Seleção e tradução de Francisco Tavares
Os novos pobres da pandemia: da economia subterrânea e da precariedade ao desamparo
Os serviços sociais, as ONGs e os coletivos sociais alertam para a emergência com a crise de novos grupos de exclusão, entre os quais se destacam os trabalhadores precários expulsos de sectores como a hotelaria e o comércio e os que subsistiam em atividades informais, enquanto dispara a necessidade de ajuda entre os idosos e as famílias monoparentais, os sem-abrigo estão a aumentar e os jovens sem recursos começam a acumular-se.
Publicado por
em 09/11/2020 (ver aqui)

“Pandemia” começa com p, como em “pobreza”, o maior e mais grave dos efeitos secundários do coronavírus, o qual mata dezenas de milhares de pessoas. Desde o primeiro dia, e cada dia que passa com maior intensidade, emerge uma realidade chocante em que mais de um milhão e meio de pessoas precisam de ajuda para poderem comer e um número semelhante precisa de ajuda para pagar a eletricidade enquanto o número de sem-abrigo aumenta.
A crise desencadeada em torno do coronavírus está a intensificar a pobreza num país que foi surpreendido pela pandemia com uma taxa de exclusão tão difícil de suportar como crónica, acima dos 20% da população (18,6% se se descontar os pobres com casa paga), de acordo com o Inquérito às Condições de Vida do INE (Instituto Nacional de Estatística), que coloca o limiar de pobreza num rendimento anual de 10.579 euros para pessoas que vivem sozinhas e 22.216 para famílias com dois adultos e duas crianças.
Um em cada cinco espanhóis já era forçado a sobreviver com menos do que esse dinheiro antes da pandemia, e a situação não faz mais que empiorar desde que afetou a frágil estrutura social e económica do país, segundo revela o “Monitor de Impacto de la Covid-19 sobre los Servicios Sociales” que cinco universidades espanholas prepararam para o INAP (Instituto Nacional de Administración Pública) sob a coordenação de Inés Calzada, especialista em Metodologia das Ciências Sociais da Universidade Complutense de Madrid.
O relatório, o primeiro de uma série que durará pelo menos um ano, revela como, juntamente com os utilizadores mais habituais, basicamente devido ao seu baixo rendimento, a pandemia trouxe para os serviços sociais em todo o país (estudaram o que aconteceu em 50 centros em cinco comunidades) “um novo perfil de pessoas consideradas (…) normalizadas que viram a sua economia familiar diretamente afetada pelo confinamento e pelo atraso no recebimento da ajuda económica promovida pelo governo central” e que, em consequência, precisavam de ajuda para o pagamento da renda, provisões básicas, transporte e produtos alimentares e de primeira necessidade como fraldas, sabão ou papel higiénico.
“O aumento da procura tem sido brutal, com uma procura muito elevada, gastámos quase toda a dotação anual de emergência social (75%) em poucos meses. Gastámos todo o orçamento em seis meses”, explica um funcionário dos serviços sociais de um município de Madrid, enquanto outro de Saragoça destaca como “numa questão de quatro meses tivemos de abrir mais de 2.000 novos processos”.
As conclusões dos Serviços Sociais e ONGs apontam para o aparecimento de novos perfis de pobres, destacando-se entre eles os trabalhadores precários em setores afetados pelas restrições como a hotelaria e o comércio e os que sobreviviam na economia subterrânea, enquanto aumenta a procura de ajuda por parte dos idosos e das famílias monoparentais e de um cada vez maior número de jovens, ao mesmo tempo que se propagam fenómenos como o dos sem-abrigo. São os novos pobres da pandemia.
Trabalhadores precários do setor dos serviços: a rotação dos novos pobres
“Com o confinamento, começaram a chegar aos serviços sociais pessoas que nunca tinham sido utentes, principalmente ligados à economia subterrânea e também trabalhadores precários que tinham perdido os seus empregos”, explica Ana Lucía Hernández, professora de Trabalho Social na Universidade de Saragoça e uma das autoras do relatório.
Um grande número destes trabalhadores precários veio de setores como a hotelaria e o comércio, onde as taxas de temporalidade, rotação e baixos salários são comuns e só lhes permitem viver de dia para dia, com quase nenhum excedente para poupar. Neste grupo, o atraso no processamento dos benefícios dos ERTE (Expediente de Regulación Temporal de Empleo) levou a um aumento da procura de ajuda para cobrir as necessidades primárias.
“Os montantes económicos atrasaram-se tanto que as suas escassas poupanças os impediram de resistir para além do mês de Março”, diz o relatório. E o escoamento dos benefícios não resolveu o problema: “Muitos pediram ajuda de emergência uma e duas vezes e depois a sua situação foi resolvida, ou porque a ajuda chegou ou porque começaram a trabalhar em campanhas de Verão”, explica Hernández, que, no entanto, salienta que “continuam a ser utilizadores dos serviços sociais a nível de grupo porque estão a ser substituídos. Houve um aumento e há uma rotação: uns abandonam o sistema e outros entram”.
“É cada vez mais frequente os trabalhadores da indústria hoteleira e do comércio pedirem ajuda. Até agora, se trabalhasse, a sua família aguentava com esse rendimento, mas agora as empresas já não os enviam para o ERTE,antes os despedem porque não vêem saída para o negócio”, diz Santiago Sánchez, grande irmão da Hermandad da ONG El Refugio de Saragoça.
Economia subterrânea: o setor mais importante do país está a meter água por todos os lados, afunda-se
Diferentes estudos estimam o peso da economia subterrânea em Espanha em cerca de 20% do PIB, com um intervalo de 17,9% a 24,5% de acordo com os estudos compilados pelo grupo de reflexão Funcas, o que significa que é o principal setor do país. E o confinamento imobilizou este setor, o que deixou largas camadas da população sem qualquer tipo de rendimento ou reduziu-o drasticamente.
Além disso, “muitos dos novos perfis [dos utentes dos serviços sociais] identificam-se com pessoas cuja principal fonte de rendimento se deve em grande parte ou totalmente à economia subterrânea, pelo que lhes tem sido impossível candidatarem-se a qualquer dos benefícios especificamente concebidos para combater os despedimentos temporários”, explica o relatório, o que reflete, por esta razão, “um enorme aumento da procura” na área da ajuda de emergência para aceder a bens básicos.
“Muitas pessoas que não faziam parte das redes dos serviços sociais começaram a vir por necessidade”, observa Hernández, enquanto Sánchez realça o “caos” em que muitas mulheres que ganhavam a vida como empregadas de limpeza e cuidadoras ficaram sem emprego de um dia para o outro.
“Enfrentavam pessoas que não queriam que entrassem nas casas devido ao risco de contágio e, noutras, a pessoa idosa de quem cuidavam tinha morrido. O que mais nos está a chegar são pessoas que vêm da economia subterrânea”, explica ela. “Vai ser muito difícil para estas pessoas conseguirem novamente um emprego, mesmo que seja de novo na economia paralela”, acrescenta, o que as coloca numa encruzilhada: “O que se faz se não se conseguir algo para sobreviver? Morre-se a tentar?”
A afluência de pessoas idosas aos serviços sociais está a crescer
“Os idosos e os dependentes sempre fizeram parte dos grupos de utentes”, diz Hernández, que chama a atenção para a forma como a sua procura de ajuda e cuidados disparou com a pandemia.
No início, com o confinamento, era relativamente comum os idosos darem baixa de serviços como os cuidados domiciliários por duas razões: a família estava mais em casa e havia rejeição que pessoas de fora entrassem no lar por medo de contágio. Isto, apesar de terem sido implementadas em todo o país redes de apoio emocional, com telefonemas frequentes para se informar sobre o seu estado, e também tarefas como as relacionadas com as compras semanais, libertou recursos para atender novos utentes, tais como aqueles que deixaram de ter acesso a alimentação económica com o encerramento dos centros de dia.
“Agora os primeiros regressam e os segundos permanecem. A maioria daqueles que deixaram de receber cuidados sofreram uma deterioração que agora requer apoio”.
“Durante o confinamento, surge um perfil de pessoa idosa que vive sozinha [e] que até esse momento interagia com o resto do bairro, [mas] quando o confinamento ocorre, a situação agrava-se porque não sabes se estás bem”, explica um trabalhador dos serviços sociais em Madrid, porque “o tecido social que até esse momento cuidava destas pessoas idosas não pode continuar a fazê-lo”. Nesses casos, a pobreza e a solidão sobrepõem-se.
Mulheres em situação de subemprego que lideram famílias monoparentais
O Relatório III sobre os Serviços Sociais em Espanha do Conselho Geral do Trabalho Social aponta como o perfil médio do utente dos serviços sociais “uma mulher, de origem espanhola, com estudos secundários, com responsabilidades familiares e com um certo grau de cronicidade nas intervenções sociais deste ou de outros sistemas de proteção”. Esta é uma descrição da mulher de baixos rendimentos que tem a cargo uma família monoparental, um grupo cuja presença também cresceu com a crise provocada pela pandemia.
“Tem havido um mau planeamento para lidar com a pandemia, e isso está a afetar muitas pessoas que estavam à beira da pobreza”, nota Sánchez, que concorda com Hernández ao apontar este grupo, que muitas vezes subsiste na economia informal, como um dos mais afetados pela situação. “Eles viveram uma situação muito particular devido à perda de emprego”, diz ele.
Os jovens emancipados começam a aparecer
A presença de jovens é escassa entre os grupos que foram mergulhados na pobreza pela crise da pandemia, apesar da intensidade com que estão a sofrer os seus efeitos, com 300.000 expulsos do mercado de trabalho até agora este ano.
“Quase nenhum jovem vem pedir ajuda, mas isso é porque na maioria dos casos estão incluídos na família” que o ajuda, explica o chefe do El Refugio, que no entanto assinala que há uma ligeiro aumento entre os emancipados. “Ainda não começaram a emergir”, concorda Hernández.
O problema dos sem-abrigo dispara com a crise pandémica
“Enquanto não se podia sair de casa, havia pessoas que não estavam em nenhuma casa”, explica Hernandez, que aponta os sem-abrigo como outro dos grupos centrais de vítimas da crise. Esta é outra das rupturas sociais do país, em que o vertiginoso empobrecimento que o abrandamento económico provocou na sociedade espanhola e a lenta implementação de alguns dos paliativos está a causar um aumento constante dos sem-abrigo.
“Neste momento, há mais de 300 pessoas na rua em Saragoça. Isso é muita gente”, explica Pepe Fernández, do Colectivo Dignidad. Esse número não está longe de triplicar, em menos de meio ano, o número de 117 que a Câmara Municipal tratou na Primavera passada. E esta é uma cidade onde predominam as médias estatísticas e as tendências de estudos de sondagens.
“E o frio está a chegar”, recorda, à medida que os acampamentos de sem-abrigo proliferam por toda a cidade: estão debaixo das pontes de Ferro e Santiago e na passarela de La Unión, nas margens do Ebro; uma dúzia de sem-abrigo vivem no quiosque de La Almozara e mais de trinta no Parque Bruil e perto de La Romareda, enquanto os sem-abrigo do hotel San Valero ficam ao lado do edifício IASS (Instituto Aragonés de Servicios Sociales).
“As pessoas que costumavam trabalhar na economia subterrânea, na sucata e nos mercados de velharias, por exemplo, não podem agora fazer nada. Muitos estão nas ruas, praticamente não há ajudas e os abrigos estão cheios”, diz ele, enquanto alerta para os problemas que os atrasos e condições do IMV (Rendimento Mínimo de Vida) e o salário social regional de transição para o mesmo causarão entre aqueles que conseguem alugar apartamentos em grupos. “Muitas pessoas ficarão de fora”, diz ele, ao limitá-lo a dois beneficiários por agregado familiar.
Os serviços sociais também sofrem com a pandemia
“Os pedidos acabam por ser satisfeitos, mas levam mais tempo do que o habitual, porque somos os mesmos mas há o dobro da procura a que não conseguimos fazer face”, explica um assistente social da Andaluzia, num exemplo de como a pandemia alterou o funcionamento dos serviços sociais.
O relatório descreve como com o confinamento e as suas consequências “ficou debilitada toda a atenção que é mais própria do trabalho social”, que “desempenha um papel central na prevenção da exclusão social e na construção de sociedades inclusivas: apoio à dependência, programas de formação destinados a populações vulneráveis, tanto menores como adultos, projetos de trabalho social de grupo e, finalmente, programas de intervenção comunitária”.
A par disto, acrescenta o documento, “a sobrecarga gerada pelos novos candidatos, juntamente com a dificuldade de realizar entrevistas ou visitas presenciais, atrasou o processamento de algumas ajudas, entre as quais se destacam as relacionadas com a Dependência e os enormes atrasos sofridos pelas avaliações” destas últimas.
“Os trabalhadores dos serviços sociais sofreram uma sobrecarga emocional”, nessa fase inicial, explica a professora, enquanto que agora, perante a segunda vaga da pandemia, terceira em alguns territórios, “o sentimento mais presente é a incerteza sobre o que irá acontecer, tanto com a evolução da doença como com a da sociedade. “Eles sentem-se mais preparados para enfrentar o que está para vir, mas há muita incerteza sobre o que está para vir”, acrescenta ela.
A situação é semelhante nas ONGs, onde as preocupações incluem também a disponibilidade económica. “As famílias vêm para pedir comida e para pedir continuidade”, observa Sánchez, que recorda como “em Setembro tínhamos atingido o volume de cuidados para 2019” com um ritmo de 60 famílias por dia. “Atendemos a mais de mil e continuaremos a ajudar enquanto pudermos”, diz ele.
___________________
O autor: Eduardo Bayona, jornalista autónomo em Zaragoza, desde 2014 escreve para jornais como Publico.es, Ctxt.es, elDiario.es/Aragon. Licenciado em Ciências da Informação pela Universidade de Navarra, especialista em criminologia pela UNED.



