Espuma dos dias — O giro de Powell e a Recessão Eminente.  Por Michael Roberts

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

O giro de Powell e a Recessão Eminente

 Por Michael Roberts

Publicado por Next Recession  em 5 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

 

Os mercados bolsistas recuperaram em Novembro à medida que as taxas de inflação baixaram um pouco e a Reserva Federal dos EUA começou a falar de menores subidas das taxas de juro a partir de agora. Os investidores financeiros esperam que a Reserva Federal se prepara para “dar um giro” no aperto da política monetária (ou seja, inverter as subidas das taxas de juro da sua política e parar de vender de volta o seu stock de títulos do Estado para reduzir a liquidez).

Mas os mercados financeiros estão provavelmente a adiantar-se aos acontecimentos. Isto foi deixado claro pelos discursos tanto do chefe do Fed, Jay Powell, como da chefe do BCE, Christine Lagarde. Ambos disseram que estavam determinados a esmagar a inflação até que esta voltasse às suas taxas alvo de 2% ao ano. Num discurso na semana passada, Powell resumiu a sua política na “batalha contra a inflação”.  Ele observou que a taxa de inflação de 12 meses de consumo pessoal (PCE) – a medida de inflação que o Fed segue principalmente – ainda se situava nos 6%. E, excluindo os preços da energia e dos alimentos, a taxa de base situava-se ainda em cerca de 5%, sem qualquer indicação de vir a produzir-se qualquer queda significativa.

 

 

Powell voltou a enunciar a estratégia do Fed. Ignorando o facto de que foi a fraca oferta (bloqueios nos transportes, pessoal qualificado insuficiente e baixa produtividade) a principal causa do pico da inflação pós-pandémica, Powell continuou a defender que a subida das taxas de juro abrandaria a procura agregada e que reduziria a inflação à medida que as famílias e as empresas reduziriam o crescimento das despesas face ao aumento dos custos dos juros dos empréstimos. Mas esta abordagem só poderia significar apenas a intensificação do impacto no lado da oferta também – por outras palavras, levando a economia dos EUA a uma recessão. Como Powell admitiu no seu discurso, “O abrandamento do crescimento da procura deveria permitir que a oferta alcançasse a procura e restabelecesse o equilíbrio que resultará em preços estáveis ao longo do tempo. Restaurar esse equilíbrio é susceptível de exigir um período sustentado de crescimento abaixo da tendência“. As palavras “abaixo da tendência” significam recessão e aumento do desemprego.

As últimas manchetes sobre o emprego nos EUA sugeriram que o mercado de trabalho, como os economistas convencionais gostam de lhe chamar, continua bastante tenso, uma vez que a criação líquida de emprego em Novembro foi muito maior do que o previsto. Mas o ritmo do aumento mensal de emprego tem vindo a diminuir desde Abril passado. E Powell teve de admitir no seu discurso que o emprego ainda estava milhões abaixo do nível que tinha na véspera da pandemia. “Olhando para trás, podemos ver que se abriu um défice significativo e persistente na oferta de mão-de-obra durante a pandemia – um défice que parece improvável ser completamente reabsorvido em breve“. A comparação da actual força de trabalho com as previsões pré-pandémicas do Gabinete do Orçamento do Congresso sobre o crescimento da força de trabalho revela uma carência de cerca de 3,5 milhões de americanos.

Portanto, não é tanto um mercado de trabalho “tenso” causado por uma forte procura de mão-de-obra, mas sim por um grande número de pessoas em idade activa que não regressam ao “mercado de trabalho”. Algumas das “lacunas de participação” reflectem trabalhadores que ainda estão fora da força de trabalho porque estão doentes com COVID-19 ou continuam a sofrer sintomas persistentes de infecções anteriores ao COVID (“COVID longo”). Mas, de acordo com Powell, pesquisas recentes de economistas do Fed descobriram que o fosso de participação se deve agora sobretudo ao excesso de reformas, ou seja, reformas que excedem o que seria de esperar apenas do envelhecimento da população. Estas reformas em excesso representam mais de 2 milhões do défice de 3,5 milhões.

Mas as questões de saúde têm desempenhado um papel importante. Muitos trabalhadores mais velhos perderam os seus empregos nas fases iniciais da pandemia, quando os despedimentos foram historicamente elevados. O custo de encontrar novos empregos pode ter parecido particularmente elevado para estes trabalhadores, dadas as perturbações relacionadas com a pandemia no ambiente de trabalho e as preocupações de saúde. A combinação de uma queda da imigração líquida e um aumento das mortes durante a pandemia é provavelmente responsável pelo desaparecimento de cerca de 1,5 milhões de trabalhadores.

Além disso, existe uma estranha discrepância entre os aumentos de empregos medidos pelo chamado inquérito aos estabelecimentos e o inquérito aos agregados familiares, este último perguntando às pessoas se têm ou não um emprego. De acordo com o inquérito ao estabelecimento, houve um aumento de 2,7 milhões de postos de trabalho desde Março passado. Mas de acordo com o inquérito aos agregados familiares, o aumento é de apenas 12.000! Há aqui qualquer coisa de errado.

E quando analisamos outros inquéritos ao emprego, como a chamada medida ADP de emprego do sector privado, verificamos que houve uma queda de 100 mil empregos na indústria transformadora e na construção em Novembro, enquanto o inquérito oficial ao estabelecimento reclama um aumento de 35 mil. Além disso, os novos postos de trabalho são, na sua maioria, a tempo parcial. Desde Março passado, os EUA perderam 398 mil empregados a tempo inteiro, compensados por um ganho modesto de 190 mil empregados a tempo parcial, enquanto que 291 mil trabalhadores foram forçados a conseguir mais do que um emprego durante o mesmo período. Portanto, não houve alteração no número de pessoas efectivamente empregadas nos últimos oito meses, mas devido à deterioração da economia, mais pessoas estão a perder os seus empregos mais bem pagos, a tempo inteiro, e a ser forçadas a um trabalho muito menos remunerado. Outra medida do mercado de trabalho são os dados do JOLTS sobre contratação e despedimento. Também apontam para um mercado de trabalho em rápido arrefecimento: tanto as taxas de contratação como de despedimento estão agora em queda.

Portanto, não é a pressão salarial em mercados de trabalho tensos que está a conduzir a inflação e não é a “procura excessiva”, nem por parte das famílias nem por parte das empresas que gastam. Continua a ser um problema de abastecimento, particularmente em energia e alimentos. Como resultado, a política do Fed de determinadas subidas de taxas terá pouco efeito nas taxas de inflação. Em vez disso, ao aumentar os custos do crédito, a economia cairá e a inflação acabará por baixar e será substituída por maior desemprego e falências. Recordemos o que o arqui-monetarista Paul Volcker disse quando lhe perguntaram se as subidas das taxas de juro que aplicou como presidente do Fed no final dos anos 70 funcionariam como “terapia de choque”.  Volcker respondeu: “sim, através de falências”.

Demonstrei em posts anteriores que a inflação é principalmente uma história do lado da oferta, ou seja, o fracasso da produção capitalista em responder à abertura das economias após a queda pandémica. É por isso que a solução monetarista de subida de taxas e de política monetária mais rigorosa e a solução keynesiana de contenção salarial terão pouco efeito sobre a inflação – até que a recessão chegue.

Deixem-me acrescentar algum apoio a este argumento do lado da oferta vindo de fonte segura, por assim dizer. Philip Lane do BCE publicou uma análise detalhada da inflação na semana passada. Essa análise mostra que são os custos crescentes dos factores de produção não laborais e as margens de lucro mais elevadas que geraram uma inflação acelerada nos sectores alimentar, de bens e serviços ao longo de 2021-2022. “Parece claro que tanto o choque energético como o ciclo pandémico (tanto a nível doméstico como global) exerceram uma pressão ascendente sobre os custos dos factores de produção e, em algumas categorias, facilitaram também um aumento das margens de lucro“. Portanto, são os custos das matérias-primas e as margens de lucro.

 

E qualquer melhoria nas taxas de inflação nos últimos dois meses deveu-se a alguma atenuação dos estrangulamentos de abastecimento e nos preços da energia e dos alimentos. Num novo relatório, alguns economistas americanos heterodoxos concluem que os aumentos da inflação se têm concentrado em alguns sectores chave “sistémicos” como a energia, alimentação e habitação. E estes sectores são inelásticos em termos de preços quando se trata de aumentos das taxas de juro. “Argumentamos que em tempos de sobreposição de emergências, a estabilização económica precisa de ir além da política monetária e requer instituições e políticas que possam visar estes sectores sistemicamente significativos“.

Entretanto, os salários reais na Zona Euro continuam a afundar-se.

Em textos publicados durante a recessão pandémica, argumentei que as economias podem muito bem sofrer permanentes “cicatrizes” do colapso da produção e do investimento numa recessão ainda mais profunda e generalizada do que a Grande Recessão de 2008-9, mesmo se durar menos no tempo.  Tal como o ‘longo COVID’ afectou a vida de milhões de pessoas desde o fim da pandemia, também a recessão pandémica enfraqueceu a acumulação capitalista e o crescimento da produtividade para novos mínimos. Como outro membro do Fed, Lisa Cook, salientou, “durante os três primeiros trimestres de 2022, a produtividade no sector empresarial registou um declínio decepcionante de 3¾ por cento a uma taxa anual. O emprego assalariado no sector privado continuou a aumentar, mas o produto interno bruto (PIB) pouco mais fez do que mover-se para o lado, resultando num declínio absoluto na produtividade laboral“.

E outro membro do Fed, Brainard, está preocupado que este cenário de baixa produtividade e inflação elevada continue, apesar dos esforços monetários do Fed: “é a relativa inelasticidade da oferta em sectores-chave que mais claramente distingue o período afectado pela pandemia e pela guerra dos últimos três anos dos 30 anos anteriores da Grande Moderação… uma combinação de forças – a desglobalização das cadeias de abastecimento, a maior frequência e gravidade das perturbações climáticas, e as mudanças demográficas – pode levar a um período de menor elasticidade da oferta e maior volatilidade da inflação“.

De facto, a economia mundial não só não está a regressar às tendências pré-pandémicas de crescimento real do PIB, investimento e emprego (que já eram fracos), como, pior ainda, está a caminhar para uma nova recessão.  Os índices de actividade empresarial (PMI) na maioria das principais economias encontram-se em níveis de “contracção” (ou seja, abaixo dos 50).

 

Índices de actividade empresarial na Eurozona e nos EUA

Os lucros empresariais nas principais economias estão agora a dirigir-se para sul pela primeira vez desde 2016 – num ambiente em que o custo do empréstimo está a aumentar rapidamente (taxas hipotecárias, rendimentos de obrigações, encargos de empréstimos, etc.). O crescimento global dos lucros das empresas abrandou para apenas 4,5% yoy no terceiro trimestre de 2022. Os lucros das empresas americanas aumentaram de longe mais desde o início da pandemia até à data (mais 22%), mas atingiram o seu pico em meados deste ano e caíram absolutamente pela primeira vez no último trimestre.  Os lucros empresariais do Japão, Alemanha e Reino Unido não subiram mais de 4-7% durante o mesmo período, enquanto os lucros empresariais da China são agora inferiores aos do final de 2019. De facto, os lucros das empresas japonesas e alemãs caíram quase 15% este ano até à data, enquanto que os do Reino Unido estão estagnados.

 

Um dos indicadores mais fiáveis de uma recessão que se aproxima é a chamada curva de rendimento das obrigações invertida. É aí que a taxa de juro das obrigações de longo prazo (dez anos) cai abaixo da taxa de juro dos empréstimos de curto prazo (3 meses ou 2 anos). Isto não deve acontecer se uma economia estiver a crescer “normalmente”. Então os juros cobrados sobre as obrigações de longo prazo seriam mais elevados porque se obtém o empréstimo por um período mais longo. A curva de rendimento só se inverte quando os bancos centrais aumentam as taxas de juro de curto prazo e os investidores se apressam a comprar obrigações de longo prazo porque temem uma recessão.

Bem, a curva de rendimento dos EUA permanece fortemente invertida.

 


O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).

 

 

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