Estamos nós, os trabalhadores mais desvalidos e pensionistas, a ser alvo de um ataque a terminar inevitavelmente numa ‘sobra’ arrepiante dos dias do mês, sempre bem penosos de passar, até chegar o ‘sagrado’ dia do pagamento, marcado pelas diferentes maneiras de retribuição, daquelas ‘por baixo da mesa’, –aos que calam injustiças e desigualdades–, até aos diferentes dias da abertura dos envelopes, conforme sejam pensionistas do regime geral, da Caixa ou de outra coisa qualquer.
Certa é a direcção da grande vaga de aumento das despesas diárias, –alimentação, rendas, hipotecas, energia, combustíveis, inflação–, em que os maiores beneficiários vão ser as grandes empresas da Eurozona, com os trabalhadores e consumidores a ter de ‘pagar as contas’, como reconheceram os responsáveis do BCE de acordo com as notícias da Reuters, divulgadas no dia 4 de deste mês de Março.
De acordo com Juan Torres, catedrático da Economia Aplicada na Universidade de Sevilha, esta crise ‘Tem uma série da causas de origem diferente, bloqueios na oferta, a crise no sistema logístico, o mau desenho da globalização, a alteração climática, as finanças, a desigualdade, a especulação e as questões da procura, derivada das gestões de cada governo, uma serie de circunstâncias tão diferentes, que tentar fazer-lhe frente como uma só medida, seria gravíssimo’.
Arriscar-me a analisar cuidadosamente estas afirmações está muita para lá dos meus conhecimentos, mas retenho –à conta da desigualdade que vejo e sinto cada dia– como os grande beneficiários são ‘As grandes empresas e a banca, pois a política de subida dos juros dos bancos centrais, responde a um erro ideológico gravíssimo nesta conjuntura, mas também a uma prática já consolidada de favorecer as entidades financeiras privadas e as grandes empresas’, acrescenta Juan Torres.
Aliás, João Rodrigues, professor na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e um dos criadores do blog ‘Ladrões de Bicicletas’, salientou bem, ‘Em Portugal, no ano passado, a transferência do trabalho para o capital foi superior à patrocinada pela troika no pior ano. O BCE fez parte da troika, que de resto resultou na sua inação. Agora, o importante é continuar a aumentar a taxa de juro, garantindo lucros recorde à banca, até ver e aumentando as desigualdades, também por via do aumento do desemprego, de resto já em curso’.
Também João Ramos de Almeida, economista e pertencente ao Observatório de Crises e Alternativas da Universidade de Coimbra, salienta, ‘Passada uma década depois da troika, Portugal tem um governo que se bateu pela assinatura de um acordo entre trabalhadores e patronato, para recuperar a repartição do peso dos salários no PIB que vigorava… em 2019, mas que entretanto manteve em vigor o “grosso do pacote laboral de 2012”, e manteve até há bem pouco o grosso do “aumento enorme de impostos” de 2013 e, mais recentemente, pouco ou nada faz para conter a enorme transferência de rendimento dos trabalhadores e pensionistas para os donos das empresas, fruto da especulação à pala da guerra’.
‘Estranhas ressonâncias coincidentes de uma mesma política europeia, levada a cabo por diferentes personagens’, acrescenta e conclui o economista, coincidindo com os recentes estudos da Deco e do INE, que apontam para uma perda de 471 euros por mês na remuneração de cada pensionista, e para uma quebra de 2,3% nas despesas com a alimentação de muitas famílias, principalmente as mais pobres.
Lembro-me de um antigo e velho amigo me dizer, há já muitos anos ‘O dinheiro é como uma teia de aranha. Só serve para apanhar mosquitos, os maiores rompem a teia e ainda podem comer a aranha!’
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor