Espuma dos dias — A Nova Guerra Fria da América em África. Por Vijay Prashad

Seleção e tradução de Francisco Tavares

11 min de leitura

A Nova Guerra Fria da América em África

 Por Vijay Prashad

Publicado por em 3 de Janeiro de 2023 (original aqui)

Pathy Tshindele, República Democrática do Congo, S/ Título, 2016.

 

Vijay Prashad diz que a abordagem de Washington à Cimeira de Líderes EUA-África no mês passado foi orientada pela sua agenda mais ampla da Nova Guerra Fria.

 

O governo dos Estados Unidos da América realizou a Cimeira de Líderes EUA-África em meados de Dezembro, motivado em grande parte pelos seus receios sobre a influência chinesa e russa no continente africano.

Em vez de diplomacia de rotina, a abordagem de Washington na cimeira foi orientada pela sua agenda mais ampla da Nova Guerra Fria, na qual um foco crescente dos EUA tem sido o de perturbar as relações que as nações africanas mantêm com a China e a Rússia.

Esta postura de falcão é impulsionada por planeadores militares americanos, que vêem África como “o flanco sul da NATO” e consideram a China e a Rússia como “ameaças quase em pé de igualdade”.

Na cimeira, o Secretário da Defesa dos EUA Lloyd Austin acusou a China e a Rússia de “desestabilizarem” a África. Austin forneceu poucas provas para apoiar as suas acusações, não mais do que apontando para os substanciais investimentos, comércio e projectos de infra-estruturas da China com muitos países do continente e denegrir a presença num punhado de países de várias centenas de mercenários da empresa russa de segurança privada, o Grupo Wagner.

Os chefes de governo africanos deixaram Washington com uma promessa do Presidente dos EUA Joe Biden de fazer uma digressão por todo o continente, uma promessa de que os Estados Unidos irão fazer 55 mil milhões de dólares em investimentos e uma declaração ambiciosa mas vazia de sentido sobre a parceria EUA-África.

Infelizmente, dado o historial dos EUA no continente, até que estas palavras sejam apoiadas por acções construtivas, só podem ser consideradas gestos vazios e manobras geopolíticas.

Não houve uma única palavra na declaração final da cimeira sobre a questão mais premente para os governos do continente: a crise da dívida a longo prazo.

O Relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento de 2022 concluiu que “60% dos países menos desenvolvidos e outros países de baixo rendimento estavam em alto risco ou já a sofrer com o problema da dívida”, com 16 países africanos em alto risco e outros sete países – Chade, República do Congo, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Somália, Sudão e Zimbabué – já em situação de sobreendividamento.

Além disso, 33 países africanos necessitam urgentemente de ajuda externa para a alimentação, o que agrava o risco de colapso social já existente.

A maior parte da Cimeira de Líderes EUA-África foi gasta pontificando sobre a ideia abstracta de democracia, com Biden a chamar à parte os chefes de Estado, nomeadamente o Presidente nigeriano Muhammadu Buhari e o Presidente da República Democrática do Congo Félix Tshisekedi para lhes dar lições sobre a necessidade de eleições “livres, justas e transparentes” nos seus países, ao mesmo tempo que se comprometeu a fornecer 165 milhões de dólares para “apoiar eleições e boa governação” em África em 2023.

Chéri Samba, RDC, “Une vie non raté” ou “A Successful Life,” 1995.

 

A maior parte da dívida detida pelos Estados africanos é devida a ricos detentores de obrigações nos Estados ocidentais e foi intermediada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Estes credores privados – que detêm a dívida de países como o Gana e a Zâmbia – recusaram-se a fornecer qualquer alívio da dívida aos Estados africanos, apesar do grande sofrimento que estão a sentir. Muitas vezes, nas conversações sobre esta questão deixa-se de lado o facto de esta angústia da dívida a longo prazo ter sido em grande parte causada pela pilhagem da riqueza do continente.

Por outro lado, ao contrário dos ricos detentores de obrigações do Ocidente, o maior credor governamental dos Estados africanos, a China, decidiu em Agosto de 2022 cancelar 23 empréstimos sem juros a 17 países e oferecer 10 mil milhões de dólares das suas reservas do FMI para utilização pelos Estados africanos.

Uma abordagem justa e racional da crise da dívida no continente africano sugeriria que muito mais da dívida aos obrigacionistas ocidentais deveria ser perdoada e que o FMI deveria atribuir Direitos de Saque Especiais para fornecer liquidez aos países que sofrem com a crise endémica da dívida. Nada disto constava da agenda da Cimeira de Líderes EUA-África.

Em vez disso, Washington combinou a bonomia em relação aos chefes de governo africanos com uma atitude sinistra em relação à China e à Rússia. Será esta simpatia dos EUA um sincero ramo de oliveira ou um cavalo de Tróia com o qual procura contrabandear a sua agenda da Nova Guerra Fria para o continente?

O mais recente livro branco do governo dos EUA sobre África, publicado em Agosto de 2022, sugere que é este último. O documento, supostamente centrado em África, apresentava 10 menções da China e da Rússia juntas, mas nenhuma menção ao termo “soberania”. O documento afirmava:

De acordo com a Estratégia de Defesa Nacional de 2022, o Departamento de Defesa irá colaborar com parceiros africanos para expor e destacar os riscos das actividades negativas da RPC [República Popular da China] e da Rússia em África. Alavancaremos as instituições de defesa civil e expandiremos a cooperação de defesa com parceiros estratégicos que partilham os nossos valores e a nossa vontade de promover a paz e a estabilidade globais”.

O documento reflecte a concessão dos EUA de que não pode competir com o que a China oferece como parceiro comercial e que recorrerá ao poder militar e à pressão diplomática para afastar os chineses do continente. A expansão massiva da presença militar dos EUA em África desde a fundação do Comando Africano dos Estados Unidos em 2007 – mais recentemente com uma nova base no Gana e manobras na Zâmbia – ilustra esta abordagem.

Kura Shomali, DRC, “Miss Panda,” 2018.

 

O governo dos Estados Unidos construiu um discurso para manchar a reputação da China em África, que caracteriza como “novo colonialismo”, como disse a ex-secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton numa entrevista de 2011.

Será que isto reflecte a realidade? Em 2017, a empresa global de consultoria empresarial McKinsey & Company publicou um importante relatório sobre o papel da China em África, observando, após uma avaliação completa, “Em suma, pensamos que o crescente envolvimento da China é fortemente positivo para as economias, governos e trabalhadores africanos”.

As provas para apoiar esta conclusão incluem que, desde 2010, “um terço da rede eléctrica e infra-estruturas de África tem sido financiada e construída por empresas estatais chinesas”. Nestes projectos geridos pela China, McKinsey concluiu que “89 por cento dos empregados eram africanos, somando quase 300.000 empregos para os trabalhadores africanos”.

Certamente, há muitas dificuldades e tensões envolvidas nestes investimentos chineses, incluindo provas de má gestão e contratos mal concebidos, mas estes não são exclusivos das empresas chinesas nem endémicos da sua abordagem.

As acusações dos EUA de que a China está a praticar a “diplomacia da armadilha da dívida” também têm sido amplamente desmascaradas. A observação seguinte, feita num relatório de 2007, continua a ser perspicaz: “A China está a fazer mais para promover o desenvolvimento africano do que qualquer retórica de governação de alto nível”. Esta avaliação é particularmente notável dado que provém da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico com sede em Paris, um bloco intergovernamental dominado pelos países do G7.

Qual será o resultado do recente compromisso de 55 mil milhões de dólares dos Estados Unidos com os Estados africanos? Será que os fundos, em grande parte destinados a empresas privadas, irão apoiar o desenvolvimento africano ou meramente subsidiar empresas multinacionais norte-americanas que dominam os sistemas de produção e distribuição de alimentos, bem como os sistemas de saúde em África?

Mega Mingiedi Tunga, RDC, “Transactor Code Rouge”, 2021.

 

Eis um exemplo revelador do vazio e do absurdo das tentativas dos EUA de reafirmar a sua influência no continente africano.

Em Maio de 2022, a República Democrática do Congo e a Zâmbia assinaram um acordo para o desenvolvimento independente de baterias eléctricas. Juntos, os dois países albergam 80 por cento dos minerais e metais necessários para a cadeia de valor das baterias.

O projecto foi apoiado pela Comissão Económica das Nações Unidas para África (ECA), cujo representante Jean Luc Mastaki afirmou,

“Acrescentar valor aos minerais da bateria, através de uma industrialização inclusiva e sustentável, permitirá definitivamente aos dois países preparar o caminho para um padrão de crescimento robusto, resiliente e inclusivo que crie empregos para milhões da nossa população”.

Com vista a aumentar a capacidade técnica e científica indígena, o acordo terá partido de “uma parceria entre escolas de minas e politécnicos congoleses e zambianos”.

Avançando de novo para a cimeira: depois deste acordo já ter sido alcançado, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da RDC Christophe Lutundula e o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Zâmbia Stanley Kakubo juntaram-se ao Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken na assinatura de um memorando de entendimento que alegadamente “apoiaria” a RDC e a Zâmbia na criação de uma cadeia de valor de baterias eléctricas. Lutundula chamou-lhe “um momento importante na parceria entre os EUA e África”.

O Partido Socialista da Zâmbia respondeu com uma forte declaração:

“Os governos da Zâmbia e do Congo entregaram a cadeia de fornecimento e produção de cobre e cobalto ao controlo americano. E com esta capitulação, a esperança de um projecto pan-africano de carro eléctrico de propriedade e controlo pan-africano é enterrada durante gerações futuras”.

Pierre Bodo, RDC, “Femme surchargée” ou “Overworked Woman”, 2005

 

É com o trabalho infantil, estranhamente chamado “mineração artesanal”, que as empresas multinacionais extraem as matérias-primas para controlar a produção de baterias eléctricas em vez de permitir que estes países processem os seus próprios recursos e façam as suas próprias baterias.

José Tshisungu wa Tshisungu do Congo leva-nos ao coração das tristezas das crianças da RDC no seu poema, “Inaudível”:

Listen to the lament of the orphan

Stamped with the seal of sincerity

He is a child from around here

The street is his home

The market his neighbourhood

The monotone of his plaintive voice

Runs from zone to zone

Inaudible.

Ouçam o lamento do órfão

Carimbado com o selo de sinceridade

Ele é uma criança daqui

A rua é a sua casa

O mercado o seu bairro

O tom monótono da sua voz melancólica

Vai de zona em zona

Inaudível.

 

 

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O autor: Vijay Prashad é um historiador, editor e jornalista indiano. É um escritor e correspondente-chefe da Globetrotter. É editor da LeftWord Books e director do Tricontinental: Institute for Social Research. É bolseiro sénior não residente no Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, Universidade Renmin da China. Escreveu mais de 20 livros, incluindo The Darker Nations and The Poorer Nations.  Os seus últimos livros são Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism e, com Noam Chomsky, The Withdrawal: Iraque, Líbia, Afeganistão, e a Fragilidade do Poder dos Estados Unidos.

 

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