O JAZIGO, de EVA CRUZ

 

Perante a impossibilidade de voltarmos à vida depois da morte, impõe-se o luto e a memória como forma de consolação, traduzindo-se das formas mais diversas. Velas e flores, campas rasas dos mais pobres, túmulos e jazigos mais ou menos sumptuosos e alminhas nas encruzilhadas dos caminhos a lembrar que a morte é de todos. Mas o estatuto social, até nos cemitérios, onde a morte tudo nivela, gosta de se impor, havendo inclusivamente sepulturas perpétuas, registadas oficialmente, constando na relação de bens que conferem direito de propriedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é assunto sobre o qual me agrade escrever e só o faço para complementar um artigo que escrevi há pouco tempo, onde refiro o jazigo da família de Bernardo Soares de Almeida, irmão de nosso avô materno, cujo apelido ainda consta no meu nome. Como o artigo era sobre nossa mãe e a sua vida na Quinta dos Castelos, em Coimbrões, e tantas vezes ela dizia que na sua juventude ia todos os sábados acender velas e enfeitar com flores o jazigo familiar, lá fomos, por curiosidade e saudade, à sua procura naquela enorme cidade dos mortos. Na verdade, no extenso cemitério de Santa Marinha, no Candal, em Coimbrões, ele lá se encontra há muitas décadas, como serena e silenciosa muralha contra o tempo. Falsa muralha do tempo, por mais artística que seja a sua traça tumular dos fins do século XIX, princípios do século XX.

Por aqui me fico. Só a saudade nos faz percorrer estes caminhos tão longínquos, a saudade das flores de que minha mãe sempre gostou e amou, saudade da arte com que tão bem lidava com elas, e, porventura, da singeleza com que as dispunha nesse túmulo já tão antigo.

Ainda hoje vejo flores nascerem de suas mãos.

 

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