its-home-in-jerusalem/

6https://www.unrwa.org/newsroom/press-releases/gaza-2020-liveable-place

7https://www.ochaopt.org/content/study-warns-water-sanitation-crisis-gaza-may-cause-disease-outbreak-and-possible-epidemic

8http://english.pnn.ps/2020/03/18/unrwa-launches-covid-19-us-14-million-flash-appeal-for-palestine-refugees/)

9https://www.theguardian.com/world/2018/aug/31/trump-to-cut-all-us-funding-for-uns-main-palestinian-refugee-programme

Versão original:

https://www.stopthewall.org/2020/03/24/palestine-amid-spread-coronavirus

 

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