Afonso Cruz publicou na colecção “Retratos da Fundação” (Fundação Francisco Manuel dos Santos) O Macaco Bêbado Foi À Ópera – Da Embriaguez À Civilização. Trata-se de um ensaio sobre a presença do álcool na vida do ser humano. Para o autor com mais virtudes do que defeitos.
Descreve que o cheiro de fruto maduro, carregado de açúcar, fez com que o macaco descesse à terra, pousasse os pés no solo, e começasse à procura de mais frutos. A recompensa valia o perigo. Pretendia obter ter mais energia. Essa energia possibilitou ter um cérebro maior e com mais plasticidade, aumentando lentamente a inteligência. Mas não só de açúcar se tratou. Os frutos demasiado maduros em fermentação, criam etanol.
Com esta descida se deu o primeiro passo para milénios mais tarde o macaco ir à ópera. Com a descida das árvores o macaco pode ter um órgão hipertrofiado que gasta a maior parte das nossas calorias: o cérebro. Este despende, cerca de setenta por cento do total gasto pelo corpo.
Esta teoria posiciona o álcool na origem da evolução humana e justifica a nossa insaciabilidade milenar. Afonso Cruz junta-se a outros neste retrato da nossa civilização acumuladora, gananciosa e um tanto louca. Fala da criação da cerveja, que impulsionou a sedentarização e das consequências do consumo de álcool.
Segundo Afonso Cruz, “O crescimento económico contínuo é a insaciabilidade do macaco bêbado.” A pulsão simples foi-se manifestando em formas diferentes. A acumulação de energias diversas ( lenha, carvão, petróleo, ou energia eléctrica e nuclear) que corresponderão ao desejo de açúcar, ou seja, de energia. A acumulação de prata, ouro, joias e propriedades serão o equivalente à acumulação de gordura, que pode vir a ser transformada em energia. A acumulação de gordura é “o primeiro mecanismo biológico da ganância”. A base é biológica, mas a consequência será política. A acumulação pode ser benéfica (colecção de livros, de arte), ou trazer consequências nefastas. O ser humano cai num ciclo vicioso de ganância, apropriação, escravidão, capitalismo.
O autor junta-se a investigadores que apontam no mesmo sentido (Patrick E. Govern, em Uncorking the Past: the Quest for Wine, Beer, and Other Alcoholic Beverages, Nicholas P. Money em The Rise of Yeast: How the Sugar Fungus Shaped Civilization. e Desmond Morris).
O escritor Afonso Cruz, é também ilustrador, músico, realizador e produtor de cerveja artesanal. Já num anterior romance – “Jesus Cristo Bebia Cerveja” – originalmente publicado em 2012, estivera perto deste assunto.