Mundo para lá do “Ocidente” — “Adeus à Ocidentalização: o Mundo Avança”.  Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 m de leitura

Adeus à Ocidentalização: o Mundo Avança

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 19 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

© Foto: REUTERS/Juan Medina

 

Vivemos sob o nevoeiro de uma transição mundial para uma forma radicalmente alterada de imaginar-se a si mesma, no meio das comportas abertas das operações psicológicas.

Estamos a viver no nevoeiro de uma guerra na Europa. Vivemos também, num nevoeiro económico de guerra, obscurecendo aqueles que são sãos, e em contraste, aqueles que já não subsistem por si próprios, vivendo assim por empréstimo. Vivemos também sob o nevoeiro de uma transição mundial para uma forma radicalmente alterada de imaginar-se a si mesma, no meio das comportas abertas das operações psicológicas.

E o Mundo está em transição. Tentemos “limpar um pouco” o nevoeiro.

A morte da Rainha Isabel II de repente fez-nos tomar consciência – graças à difusão novamente dos primeiros noticiários de uma jovem rainha na Índia e nas “suas outras colónias” – que não é apenas o mundo que está em mudança. Vem como um choque físico recordar, incorporado nesses noticiários da vida de apenas uma mulher, a que ponto o próprio Ocidente mudou.

Subindo um nível, vemos, a partir daqueles primeiros clipes, aquelas figuras seguras e caminhando a passos largo, a habitar confiantemente outra “realidade”. Respiravam o ar do Iluminismo Europeu e do Racionalismo. Mas não por muito tempo – pois então veio o recuo: o cepticismo ‘pós-moderno’ em relação aos ideais em si, pelas grandes ideias e concepções; e total desdém pela Razão. O processo mental subjectivo individual e a experiência alteradora da consciência era o critério determinante da ‘experiência’ da vida (a era Woodstock).

Hoje em dia, o Ocidente afastou-se ainda mais do “que era”. É agora um espaço de batalha ideológico, povoado por fanáticos que afirmarão firmemente: ‘Não há ‘outro’ para a Ucrânia’; ‘não há ‘outro’ para Putin’; ‘e eu não serei um ‘outro’ da desfossilização do nosso mundo’ – ou seja, apenas a sua opinião está certa. É um espaço de batalha que “anula” a racionalidade e a dialéctica, e criou um Ocidente angustiado e fracturado, lutando para dar sentido a si próprio.

A questão aqui, porém, é sobre aquilo que não mudou. O Ocidente anterior pode ter-se tornado hoje quase irreconhecível para si próprio. No entanto, uma parte desse legado mais antigo ainda paira no contexto da política externa – quase inalterado.

A “base da política externa” permanece enquadrada em torno do ideal do Iluminismo e do Racionalismo Científico. Um projecto missionário, baseado na noção de que como a ciência “era neutra”, esta qualidade inerente de neutralidade tinha o poder tanto de “libertar o mundo” dos seus grilhões de religião, normas culturais e “superstição”. E de servir como pólo em torno do qual o Ocidente poderia unir o mundo. Assim permanece até hoje.

Mas um grande problema é que a Ciência do Iluminismo está longe de ser neutra. Ela inclina-se; inclina-se numa direcção que é antitética para grande parte do resto do mundo.

A Revolução Científica ocidental assumiu, no seu cerne, a hipótese de que “a pedra angular do método científico, é o postulado de que a natureza é objectiva”. Este postulado foi afirmado, embora admitindo abertamente simplesmente que esta definição equivalia a “uma negação sistemática” de que o conhecimento “verdadeiro” também poderia ser alcançado através de uma interpretação diferente do mundo: como possuindo significado latente, direcção, e propósito”.

O mundo tornar-se-ia assim mera “matéria”, reduzida a “poeira” inerte e sem sentido – e inevitavelmente, dada esta definição, o “Homem” tornar-se-ia o único agente de transformação, e o único doador de significado ao nosso cosmos.

Jacques Monod, (um cientista Nobel), observou no seu ensaio de 1971, Chance and Necessity, que esta hipótese do Iluminismo apagou o postulado central da “outra sensibilidade” que alimentou todas as culturas antigas e a ciência pré-iluminista: que o plano da vida – ADN, se preferir – se enfia em tudo. Todas as grandes (e muito racionais) ciências do mundo antigo consideravam o mundo como literalmente pulsante com a vida – e longe de ser inerte.

Paradoxalmente, Monod reconheceu que a asserção “a natureza é objectiva” é impossível de demonstrar. Mas escreveu que [de qualquer forma] o “postulado da objectividade é consubstancial à ciência, e tem guiado todo o seu prodigioso desenvolvimento durante três séculos. É impossível escapar-lhe, mesmo provisoriamente ou numa área limitada, sem se afastar do domínio da própria ciência”. TINA – não há alternativa.

A mentalidade da política externa ocidental, portanto, era – por definição – laica. E embora esta construção esteja metafisicamente em desacordo com a maioria das religiões – sendo o Islão apenas um exemplo. No entanto, trouxe muitos jovens muçulmanos a uma versão secular do Islão (exactamente como pretendido, embora com consequências imprevistas e explosivas).

O quadro geral aqui é que o Racionalismo, postulando a “modernidade” como rigorosamente secular, transformou-se num sistema económico e político coercivo único, sob cuja bitola todos os outros são julgados. Um sistema universal baseado em regras, por outras palavras.

Mas as sociedades e povos de todo o mundo que experimentaram os piores rigores que este mito do Iluminismo lhes impôs, tais como as “guerras eternas” da América que mataram milhões, concluíram agora colectivamente que este “mito” ocidental que a princípio parecia prometer um “novo mundo”, mas que tantas vezes acabou mal, já não “o faria”.

Alguns defenderiam, e defendem, que o humanismo ‘liberal’ do Iluminismo americano ou europeu, com as suas presumíveis ‘boas intenções’, não tem qualquer ligação com o jacobinismo ou o bolchevismo trotskista.

Mas, na prática, ambos são fundamentalmente semelhantes: são versões seculares da marcha inexorável para uma utópica, redenção de uma humanidade imperfeita. No entanto, a maioria das civilizações não aceita que a história seja de modo nenhum linear.

Não obstante, no final do século XX (e por vezes, em algumas sociedades, mais cedo), ocorreu (para usar uma frase de Frank Kermode) esta “sensação de fim”.

As ortodoxias liberais tinham caído em dúvidas radicais sobre si próprias. E em todo o mundo, os movimentos (por vezes encobertos), começavam a ser confrontados com a imposição política e económica de (uma diversidade) de racionalidades híbridas, literais e científicas (por exemplo, na Rússia e na Alemanha). Outras sociedades saltavam de repente para futuros desconhecidos (Irão).

Todas eram sintomas sugestivos da predição de Fukuyama de que a consciencialização inicial do Homo Economicus da sua própria existência “vazia” acabaria por levar as pessoas à revolta.

As elites ocidentais condenam e procuram quebrar todos os sinais de ‘populismo’ e ‘iliberalismo’. Porquê? Porque ‘cheiram’ (e temem) neles, os tons dos velhos valores pluralistas que reaparecem e que eles pensavam ter sido suprimidos há muito tempo, através da racionalidade do Iluminismo e do laicismo.

Estas elites podem estar correctas na sua ansiedade: O seu deliberado desmantelamento de qualquer norma externa, para além da conformidade cívica, que poderia orientar o indivíduo na sua vida e acções, e a evicção forçada do indivíduo de qualquer forma de estrutura (comunitária, social, religiosa, familiar, e de género), tornou um “regresso” ao que estava sempre latente, ainda que meio esquecido, quase inevitável.

O que está a acontecer representa um ‘regresso’ global a velhas ‘reservas’ de valores (Ortodoxia, Taoísmo, Xiismo etc.) – uma religiosidade silenciosa; um ‘regresso’ a estar [e ser] de novo ‘dentro, e do’ mundo. São reservas que persistiram; os seus mitos fundacionais, e a noção de “ordem” cósmica (maat), ainda rodopiam nos níveis mais profundos do inconsciente colectivo.

Estes fragmentos continuam a viver, falando das Verdades que se escondem nos vértices do mito, e não em argumentos competitivos. Não são ‘Verdades’ no sentido ocidental da verdade ‘objectiva’, mas representaram os píncaros da intuição humana.

Este ‘regresso’, pelo menos em grande parte, está na raiz da próxima ordem mundial dos Estados da civilização soberanos. Vemos os russos voltarem-se para a Ortodoxia para fornecer vitalidade e direccionalidade à sociedade. Vemos o mesmo na Índia, na China e em grande parte do mundo. O outro aspecto é quando olhamos para o Ocidente, estes estados vêem decomposição e degradação.

Foi em 2012 que o termo “Estados Civilizacionais” passou a ser mais amplamente utilizado em termos de uma nova ordem global em curso. Assinalou o fim da noção de que a modernidade (ocidental) (no sentido de participar nos frutos do avanço tecnológico) obrigava a uma Ocidentalização a passo de tartaruga. Marcou também o fim da óptica bipolar: Recentemente, quando perguntado “de que lado estás tu” em relação à Ucrânia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros indiano simplesmente ripostou que “era tempo de a Europa compreender que os seus problemas não são os problemas do Mundo”: “Nós estamos do nosso próprio lado”, disse ele categoricamente.

Esta tendência para um mundo multipolar é um anátema para o ‘poder estabelecido’ da política externa de Washington. Uma heterodoxia que se reapropria dos valores tradicionais precisamente como o caminho para a re-soberanização de um determinado povo ameaça mortalmente a ordem baseada em regras.

O filósofo político Alasdair MacIntyre, em After Virtue (1981), sugere que a reapropriação não é apenas sobre a questão de soberania. É precisamente a narrativa cultural que fornece uma melhor explicação para a unidade de uma vida humana. As histórias de vida individuais dos membros de uma comunidade ficam enredadas e entrelaçadas. E o emaranhado das nossas histórias surge para formar a trama e o tecido da vida comunitária. Esta última nunca poderá ser uma única consciência gerada abstractamente e imposta a partir de um comando central.

A questão aqui é que é apenas a tradição cultural, e os seus contos morais, que dão contexto a termos como bem e justiça e finalidades. “Na ausência de tradições, o debate moral está fora de lugar; e torna-se um teatro de ilusões em que a simples indignação e o mero protesto ocupam o centro do palco”, escreveu MacIntyre.

O que nos leva àqueles que vivem no Ocidente – aqueles que nunca se sentiram interiormente parte deste mundo contemporâneo, mas sim, de alguma forma, pertencentes a um mundo diferente – um mundo com uma base ontológica muito diferente.

O que hoje possuímos no Ocidente, sugere MacIntyre, não são mais do que meros fragmentos de uma tradição mais antiga (uma sociedade heróica). Mas, evidentemente, estes fragmentos são simplesmente demasiado escassos, uma vez que o nosso discurso moral, que ainda aplica termos como bem e justiça e dever, foi no entanto roubado do contexto que tornaria estes termos inteligíveis. Por outras palavras, coloca a virtude do heróico mundo homérico fora do alcance de um Ocidente colectivo.

No entanto, sob o palimpsesto [n.t.: pergaminho manuscrito onde os copistas reescreviam após apagarem o que estava anteriormente escrito] dos diversos campos de protesto europeus, estamos a assistir a indícios de recuperação que assomam por detrás das ruínas: velhos valores, formas sociais anteriores estão a regressar de uma forma nova e fecunda. A maior parte dos “descontentes” de hoje em dia não se aperceberão disso e poderão nunca abordar seriamente as camadas mais profundas da história do pensamento, ou daquela “outra” visão da qual derivam.

Mas não é essa a questão, pois mesmo quando as folhas da civilização ocidental caem no chão, estão a ser lançadas sementes na nossa psique colectiva.

Uma “camada” vive, no fundo de nós – e surge, (particularmente em tempos de crise), para desafiar “quem pensamos que somos”, e para nos colocar perante uma “escolha de vida”. Dirige-nos para a bifurcação na estrada. Em suma, não se trata de ‘regressar ao passado’, mas de nos ligar a memórias quase perdidas que de repente se reavivem a partir de brasas cinzentas e cobertas de pó, como correntes de ar fresco que as atravessam.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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