10 DE JUNHO DE 1974- PAINEL DE ARTISTAS NO MERCADO DO POVO por Clara Castilho

O Painel do Mercado do Povo, um mural pintado no 10 de Junho de 1974, promovido pelo efémero Movimento Democrático dos Artistas Plásticos (MDAP). A iniciativa – batizada de “Festa” – inclui várias performances artísticas, entre as quais música, teatro, poesia e uma pintura coletiva por 48 artistas, tantos quantos os anos em que Portugal vivera sob um regime ditatorial. O painel foi dividido em 48 quadrados sorteados ao acaso pelos artistas que, dispostos em andaimes, pintaram livremente em clima de convívio e festa.

Participaram artistas como Júlio Pomar, João Abel Manta, Nikias Skapinakis, Menez, Vespeira e Costa Pinheiro.

O poder contagiante da criatividade levou as pessoas a exprimirem-se livremente: as crianças começaram a pintar uma torre de tijolos, logo seguidas pelos espectadores adultos, que encheram o muro fronteiro ao painel com numerosas inscrições e palavras de ordem.

As celebrações foram transmitidas em direto pela RTP mas a emissão foi interrompida por ordem do MFA e do I Governo Provisório, quando o Teatro da Comuna satirizava os dirigentes do regime anterior – naquele que é assinalado como o primeiro ato de censura depois do 25 de Abril. Após saber da interrupção, Júlio Pomar pegou nos seus pincéis, amarrou-os à sua pintura e pintou por cima: ‘a censura existe’. De acordo com Rui Mário Gonçalves, a atitude provocou “uma viva revolta de todos os que, no Mercado da Primavera e em suas casas, estavam interessados em seguir o desenrolar da festa.” (GONÇALVES, 1974, p. 40). A decisão parece ter sido tomada pelo delegado da Junta de Salvação Nacional, Mariz Fernandes mas com ratificação do Ministro Raul Rego.

O painel era testemunho de um momento irrepetível. Por isso, foi indigitado para representar Portugal na Bienal de Veneza, onde não havia representação nacional desde 1960. Os organizadores da Bienal tomaram a iniciativa de guardar para Portugal, nesse ano, um lugar no pavilhão central, destinado a esse painel. Mas por incúria da Direção- Geral, o painel não foi enviado, como também o não foi, depois, para o Salon de la Jeune Peinture, salão artístico-político de Paris. E, em 1981, um incêndio na Galeria de Arte Moderna, em Belém, consumiu a obra.

Video disponibilizado a Joana Lopes* – http://entreasbrumasdamemoria.blogspo… – por Fernando Matos Silva

Leave a Reply