Afeganistão, entre a reescrita da História e a História real – Nas raízes do Estado Islâmico no Afeganistão. Por Jean-Pierre Perrin

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

Nas raízes do Estado Islâmico no Afeganistão

 

 Por Jean-Pierre Perrin

Publicado por em 27 de Agosto de 2021 (Aux racines de l’État islamique en Afghanistan, ver aqui)

 

Criado em 2014 por fugitivos paquistaneses, o ramo afegão do Daech [Estado Islâmico] tornou-se o rival dos Talibãs sob o nome de Wilayat Khorasan. Mais ainda que os “estudantes de teologia”, este ramo vai desenvolver o recurso a atentados-suicidas, como o que foi cometido na 5ª feira 26 de Agosto, no aeroporto de Cabul, provocando dezenas de vítimas.

 

Em 9 de Maio passado, Cabul enterrou dezenas de raparigas de liceu mortas numa série de explosões ao deixarem a sua escola no bairro Hazara (do grupo étnico xiita) de Dasht-e-Barchi, no oeste da capital. Em Maio do ano anterior, a maternidade dirigida por Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi alvo no mesmo bairro de um ataque levado a cabo por um comando de três assassinos que dispararam à queima-roupa cerca de 20 adultos, a grande maioria deles mulheres, algumas prestes a dar à luz, e vários bebés.

Em Agosto de 2019, um atentado contra um casamento xiita em Cabul já tinha matado 91 pessoas. Para além dos outros ataques que têm sido abortados nos últimos meses pelas autoridades afegãs e da emboscada em plena luz do dia de um comboio militar americano que circulava através da capital.

Após o ataque perpretado na quinta-feira, 26 de Agosto, perto do aeroporto de Cabul. WAKIL KOHSAR / AFP

 

São atentados na maioria dos casos extremamente bem preparados e que mostram que, mesmo que se tenha abstido de reclamar a responsabilidade pelos ataques mais cruéis, o grupo Wilayat Khorasan, o ramo afegão do Estado Islâmico (EI), continua firmemente estabelecido na capital.

O caos em torno do aeroporto de Hamid-Karzai era, desde logo, uma oportunidade extraordinária para o El-Khorasan. O que é surpreendente é que os jihadistas não tenham atacado mais cedo.

O último número de mortos do ataque de quinta-feira foi de pelo menos 85, incluindo cerca de 60 civis, 13 soldados americanos e uma dúzia de talibãs. Reivindicado esta vez pelo El-Khorasan, é o ataque mais mortífero contra o exército dos EUA no Afeganistão desde 2011 e suscita receios de que o Afeganistão sob o regime talibã volte a ser um refúgio para a rede jihadista – e outras organizações terroristas -, apesar de os novos senhores do país lhe terem declarado guerra quase desde a sua criação.

Embora pareça claro que desde que os Talibãs tomaram Cabul a 15 de Agosto, o grupo El-Khorasan tenha procurado uma nova visibilidade, o atentado também levanta uma série de questões. Em particular, como pode o grupo El-Khorasan manter células adormecidas tão eficazes em Cabul, quando todos os seus líderes foram mortos e foi largamente eliminado tanto pelos Talibãs como pelo exército governamental nas províncias de Nangarhar e Kunar, onde se tinha estabelecido?

De acordo com um relatório do Conselho de Segurança da ONU publicado em Julho, os seus efetivos situam-se entre 500 e vários milhares de combatentes. Daí as acusações feitas na sua conta Twitter pelo antigo vice-presidente afegão Amrullah Saleh, actualmente refugiado em Pandjchir, de que as células do El-Khorasan estão ligadas às “redes Haqqani”, um dos componentes do movimento talibã que, também eles levaram a cabo alguns dos ataques mais sangrentos na capital afegã nos últimos anos, incluindo o atentado com um camião-cisterna armadilhado que matou 150 pessoas e feriu quase 500 no distrito das embaixadas a 31 de Maio de 2017. Segundo Amrullah Saleh, que também chefiou os serviços de inteligência do governo de Cabul, as duas organizações partilham “esconderijos de armas”.

 

Os rebeldes da “Montanha Branca”

A criação do El-Khorasan data de 2014. Nessa altura, de acordo com estimativas da OTAN, apenas controlava entre 600 e 700 combatentes espalhados por alguns distritos da província de Nangarhar, e entre 200 e 300 combatentes na vizinha província de Kunar. Mas foi também para fazer incursões no nordeste do país, já que no ano seguinte, das 6.994 vítimas civis feridas ou mortas pelos rebeldes, nada menos que 899 foram-lhe atribuídas, de acordo com a contagem da Missão de Assistência das Nações Unidas ao Afeganistão. Isto é dez vezes mais do que em 2015.

Originalmente, foi uma cisão do movimento Talibã paquistanês, o Tehreek-e-taliban Pakistan (TTP), que levou à criação em 2014 da filial afegã do Daech. O TTP reúne cerca de vinte organizações de inspiração Wahhabi, agregadas às redes da Al-Qaeda, cujo objectivo é atacar tudo o que representa o Estado – a polícia, o exército, os tribunais de justiça, a administração, etc.

Em Janeiro deste ano, o governo paquistanês de Nawaz Charif entrou em negociações com o TTP para pôr fim à guerra atroz que o movimento terrorista está a travar a partir das áreas tribais da fronteira entre o Paquistão e o Afeganistão. Mas os ultras do TTP não o vêem dessa forma. Rejeitando mesmo a ideia de conversações, entraram em dissidência e criaram um novo partido, Ahrar-ul-Hind (Libertação da Índia), e cortaram a garganta aos 17 soldados paquistaneses que tinham mantido detidos desde 2010, em plenas negociações com Islamabad.

Ahrar-ul-Hind torna-se então Jamaat-ul-Ahrar (Sociedade para a Libertação), ambos os nomes refletindo o desejo dos rebeldes de reabrir frentes terroristas na Índia, como aconteceu com o massacre de Bombaim em 2008 (176 mortos). O Jamaat-ul-Ahrar está a crescer rapidamente em alguns distritos tribais ao longo da fronteira. Em Janeiro de 2015, jurará fidelidade ao Estado islâmico.

Quando o exército paquistanês decide lançar uma grande ofensiva contra estes distritos, grupos ligados a Jaamat-ul-Ahrar atravessam a fronteira. Começa o surgimento do Estado islâmico no Afeganistão.

Os jihadistas tomaram primeiro os sopés das montanhas Spin Ghar (“Montanha Branca” em pachtun), que se sobrepõem ao distrito de Achin da província de Nangarhar, expulsando os talibãs “históricos”, que aí tinham uma longa e sólida implantação.

Mas conseguir implantar-se no Afeganistão não é assim tão simples. No distrito de Achin, os dissidentes do TTP vão tirar partido de um antigo conflito tribal entre o clã Sepai e o clã Ali Sher Kheïl sobre uma questão de território. Os americanos cometeram um grave erro: armaram e financiaram um dos dois clãs, os Sepai, para os pressionar a combater os Talibãs, sem pensar que os seus protegidos usariam esta ajuda contra os Ali Sher Kheil. Quando os conselheiros americanos se aperceberam do seu erro, deixaram de os apoiar. Os Sepai, sentindo-se traídos, voltaram-se para os combatentes Jaamat-ul-Ahrar, pedindo-lhes que viessem e os ajudassem.

O dinheiro fará o resto: comprará líderes tribais e pagará fortunas aos novos combatentes: até 600 dólares por mês. Consequência: os jovens juntam-se massivamente a este ramo afegão do Estado Islâmico, cujo nome Wilayat Khorasan se refere a uma região antiga definida pelos geógrafos árabes do século XI que abrangeu partes do actual Afeganistão, Paquistão, Irão e Ásia Central.

Em breve, os recém-chegados serão reforçados por parte do Movimento Islâmico do Uzbequistão (MIU). Implantado no Afeganistão desde finais dos anos 90, reforçado por voluntários da Ásia Central, também se instalou no nordeste do Afeganistão. Devido à sua ferocidade, o MIU será em breve a obsessão do exército afegão. Embora tenha prometido fidelidade à Al-Qaeda, alguns dos seus combatentes separar-se-ão em 2015 para se juntarem ao Estado islâmico.

Quanto mais o novo movimento se desenvolve, mais se torna o inimigo número um dos Talibãs, especialmente porque ameaça as suas rotas de abastecimento a partir do Paquistão. Isto levou a confrontos cada vez mais violentos entre as duas organizações, com vantagem para os “estudantes de teologia”, que eram muito mais numerosos e melhor armados.

Hoje em dia, o El-Khorasan, embora já quase não exista, excepto em Cabul, poderia no entanto beneficiar do apoio dos Talibãs que não aceitaram as negociações com os Estados Unidos para o acordo de retirada das suas tropas em Fevereiro de 2020, e que acusaram os líderes do movimento de terem traído a causa jihadista. Sem surpresa, o Estado islâmico absteve-se de felicitar a liderança talibã.

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O autor: Jean-Pierre Perrin [1951 -], repórter de longa data do Libération, trabalhando no Próximo e Médio Oriente. Agora jornalista e escritor freelancer. Autor de romances policiais, incluindo Chiens et Louves (Gallimard – Série noire). Histórias de guerra, nomeadamente Afganistan: jours de poussière (La Table Ronde – grand prix des lectrices de Elle em 2003) Les Rolling Stones sont à Bagdad (Flammarion – 2003) La mort est ma servante, lettre à un ami assassiné – Syrie 2005 – 2013 (Fayard – 2013) Le djihad contre le rêve d’Alexandre (Le Seuil – prix Joseph Kessel – 2017.

 

 

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