CARTA DE BRAGA -“da narrativa, de Aramburo e Saramago” por António Oliveira

Estamos a assistir diariamente a narrativas que pouco têm com a realidade, por serem uma construção de algum modo paralela, interessada, bem longe de um relato onde o ‘antes’ preceda o ‘durante’ e este o ‘depois’, um caminho em que a explicação e a justificação levem ao contexto, não se ficando nem por uma, nem por outra.

Prevalece uma espécie de cultura do ‘trauma e da queixa’, transformando o mais simples serviço de notícias, onde quer que seja, numa sequência de estórias da ‘senhora que caiu ao poço’ para saber quem foi o ‘culpado’, ou o ‘herói’ que a salvou das garras do monstro das funduras. E assim se constroem os ‘picos de atenção’, os que agarram as pessoas aos sofás a espaços regulares, facilmente comprovados com um qualquer relógio mesmo mau na palma da mão.

Uma cultura em que a velocidade dos acontecimentos nos vai afastando da responsabilidade intrínseca do acto de comunicar pois, como acentuou há uns dias, no seu blog, uma comunicadora consciente e sabedora, ‘Um morto é sempre muito mais importante do que um vivo. Mas a sua importância só dura até outro morto o matar’, reflectindo bem como a importância de qualquer facto dura só até à chegada de outro, transformando a comunicação numa espécie de banda desenhada, onde importância está no ‘cromo’, ou no ‘boneco’ que a ilustra. 

E vamos construindo estórias em que ‘As infowars, as guerras da informação com notícias falsas e teorias da conspiração, indicam o estado da democracia actual, onde a verdade e a veracidade não importam e a democracia se afunda na selva impenetrável da informação’, a crer nas palavras do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Mas o filósofo, há anos a residir, a ensinar e a investigar na Alemanha, salienta ainda ‘A verdade mantém a sociedade unida, a pós-verdade divide-a completamente’. 

A base de tudo isto é a importância do logos a palavra, que se constituiu na poderosa ferramenta que permitiu ao homem construir e gerir a própria realidade, construindo também com ela, os marcos que assinalaram as rupturas e as superações que fizeram a história, a literatura, a religião e a definição dos direitos, pois ‘Triunfar na vida não é ganhar, é erguer-se e voltar a começar’, afirmou o ex-presidente José Mujica no dia em que se despediu do senado, no Uruguai. 

Mas gerir a própria realidade é, acima de tudo, a base do que chamamos democracia, a que os ocidentais dizem ter herdado dos gregos, embora pareça ser apenas o negativo de tal legado, pois para eles, tudo estava pensado para prevenir a oligarquia, enquanto o constitucionalismo actual se baseia em evitar o poder de muitos, para o entregar a uns poucos. 

Deve ter-se em conta que as elites que criaram o mundo moderno, leram o mundo antigo nos escritos de Aristóteles, Platão, Plutarco e alguns outros mais, onde tanto a deliberação como a isegoria igualdade de direito no uso da palavra eram os símbolos de identidade da democracia grega, porque o povo debatia nas instituições, mas continuava a discutir antes e depois das reuniões formais. 

Hoje temos e, voltando ao princípio, apenas as democracias de audiência radiofónica, de leitura, visual, digital com muita manipulação mediática, totalmente nas mãos de assessores, spin doctors e especialistas em digitalização e outros afins, para ‘fazerem’ a cabeça do votante. 

É por tudo isto que o escritor Fernando Aramburu, afirma ao DN de 20 de Junho ‘A democracia parece-me ser o sistema político menos mau, mas duvido que alguma vez exista um paraíso social sobre a Terra. Sempre existirão problemas como a divisão da riqueza, a Administração Publica, a corrupção… é humano’. 

E vai mais longe ‘A democracia baseia-se num acordo de normas que resultam das eleições, em que se escolhe um dirigente e este manda até haver outras. Exactamente ao contrário da natureza, em que domina sempre o mais forte geneticamente, com o veneno mais eficaz, os dentes mais fortes, o mais rápido-; o homem inventou regras e acordos, o sistema mais parecido, a democracia. Parece-me um grande engano, de que resultaram muitas guerras e séculos de sangue. Vão diminuindo e será́ uma das grandes conquistas do ser humano, a possibilidade de alguém, por muito forte que seja, não dominar a outra, devido às leis consensuais que o impedem’.

E devemos ainda ter em conta as palavras de Andrés de Francisco, filósofo e tradutor, ao diário Publico.es, ‘A democracia ateniense, significava algo que só se dá na história, a excepção. A excepção pela qual os pobres, os que tinham de trabalhar para sobreviver, governavam. Mas não governavam de maneira indirecta ou delegada. Não! O demosateniense, que incorporava a massa dos homens livres, mas que trabalhavam com as próprias mãos, ocupavam o Estado, sorteando os cargos, com o kleroterion, o mecanismo para fazer o sorteio, aliás procedimento habitual para a selecção de juízes e conselheiros, rodando rigorosamente a sua ocupação, remunerando a assistência à assembleia, dignificando a política… Aquele povo governava-se mesmo a si mesmo, directamente’.

Permito-me terminar esta divagação sobre democracia, com uma sentença de Saramago, ‘O grande problema do nosso sistema democrático é que permite fazer coisas nada democráticas, democraticamente!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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