O título tirei-o de um jornal diário daqui ao lado, por me ter deixado ‘siderado’ pela incongruência –Cães, gatos, iguanas e até moscas: o cemitério de animais de companhia mais antigo de Espanha está em Barcelona–; decidi usar este título para a Carta de hoje, não por desrespeitar ou menosprezar os sentimentos das pessoas, mas apenas por aquele pormenor –até moscas–!
E dei por mim a pensar como é que aquele nojento animal poderia ser companhia de alguém; seria em todo o espaço livre da habitação? no WC ‘perfumado’ de, e a propósito? na zona do caixote do lixo com a tampa aberta? noutro sítio qualquer onde se tivessem esquecido de fazer limpeza? ou até haveria uma caixa de plástico ou de vidro, se o animal fosse daqueles gordos do tipo varejeira e com cores a dar para o verde? e, sendo assim, haveria intercomunicador para nenhum deles se sentir sozinho? neste caso o intercomunicador teria regulador de som para o ‘senhor(a)’ se sentir acompanhado, quando o animal voasse para ‘ele(a)’ o ouvir bem e perceber as variações do voo e da comunicação? seria a pedir mais ‘porcaria’?
Não quero deixar aqui tudo o que pensei (imaginei) por a notícia descrever ainda um local paradisíaco, com as copas das árvores a deixar passar alguns, poucos, raios de sol, naquele reino de silêncio, às vezes quebrado pelo voo de um pássaro que se atrevia a romper a quietude da colina onde se encontra o pequeno cemitério, mesmo com algumas, também poucas, pessoas a passear silenciosas entre as lápides.
A realidade é que vivemos numa sociedade cada vez mais dividida entre opções de vida quase contrapostas, uma sociedade polarizada como sói agora dizer-se, onde manter a paz é fundamental para reduzir as desigualdades que não param de nos afligir, mas com moscas em campas e lápides? E será que a maioria das pessoas também as poderá comprar?
A igualdade é um dos maiores problemas destes tempos, prolongando aliás uma reflexão de Jean-Jacques Rousseau ‘Uma sociedade só será democrática quando ninguém for tão rico que possa comprar alguém, e ninguém seja tão pobre que tenha de se vender a alguém’ ou, dito de outra maneira, quando acabarão os cemitérios de bombas, os do Mediterrânio, os daquelas terras áridas e secas que obrigam milhares de pessoas a fugir, a morrer e a sofrer para não terem só moscas por companhia?
Termino esta curta Carta com mais uma notícia do mesmo jornal, mas já com umas semanas, ‘Os maiores 60 bancos do mundo, concederam 2,5 bilhões de empréstimos e subscrição de títulos de dívida a empresas, para actividades energéticas, entre Janeiro de 2016 e Julho de 2022. Desses bilhões todos, 2,3 estavam relacionados com a produção de energia de combustíveis fósseis e só 178.000 milhões para energia limpa, eólica ou solar’.
Não nos vão faltar moscas; para quê adoptar alguma como animal de companhia?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor