Inserido na coletanea de contos “Bestiário”, publicada em 1951, “Casa tomada” resulta de um sonho de Cortázar. Trata-se da história de um casal de irmãos (o narrador-protagonista e Irene) que vivem tranquilos e alheios do mundo na casa de seus antepassados. No entanto, essa aparente tranquilidade será rompida por ruídos provenientes da parte mais afastada da casa, ao que os irmãos reagem de forma passiva, simplesmente fechando a porta que dá acesso àquele espaço. Com o passar do tempo, os ruídos invadem toda a casa. Noutra atitude passiva, o narrador e sua irmã resolvem abandoná-la, levando apenas a roupa do corpo.
Acaba e questionamo-nos: será que foi tomada por algo que não é revelado? Será que eles sabem o que invadiu sua casa? Se nem eles sabem, por que abandonar a propriedade?
O clima fantástico instala-se não a partir desses ruídos que os irmãos escutam, mas da atitude que adotam, do acatamento cego dessa ‘presença’ e de sua retirada, sua fuga. Em nenhum momento eles pensam em investigar.
Uma leitura possível leva-nos até à hipótese de ser uma metáfora sobre a ditadura, que toma um país e faz com que alguns de seus cidadãos, pessoas que teoricamente têm direito de morar nesse local, tornem-se exilados, como pode ser uma metáfora sobre a passividade do homem, que não busca conhecer ou reagir a determinadas situações e se contenta em reconhecer que elas são inevitáveis.
“Nem sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta, sem olhar para trás. Os ruídos ficavam mais fortes, mas sempre abafados, às nossas costas. Fechei de um golpe a porta e ficamos no saguão. Não se ouvia nada agora. ― Tomaram esta parte ― disse Irene. O tricô descia de suas mãos e os fios iam até a porta e se perdiam por debaixo dela. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, ela largou o tricô sem ao menos olhá-lo. ― Você teve tempo de trazer alguma coisa? ― perguntei-lhe inutilmente. ― Não, nada. Estávamos com o que tínhamos no corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no guarda-roupa do meu quarto. Agora era tarde. Como me sobrava o relógio de pulso, vi que eram onze horas da noite. Cingi com meu braço a cintura de Irene (eu acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de nos afastarmos senti tristeza, fechei bem a porta de entrada e joguei a chave no bueiro. Não fosse algum pobre-diabo resolver roubar e entrasse na casa, a essa hora e com a casa tomada.”
Júlio Cortázar conta (in Bula Revista, Remy Gorga, 23/03/2009) que este conto resulta de um pesadelo. “Eu sonhei aquilo. A única diferença entre o sonho e o conto é que, no pesadelo, eu estava sozinho. Estava numa casa, que é exatamente a casa descrita no conto, e via tudo com muitos detalhes, e num dado momento ouvi ruídos vindos da cozinha, fechei a porta e voltei. Ou seja, adotei a mesma atitude que os irmãos adotam no conto. Isso, até um momento totalmente insuportável em que – como acontece em alguns pesadelos, os piores são os que não têm explicação, e são simplesmente o horror em estado puro – o espanto total consistia nesse som. Eu me defendia como podia, ou seja, fechando as portas e olhando para trás. Até que acordei, espantado. Posso dar um detalhe engraçado: lembro-me muito bem porque me ficou uma espécie de gestalt completa do assunto. Era pleno verão, e eu acordei encharcado, por causa do pesadelo. Já era de manhã, me levantei – a máquina de escrever ficava no meu quarto – e nessa mesma manhã escrevi o conto inteiro, de um tirão. Começo falando na casa, você sabe que eu descrevo muito, porque a tinha diante dos olhos. A primeira frase é esta: “Gostávamos da casa porque além de espaçosa e antiga (hoje em dia as casas antigas sucumbem frente à liquidação de seu material, mais vantajosa) guardava recordações de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e a infância inteira.” Mas, de repente, o escritor entrou em ação. Percebi que aquilo não podia ser contado com um personagem só, tinha que vestir um pouco o conto com uma situação ambígua, uma situação incestuosa, o casal de irmãos de quem se diz viver como “um simples e silencioso casamento de irmãos”, esse tipo de coisa. Essa carga eu fui acrescentando, não estava no pesadelo. Aí você tem um caso em que o fantástico não é algo que eu comprove fora de mim, mas que vem de meu sonho. Acho que, dos meus contos, uns vinte por cento surgiram de pesadelos”.
A escrita destes contos corresponde ao período anterior ao que Cortázar se auto desterrou (voluntária e definitivamente) na Europa em protesto contra a ditadura do general Perón. Foram publicados com a chancela da Editorial Sudamericana, em Buenos Aires, e que ganhou fama nos meios literários argentinos, também devido ao seu título estranho mas muito ilustrativo do seu conteúdo: “Bestiário”.
Era a primeira vez que o autor publicava um livro em prosa com o seu nome (antes utilizara o pseudónimo Júlio Denis), talvez consciente de que acabara de enviar ao prelo aquilo que hoje é considerado uma obra-prima.