Numa tradução de Pedro Eiras e co-edição Flop e apoiantes. O tradutor explica na Nota de Abertura:
“Em 1937, no regresso de uma viagem à Irlanda envolta em mistério, Antonin Artaud é compulsivamente internado no Hospital Geral do Havre; os médicos consideram-no delirante e perigoso. Durante cerca de uma década, viverá entre hospícios…..Em Rodez, apesar de protestos veementes, é submetido a cinquenta e uma sessões de electrochoques; numa delas fractura uma vértebra; noutra, porque leva hora e meia a acordar do coma, chega a ser dado como morto. Em 1946, o seu médico, Gaston Ferdière, permite-lhe viver numa casa de saúde de Ivry e regressar à vida activa em Paris. Artaud tem 49 anos…. grava uma emissão de rádio – Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus – que o director-geral Wladimir Porché, escandalizado, decide adiar indefinidamente, entenda-se: proibir. Nem a opinião favorável sobre a emissão por diversos intelectuais consultados, nem os protestos do próprio autor conseguem vencer essa censura. A 4 de 16 Março de 1948, Antonin Artaud é encontrado morto no seu quarto, por uma overdose de hidrato de cloral: acidente ou, como sugere Paule Thévenin, morte voluntária.
Fotografia: Antonin Artaud (1896-1948) no filme “A paixão de Joana d’Arc” por Carl Theodor Dreyer.
“Entre o corpo e o corpo não há nada,
a não ser eu.
Não é um estado,
nem um objecto,
nem um espírito,
nem um facto,
e ainda menos o vazio de um ser,
absolutamente nada de um espírito, nem do espírito,
nem um corpo,
é o eu intransplantável.
Mas não um eu,
pois não tenho tal.
Eu não tenho um eu, mas não há senão eu e ninguém,
nenhum encontro possível com o outro,
o que eu sou não tem diferenciação nem oposição possível,
é a intrusão absoluta do meu corpo, por todo o lado”
Este volume reúne diversos textos escritos nos últimos três anos de vida de Antonin Artaud.….Reconhecem-se nestes textos os temas recorrentes de Artaud: a invenção de uma língua, em parte constituída por gritos e glossolalias, acto mágico que recusa tanto o logos quanto a praxis das instituições; a experiência da violência, da crueldade, da mostração obscena e imediata do ser; a loucura, ou aquilo que as sociedades catalogam e encerram enquanto loucura, o confronto feroz da clínica contra o artista (Van Gogh, mas também Nerval, Poe, e o próprio Artaud); a morte que daí decorre, o suicídio que é sempre assassinato de um por muitos.”
É uma co-edição Flop e diversos apoiantes. A editora é apresentada assim:” “A Flop propõe-se publicar apenas, e sem concessões, altíssima literatura; o que torna claro o nome e certo o colapso financeiro”. É propriedade do escritor Rui Manuel Amaral.
“P.-S. Quero apresentar uma queixa porque encontrei no electrochoque
mortos que preferia não ter visto.
Os mesmos mortos
que esse livro imbecil chamado
Bardo Todol t
em drenado e oferecido desde há um pouco mais de quatro