Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Como o Ocidente traiu Mikhail Gorbachev e semeou o conflito na Ucrânia
Publicado por
em 1 de Setembro de 2022 (original aqui)
Mikhail Gorbachev morreu a 30 de Agosto de 2022. Desde então, os líderes ocidentais desfazem-se em elogios. Estes elogios ocultam como o Ocidente traiu Gorbachev após a sua queda do poder, e como essa traição semeou o conflito na Ucrânia.
A história é complicada porque a queda de Gorbachev foi despoletada por adeptos da linha dura do Partido Comunista, pelo que os problemas que se seguiram na Rússia são também significativamente devidos a acções russas. Dito isto, Gorbachev procurou uma parceria para a paz, prosperidade e democracia. Após a sua queda, o Ocidente renegou o seu acordo de aperto de mão que tinha concluído com ele.
Um tributo à visão inspiradora de Gorbachev
Antes de abordar os pormenores dessa traição, impõe-se uma homenagem a Gorbachev. Gorbachev procurou transformar a União Soviética de um sistema repressivo fechado num sistema socialista consultivo aberto, que faria parte da família europeia. Essa aspiração foi descrita como glasnost (abertura) e foi empurrada através do movimento de reforma Perestroika.
A sua aspiração é testemunhada no seu histórico discurso de 1989 no Conselho da Europa. Nele, convidou a Europa Ocidental a juntar-se à União Soviética na criação de uma Europa aberta, fraterna e próspera, que iria pôr de lado as animosidades da Guerra Fria. O seu discurso termina com um apelo à inclusão da União Soviética numa Europa harmoniosa:
“Estamos convencidos de que o que eles precisam é de uma Europa – pacífica e democrática, uma Europa que mantenha toda a sua diversidade e ideias humanistas comuns, uma Europa próspera que estenda as suas mãos para o resto do mundo. Uma Europa que avance confiante para o futuro. É numa Europa assim que visualizamos o nosso próprio futuro“.
Tragicamente, a sua visão não chegou a bom porto. Em vez disso, foi desfeita pela espiral de acontecimentos desencadeada pelo golpe de Estado de 1991, a hostilidade dos EUA e a ingenuidade dos líderes da Europa Ocidental.
O golpe comunista de 1991
A anulação da visão de Gorbachev começou com o golpe de Estado de 19 de Agosto de 1991, no qual os adeptos da linha dura do Partido Comunista procuraram derrubá-lo e fechar o processo de reforma Perestroika. Embora o golpe tenha falhado, desencadeou forças que dilaceraram a União Soviética e despoletaram o desaparecimento político de Gorbachev.
A República Socialista Soviética Ucraniana anunciou a sua intenção de independência a 24 de Agosto, seguida de uma declaração semelhante da República Bielorussa a 25 de Agosto. A 27 de Agosto, o Soviete Supremo Moldavo declarou a independência; a 30 de Agosto, o Soviete Supremo do Azerbaijão separou-se; e a 31 de Agosto, separou-se o Quirguizistão. Existiam quinze repúblicas soviéticas. Em Novembro, apenas três (Rússia, Cazaquistão, e Uzbequistão) não tinham declarado a independência. Com efeito, já não havia uma União Soviética para Gorbachev presidir, e Gorbachev renunciou ao cargo de Presidente a 25 de Dezembro de 1991. No dia seguinte, o Soviete Supremo votou o seu próprio desaparecimento e o da União Soviética.
Em retrospectiva, o fracassado golpe de linha dura deu o tiro de partida para a dissolução da União Soviética, enquanto os chefes das Repúblicas Comunistas correram para apoderar-se do poder, o que lhes daria vantagem no saque que se avizinhava. Na Rússia, a corrida foi ganha por Boris Ieltsin, que foi presidente da República Soviética russa.
Expansão da NATO para Leste
Mesmo após a dissolução da União Soviética, a catástrofe da terapia de choque económico, e o saque da Rússia, a visão de Gorbachev poderia ainda ter sido realizada. No entanto, foi decisivamente excluída pela expansão da NATO para leste.
Como documentado pelo embaixador Jack Matlock Jr., o último embaixador dos EUA na União Soviética, um elemento crítico no fim da Guerra Fria por parte de Gorbachev foi o acordo de que não haveria expansão da NATO para leste para além da inclusão da Alemanha de Leste. Esse acordo de aperto de mão foi essencial para a paz de espírito da segurança nacional russa.
No entanto, após a desintegração da União Soviética, o Ocidente explorou a fraqueza da Rússia para expandir a NATO até às suas fronteiras. O resultado foi a destruição da base de confiança e a criação de uma lógica duradoura para os receios militares russos.
A NATO foi criada como uma aliança defensiva da Guerra Fria. É compreensível que tenha continuado, mas a expansão para Leste foi um acto inequivocamente agressivo que só agravou a segurança dos Estados membros originais da NATO. Os novos membros dispunham de meios militares insignificantes, mas todos eles representavam um enorme risco de conflito. Quase todos tinham tradições democráticas inexistentes, longas histórias de intolerância política, histórias de conflito com a Rússia, e eram intolerantes para com os russos étnicos dentro das suas fronteiras. A sua adesão à NATO significava que os Estados membros originais se comprometiam a defender países que eram susceptíveis de provocar conflitos com a Rússia.
A hostilidade dos EUA
Dito isto, a expansão da NATO para Leste sempre fez sentido do ponto de vista dos EUA. Em primeiro lugar, os EUA subscrevem a doutrina Neocon que defende que os EUA devem ser globalmente hegemónicos. Isto significa que nenhum país deveria ser capaz de desafiar os EUA como a União Soviética o fez em tempos. A Rússia ainda tinha esse poder, o que a torna uma ameaça contínua aos olhos dos Neocon.
Em segundo lugar, os EUA estão protegidos pelos oceanos Atlântico e Pacífico. Consequentemente, nunca sofre os danos directos ou o refluxo de conflitos que inicia. Por isso, para os EUA, a expansão da NATO para Leste quase não lhe custou nada.
Terceiro, a visão de Gorbachev de uma Rússia europeizada representava uma ameaça fundamental à hegemonia dos EUA (militar e económica), uma vez que significava juntar a Europa Ocidental e a Rússia numa causa comum. Isso tornava a visão de Gorbachev estrategicamente subversiva.
Ingenuidade europeia
Do outro lado da balança, a Europa perdeu muito com o fracasso em realizar a visão de Gorbachev. Em primeiro lugar, a Europa sofre os danos directos e o refluxo de conflitos. Isso foi demonstrado pelos conflitos bósnio, sérvio, iraquiano, líbio, sírio e afegão, e está de novo a ser demonstrado pelo conflito da Ucrânia.
Em segundo lugar, a Europa perdeu uma enorme oportunidade económica ao seguir a liderança estratégica dos EUA. A Rússia e a Europa Ocidental constituem um casamento económico feito no céu. A Rússia tem recursos naturais e precisa de capital. A Europa tem capital e precisa de recursos naturais. Ambas têm conhecimentos científicos e populações instruídas.
Em terceiro lugar, a expansão da NATO para leste criou um cavalo de Tróia americano que promete desestabilizar a Europa no século XXI. Os novos Estados membros têm uma maior fidelidade aos EUA do que à Europa Ocidental. Isto tem sido repetidamente ilustrado pela Polónia. Adquiriu aviões militares e civis americanos em vez de aviões europeus, e estabeleceu agora uma base militar americana autónoma em larga escala dentro da Polónia.
A culpa pelo fracasso da Europa é principalmente da França e da Alemanha, que são os líderes europeus e não conseguiram desenvolver um projecto geo-político europeu independente. Esse fracasso pode também reflectir a tomada de liderança europeia pelos EUA – um tipo de efeito “Candidato Manchuriano” – que é evidente nos percursos de carreira e curriculum vitae dos líderes.
Epitáfio
Mikhail Gorbachev não queria a desagregação da União Soviética nem o fim do socialismo. Ele queria um novo capítulo para a Rússia que virasse a página sobre os horrores do século XX. Ele montou o processo na esperança de uma mudança social nobre, mas o processo atirou-o para fora.
Mesmo depois de ter sido descartado e de a União Soviética ter desaparecido, a sua visão de uma Rússia inserida numa Europa pacífica e democrática ainda poderia ter sido possível. Contudo, isso exigia a boa vontade dos EUA e uma liderança europeia inteligente – ambas as quais estavam (e estão) em falta.
Isso torna ocos os elogios dos líderes americanos e europeus. Esses líderes representam os poderes políticos estabelecidos que acabaram por trair a visão de Gorbachev, e essa traição explica porque é agora um homem rejeitado na sua pátria.
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O autor: Thomas Palley [1956-] é um economista estado-unidense. Foi economista chefe na Comissão de Análise Económica e de Segurança EUA-China (agência independente do governo dos Estados Unidos criada em 2000), sendo atualmente membro de Schwartz Economic Growth da New America Foundation. É licenciado em Letras pela Universidade de Oxford (1976) e obteve um mestrado em relações internacionais e um doutoramento em economia pela Universidade de Yale. Palley fundou o projecto “Economics for Democratic & Open Societies”. Palley cujo objectivo é “estimular a discussão pública sobre que tipos de acordos e condições económicas são necessários para promover a democracia e a sociedade aberta”. As posições anteriores de Palley incluem director do Projecto de Reforma da Globalização do Open Society Institute, e director assistente de Políticas Públicas para a AFL-CIO.
O seu trabalho tem abrangido teoria e política macroeconómica, finanças e comércio internacionais, desenvolvimento económico e mercados de trabalho onde a sua abordagem é pós-keynesiana.


