
Parte I – Rebentam as primeiras bombas que sinalizam a vinda da próxima crise
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5. Um outro olhar sobre o disfuncionamento dos mercados financeiros
5.6. Jogando com a GameStop
Publicado por
em 09/02/2021 (original aqui)
Publicado simultaneamente em Brussels Morning (https://brusselsmorning.com)
O alarde em torno do caso “Gamestop” mostra o pouco que ainda sabemos sobre os mercados financeiros. Mas ninguém pergunta porque é que tantas pessoas altamente talentosas com tanto dinheiro não podem fazer mais do que fazer apostas sem sentido dia após dia.
A empresa Gamestop tem feito enormes manchetes nos últimos dias. As suas acções tornaram-se o tema de uma “guerra financeira” na qual, segundo muitos observadores, os pequenos investidores estão a dar uma guerra sem tréguas aos diabólicos vendedores a descoberto em vários fundos especulativos. No entanto, os pequenos investidores estão sentados em ações de valor irrealista e irão perder milhares de milhões.
O que é completamente perdido na cobertura pela reportagem noticiosa internacional é a questão de porque gastamos sequer um segundo numa história de apostas tão absurda. Obviamente, a palavra “mercado” enevoa o cérebro de todos os que cresceram com a ideia de que estamos a lidar com mercados financeiros eficientes capazes de fazer o que os governos nunca poderiam fazer, nomeadamente encontrar o preço certo para cada classe de ativos.
Independentemente das aberrações que se possam observar nos “mercados”, é inegável aos olhos dos fiéis do mercado que “no fim” surge o preço certo. Em última análise, deixamos a estes mercados, os mercados financeiros acima de tudo, avaliar a política económica dos Estados e dar ao comércio internacional uma base monetária segura. Porque não questionamos o trabalho destes mercados tão fundamentalmente quanto eles merecem?
Mercados eficientes?
Também aqui, a teoria económica prevalecente tem assegurado que a crítica à atividade do mercado seja classificada como não científica desde o início. O pensamento dominante nos mercados de capitais é informado pela chamada Hipótese de Mercado Eficiente (EMH), que sustenta que um mercado eficiente utiliza toda a informação disponível.
No entanto, não existe qualquer orientação quanto ao que constitui um preço eficiente. Por conseguinte, o teorema dos mercados eficientes não pode ser testado empiricamente. Consequentemente, a EMH estabelece a média do mercado como referência para a eficiência.
No cerne do problema EMH está a sua base filosófica.
A ideia da utilização eficiente de toda a informação disponível remonta a Friedrich August von Hayek, que já nos anos 40 defendeu que apenas os mercados são capazes de agrupar inteligentemente a quantidade infinita de informação em sinais consistentes de tomada de decisão para todos os participantes no mercado. E esta é a ideia que não pode ser descartada para todos os mercados com base na análise a nível micro.
Cada participante chega ao mercado com informações recolhidas do seu ambiente imediato, derivadas das suas comunicações com clientes e fornecedores. Em cada caso, esta informação é independente, tendo sido gerada a nível micro. O aspeto especial desta informação é, por assim dizer, a sua individualidade, a sua emergência ao nível do agregado familiar ou da empresa individual. O processamento desta enorme quantidade de informação resulta numa multiplicidade de preços de mercado inter-relacionados, que em conjunto informam todos os participantes no mercado.
Um Estado através do planeamento não pode copiar nem substituir este complexo processo.
A avaliação falsa é a regra
Contudo, a transferência desta ideia para os mercados de capitais e financeiros é fundamentalmente errada. Tal eficiência de informação microeconómica não existe nos mercados financeiros. Os dados negociados em plataformas financeiras não são porções geradas individualmente que se juntam para formar um quadro macroeconómico que ninguém pode prever. Nos mercados financeiros, a negociação e a atitude baseiam-se em informação macroeconómica que está disponível a todos os participantes no mercado quase da mesma forma.
Num tal ambiente, é perfeitamente racional especular sobre qual a interpretação dos dados que a maioria dos participantes no mercado irá adoptar. Afinal, o que determina o preço não é se o valor do título em questão corresponde às circunstâncias objetivas da oferta e da procura, mas o que a maioria dos participantes no mercado considera ser uma interpretação apropriada dos dados. Isto abre a porta a todo o tipo de apostas nos famosos produtos de investimento derivados.
Nestes mercados, a informação homogénea conduz à atitude de rebanho – ou seja, comportamento largamente semelhante por parte de muitos “investidores” – e que causa enormes distorções de preços. Preços claramente errados são a norma. A atitude de rebanho é exatamente o oposto da ideia de Hayek sobre as muitas informações geradas individualmente que o mercado agrupa. No rebanho, os “investidores” seguem normalmente a informação económica fornecida pelos políticos ou bancos centrais, independentemente de ser interpretada de forma apropriada ou inadequada. O facto de, de vez em quando, os vendedores a descoberto contrariarem o movimento do rebanho quando as “avaliações” da massa são absurdas, não altera a natureza global absurda do mercado.
O absurdo do sistema é evidenciado pelo facto de que as previsões do rebanho são cumpridas desde que se acredite nelas. Um movimento ascendente no preço de um ativo, seja ele uma moeda, uma ação, um derivado hipotecário ou um derivado de uma mercadoria, uma vez em curso, torna todos os investidores-espectadores mais ricos e convida virtualmente novos “investidores” a saltarem para dentro. A especulação monetária é precisamente um caso em que preços errados podem ser corrigidos, porque existe uma orientação económica para avaliar as taxas de câmbio que os mercados em funcionamento não podem ignorar.
Onde está a política?
A noção neoclássica de que quando uma onda de especulação está em curso será contrabalançada por uma contra-movimentação já não é ingénua – apenas simplesmente homicida. Os mercados financeiros não cumprem nenhum dos processos informativos necessários para um processo corretivo. O facto de a teoria económica dominante ignorar esta dinâmica de informação e os efeitos desestabilizadores da especulação monetária não pode ser justificado. Uma leitura tão seletiva da realidade empírica não pode ser chamada ciência.
Os políticos poderiam ter compreendido isto há muito tempo, mas faltava-lhes a coragem de lidar sistematicamente com o fracasso do mercado financeiro. Na Europa em particular, sob a liderança intelectual da Alemanha, as pessoas ainda se agarram à ideia de que se pode confiar sem mais aos participantes no jogo de azar dos mercados financeiros a decisão sobre a taxa de juro à qual qualquer Estado membro da UEM pode pedir dinheiro emprestado nos mercados de capitais.
Isto é grotesco, especialmente tendo em conta o desenvolvimento dos acontecimentos na bolsa de valores. Mesmo que não se queira intervir nos mercados de ações, deve ficar claro que um mecanismo de mercado irracional e irresponsável não deve determinar os preços das mercadorias, as taxas de câmbio ou os rendimentos das obrigações do Estado.
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O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.
Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial (www.flassbeck-economics.com). Escreve regularmente para Makroskop e Brave New Europe.
A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.
Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.
Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento.
Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

