A GALIZA COMO TAREFA – estio- Ernesto V. Souza

A tarde avança no sentido do relógio, observo a luz ir batendo contra a janela do salão e depois correndo a parede no pátio da cozinha. O calor de verão e tormenta em Castela desespera, e as nuvens e os reflexos dos CDs pendurados para dissuadir pombas nas casas vizinhas dispõem caprichosas alternâncias.

0nrgdyXqkg1UxOt_xPetisco nos Essais de Montaigne, numa edição francesa dos anos 40, em seis tomos, mas um de propina com a viagem na Itália, que comprei, encadernada num azul símil-coiro e belas guardas marmoreadas, há bem de anos, numa viagem pela Bélgica.

Alterno com páginas soltas das Conversaciones literarias de Lampedusa, numa humilde tradução castelhana publicada na Bruguera Libro Amigo, que são as que me levaram de volta ao fidalgo gascão. E num salto associativo que não figura nas páginas diante, mas sempre acontece, a Eça de Queiroz, Valle-Inclán e Otero Pedrayo.

Ponho música de Boccherini. Imagino-me, por um momento, perfeitamente na Sicília, na Donnafugata palaciana, fílmica e tudo decadência bourbónica, como aquele outro palazzo que tanto percorremos em Arenas de San Pedro. Ou imagino-me ao Sul do Tejo ou até Alentejo por caminhos de sol; por mais que é Norte do Douro, beira do Pisuerga onde me passa a tarde. Talvez daí a aparição daqueles outros fidalgos nortenhos, reclamando presença nas fantasias estivais.

Posso percorrer algumas páginas queridas de todos eles, sem sair do salão, ou evocar na memória sensações, simplesmente pelo prazer de deixar correr a tarde, a cavalgar prosas e divagações e a apanhar sem pretender doutrina. Afinal é a vida mesma a que passa.

Cada vez mais gosto dos ensaios e das divagações soltas e bem escritas que combinam a própria vida com leituras, sensações, e interpretações de acontecimentos, presentes ou passados. E a cada dia gosto menos da história. Da pretensa História e da objetividade seca dos historiadores académicos. Dentro destes, os anglo-saxões é que sabem manter o tipo e o estilo. A história tem de ser uma narrativa verosímil. Com os seus troppos que referenciam a sociedade e o momento em que se produz e todas as metáforas bem postas como chamados luminosos. Se não é, fica suspeita. Mas por mais que pretenda não pode ser objetiva. Aparenta. A objetividade é uma técnica com assombrosas afinidades com o trompe-l’oeil.

Saber se expressar com claridade e estilo, ser capaz de escrever como como Parrásio pintava uma teia, e fazer passar as próprias ideias ou simplesmente as que vão abrolhando na escrita como objetividade, eis a técnica do ensaista. Quem precisa de ser comovente ou convincente, quando dacavalo de uma bela erudição e não pouco ceticismo mundano pode ir deixando as imagens para o leitor descobrir por ele ideias.

 

1 Comment

Leave a Reply