Custa-me falar disto. Porém, sinto que devo juntar-me ao clamor público que vai por aí em relação aos comportamentos dos padres pedófilos ou sexualmente perversos.
A minha infância e juventude foram fortemente marcadas por uma educação castradora que fazia do sexo o pecado por excelência. A chamada mensagem de Fátima, que obsessivamente me era transmitida em casa e na igreja, vinha enroupada numa estúpida espiritualidade, baseada na ideia de “ofensas a Deus”- como se Deus fosse passível de ser ofendido – e nessas ofensas estavam a luxúria, a falta de castidade, os hábitos licenciosos que levavam as almas ao inferno.
A pretensa “aparição” não hesitou em mostrar a três pobres e inocentes crianças que viviam nas charnecas de Fátima imagens apavorantes desse inferno. Esse foi um dos “segredos” que a aparição segredou às crianças, e que mais tarde a hierarquia católica vendeu como memórias autênticas da pobre mulher que sequestrou e enclausurou num convento, a quem chamou “irmã Lúcia”.
O Padre Mário de Oliveira, que a hierarquia católica baniu, nunca se cansou de denunciar o embuste de Fátima, que classificou de “a grande mentira e o grande crime da hierarquia da igreja católica do século XX”. E provou a sua tese com estudos que publicou e merecem ser conhecidos.
Se hoje falo de Fátima é porque ela é o símbolo do poder que muitos padres usaram, e continuam a usar, para amedrontarem os crentes e para abusarem de crianças que lhes são confiadas. É o medo da doença e da morte que faz muita gente acorrer a Fátima. Foi com o medo do castigo divino que os abusadores pedófilos enganaram os inocentes. Tais sentimentos são usados pelo Santuário e seus administradores para entesourarem enormes quantias de que não prestam contas – ao mesmo tempo que exploram instituições sediadas em inúmeros edifícios de que não pagam IMI. Assim como não pagam IMT ou IRC no âmbito das suas actividades, ao abrigo da Concordata.
Os padres e os bispos habituaram-se a este regime de privilégios, o que explica em parte o modo como têm falado dos crimes que a Comissão denunciou. Sentem-se acima dos mortais – os bispos até são tratados por esse anacrónico “Dom”, como se ainda vivêssemos no Regime Absolutista de que muitos ainda têm saudades.
Convivi com muitos padres e felizmente, nunca encontrei nenhum que me molestasse. Um deles, da minha família, foi em certa altura da minha vida, como um pai, ouvinte solícito das minhas dúvidas. Curiosamente, a sua maneira de estar era intrinsecamente anticlerical: foi dos primeiros padres a recusarem vestir “à padre”, não para se esconder ou disfarçar, mas porque entendia que a Igreja era uma comunidade de homens livres e não um redil de ovelhas que vão para onde os pastores mandam. Esse homem foi o P. Joaquim Ribeiro Lopes, foi pároco de Runa (Torres Vedras), onde morreu e foi enterrado em 1983.
Aos bons padres que conheci e aos crentes puros e sinceros com quem convivo, presto a minha sentida homenagem, pois eles também se sentem ofendidos por essa escumalha de gente que usa o seu estatuto clerical para enriquecer ou para abusar dos mais frágeis e desamparados.
Como cidadão, espero do Estado de Direito que faça prevalecer a Justiça e castigue exemplarmente os criminosos.