FRATERNIZAR – Da comunidade de base no Grande Porto – À ASSOCIAÇÃO PADRE MAXIMINO, JORNAL FRATERNIZAR E BARRACÃO DE CULTURA – por MÁRIO DE OLIVEIRA

https://youtu.be/7Q2HCWS1IG4

Após duas prisões políticas em Caxias, como pároco de Macieira da Lixa, seguidas de dois julgamentos no Tribunal Plenário do Porto e de duas absolvições, com desfechos completamente distintos – na primeira, sou surpreendido com um banquete no paço episcopal do Porto e oiço o respectivo bispo D. António Ferreira Gomes dizer, num emocionado brinde, ’20 séculos depois o Evangelho voltou de novo ao Pretório e desta vez saiu absolvido’; na segunda, oiço o mesmo bispo dizer, ‘Enquanto eu for bispo do Porto, você nunca mais será pároco nem terá qualquer ofício canónico na diocese’ – decido-me por uma profissão secular remunerada, para poder continuar Presbítero da Igreja do Porto de graça. Quis o Sopro maiêutico que me guia desde o ventre de minha mãe que o diário REPÚBLICA me acolhesse como seu jornalista na Delegação do Porto.

Encontro-me, na altura, inserido, a pedido dos respectivos párocos e sob a sua jurisdição, na Zona Pastoral Ribeirinha do Porto, onde depressa ganha corpo a Comunidade de Base do Grande Porto, com tudo de clandestino. Aceito o convite e corro a dizer, olhos nos olhos, ao bispo D. António que já tenho um ofício remunerado. Quando lhe digo que sou jornalista do REPÚBLICA, ele fica visivelmente perturbado e diz, ‘Então eu tiro-lhe uma tribuna – o altar e o púlpito – e o Pe. Mário encontra uma outra muito mais influente, porque de âmbito nacional?’ Assim era, de facto, mas porque ele assim proporcionou as coisas, ao libertar-me de todo e qualquer ofício canónico. Sou desde então Presbítero-Jornalista. De um novo tipo de jornalismo, porque praticado à luz da Fé e da Teologia de Jesus histórico, e não à luz da ideologia-teologia do Poder que, em lugar de nos dar a conhecer a realidade, vende-nos sucessivas encenações.

Nesses escaldantes meses pós-25 abril 74, surpreendo, um dia, o bispo D. António, quando, manhã cedo, me apresento como repórter do República no local onde vai decorrer em dois dias mais um encontro do Conselho Presbiteral da Diocese. A longa reportagem previamente preparada e assinada por mim a enquadrar esse evento diocesano, publicada na tarde do primeiro dia, leva o bispo a tomar uma drástica decisão, anunciada por ele no dia seguinte, no recomeço dos trabalhos. Diz, alto e bom som, que, por causa dessa minha longa reportagem da véspera, eu não sou digno de continuar presente na sala como repórter do República. Escuto, sem surpresa, ou já o não conhecesse bastante bem, levanto-me, saio como uma flecha directo à Delegação do vespertino e comunico telefonicamente o facto a Lisboa, antes ainda de dactilografar o corpo da notícia que vem a ser uma das manchetes da edição dessa tarde, ‘Repórter do República expulso pelo bispo do Porto do Conselho Presbiteral’. Venho a saber, dias depois, pelo próprio Director Raul Rego, que D. António fez tudo por tudo junto dele para que eu fosse afastado do jornal. Felizmente, Raul Rego não cedeu e só deixo o República quando, um mês após o 25 de novembro 75, ele é definitivamente encerrado pelo novo Poder emanado desse golpe.

Meses depois, sou surpreendido pelo convite do Director do matutino Correio do Minho, sediado em Braga para Redactor Principal do jornal. Aceito e passo a viver e a trabalhar, durante 10 anos, semi-clandestino em Braga, onde cresço profissional e presbiteralmente. Tanto, que ainda hoje me é difícil dizer onde acaba o Presbítero e começa o Jornalista. Uma coisa sei, A fusão é total, a confusão é nenhuma. E posso afirmar duas coisas: 1, Não há jornalismo mais autêntico e fiel à realidade do que o praticado por um Presbítero sem ofício canónico como eu; 2, Nunca o Presbítero ordenado o é tanto, como nesta fusão sem nenhuma confusão com o Jornalista.

Quando completo 50 anos de idade e 25 de Presbítero ordenado, negoceio a minha saída do Correio do Minho e, consequentemente, de Braga. Dou conhecimento dessa minha decisão às companheiras e companheiros da Comunidade de Base do Grande Porto, da qual sou, por votação unânime, presbítero animador e no seio da qual ganha corpo por esses dias a fundação de uma Associação Cultural e Editorial, convictos de que só a Cultura, nunca o assistencialismo e o religioso, consegue despertar as populações e fazê-las crescer de dentro para fora para a liberdade, a autonomia e o protagonismo político, nos antípodas do Poder político.

Nasce então a APM-Associação Padre Maximino, com sede em S. Pedro da Cova, Gondomar, na altura, uma das mais degradadas freguesias do concelho. E é para lá que vou viver, integrado numa pequenina Comunidade, baptizada ‘Grão de Trigo’, constituída por 4 pessoas, Maria Celeste, Celeste Vieira, Joaquina Marques e eu próprio. Primeiro, no andar de um apartamento, na Paradela, depois numa moradia que adquirimos a uma família emigrante em França, que a havia construído junto do degradado Bairro Mineiro, onde somos fecunda presença-e-Actuação política, com tudo de sadia subversão.

Registamo-la como propriedade e sede da APM e, com ela, registamos também o Jornal Fraternizar, como publicação periódica mensal, hoje só online, depois de 23 anos editado em suporte papel. Os salários de cada um dos 4 membros da ‘Grão de Trigo’ são depositados numa conta comum e tudo o que sobra do nosso austero e frugal viver de qualidade, é transferido para a conta da APM e do JF, cujos conteúdos exigem de nós uma permanente Conversão às práticas políticas maiêuticas de Jesus histórico, devidamente actualizadas para o nosso hoje e aqui, por isso, bem nos antípodas das dos cristianismos, o pior dos quais é o católico imperial de Roma. E 18 anos depois, o mesmo Sopro que, desde o ventre de minha mãe, me guia e conduz, faz-me avançar sozinho para Macieira da Lixa, onde, desde 2004, vivo exclusivamente da minha reforma de jornalista (680,00€/mês), numa casinha arrendada e onde sou absolutamente decisivo na construção do BC-BARRACÃO DE CULTURA, da ACR AS FORMIGAS DE MACIEIRA, um pequeno-grande Sinal de Contradição no Concelho de Felgueiras, no país e no mundo. Inevitavelmente odiado pelo Poder, mas a Casa outra de quantas, quantos de nós buscamos um estilo de vida aves do céu e lírios do campo, alternativo ao do Poder. E como tudo o que lá acontece é tão belo e tão bom! É preciso ver para crer.

www.jornalfraternizar.pt

 

Títulos dos Temas desta semana nas outras Pastas:

 

1 Poema de cada vez

ODE À DIFERENÇA

Ana Luísa Amaral

Destaque

Carta integral de renúncia do cardeal Marx ao Papa

‘O FRACASSO SISTÉMICO DA IGREJA DIANTE DA CATÁSTROFE DOS ABUSOS SEXUAIS’

Documentos + extensos

Paulo Suess, teólogo /IHU

IGREJA SEM SAÍDA?


Entrevistas

Com Thomas Piketty

‘É HORA DE REDISTRIBUIR A RIQUEZA

 

Outros TEXTOS de interesse

Manifesto da Jornada Internacional de Lutas Anti-imperialistas

O PLANETA ACIMA DOS LUCROS – APENAS UMA TERRA


TEXTOS de A. Pedro Ribeiro

O MEDO E A PODRIDÃO

TEXTOS Frei Betto, Teólogo

UM DESERTO CHAMADO BRASIL?

TEXTOS de L. Boff, Teólogo

SEM ESPIRITUALIDADE NÃO SALVAREMOS A VIDA NA TERRA

 

 

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