CARTA DE BRAGA – “das notícias e do medo” por António Oliveira

Esta Carta baseia-se numa série de ‘recortes’ de notícias, para fundamentar as palavras de Maria Fernanda Rollo, professora na Universidade Nova de Lisboa, proferidas o ano passado, na última palestra do ciclo Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, organizado pela Academia das Ciências de Lisboa, ‘Nunca tivemos uma sociedade com tanta desigualdade e um contraste tão grande entre a riqueza e opulência de uns e a miséria de muitos outros, compreendendo nessa perceção de assimetrias não apenas as dimensões económica, social, cultural, política, mas também ambiental ou dos níveis de poluição’.

Não foi preciso esperar muito tempo e, no final de Março passado, o mesmo jornal garante, ‘Com o adicional de 1% para todos os trabalhadores do Estado, os atuais escalões de retenção na fonte podem implicar perdas líquidas de até 12 euros para os ordenados mais baixos, até cerca de 870 euros brutos mensais, o que irá afetar mais de 187 mil funcionários, um quarto do universo total de 742 260 trabalhadores’.

Três semanas depois, em Abril, a notícia é mais ‘pormenorizada’, também no mesmo diário, ‘O salário mais baixo no Estado passa a descontar IRS e tem o menor ganho líquido, o que dá um ganho mensal líquido de 3,3 euros face ao vencimento atual de 761,58 euros, e no caso concreto do nível remuneratório mais baixo, verifica-se que o incremento líquido é o menor face a ordenados superiores’.

Mas, uma semana depois, tenta-se ‘adoçar’ os acontecimentos e o jornal informa, ‘Alívio na retenção em IRS dá mais um euro ao salário mais baixo no Estado, pois irá crescer 1% para os 769,2 euros brutos mensais; em Maio, vai mesmo passar a descontar IRS e o novo modelo dá algum alívio, mas de apenas 1,18 euros mensais, uma vez que, nos dois próximos meses, vai implicar uma retenção de 4,62 euros que irá baixar para 3,44 euros, a partir do segundo semestre’.

Curiosamente, e no blog ‘Ladrões de Bicicletas’, João Rodrigues, economista, professor e membro do membro do Conselho Editorial do ‘Le Monde Diplomatique’, escreve isto a 27 de Abril, ‘Nos últimos 30 anos, o mercado de bens de luxo cresceu de forma quase ininterrupta, sobrevivendo a crises financeiras, tensões geopolíticas e até à pandemia. Em plena crise do custo de vida para a maioria das pessoas, o mercado de luxo atingiu máximos históricos’ e, um dos seus promotores permitiu-se afirmar ao jornal ‘Expresso’, ‘não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados’.

Num outro jornal que também vou lendo diariamente, o professor e historiador Pedro Luis Angosto, pergunta mesmo qual a utilidade das pessoas que têm passado pelo FMI, mais propriamente ‘Para que serve Christine Lagarde?’ e também tem a resposta Para ela mesma e para que o mundo seja cada vez menos habitável, uma pocilga em que só sobrevivem os mais desapiedados e quem lhes limpa os tapetes, para perpetuar um sistema depredador criado pelos homens, em que só é possível ascender ao mais alto, respeitando os modelos de conduta criados pelos machos. A este mundo, o progresso, a justiça e a liberdade, não lhes servem para nada

Na primeira quinzena de Abril, ficámos ainda a saber que as moedas de um e dois cêntimos estarão muito próximo de desaparecer; não é que façam muita falta, pois até sei de pessoas que as guardam aos quilos e pagam a algum cliente ou fornecedor, entregando-lhes sacos para eles contarem. Mas a pergunta que não pode deixar de se colocar é o que vamos passar a perder ou pagar mais caro, porque os arredondamentos serão feitos, com toda a certeza, para cima e nunca para baixo, por não sermos nós a fazê-los!

E já neste mês de Maio e das flores, o DN traz ‘esta’ para nos continuar a ‘animar’, ‘Algumas famílias estão a sofrer porque os reembolsos aos bancos subiram com as nossas decisões’, reconheceu Lagarde. ‘Mas isto é algo que, infelizmente, não podemos aliviar’. Sobre as famílias endividadas e mais apertadas pela subida das taxas de juro as portuguesas foram diretamente referidas pela presidente do BCE também houve uma palavra e, descodificando, ‘vão ter de se aguentar, porque o combate contra a inflação está primeiro’. Ai ‘Aguentam, aguentam’, garantiu há alguns anos em directo e nas televisões, um dos ‘artistas’ beneficiados por tais reembolsos que, como se vê, já vêm de longe!

Termino com mais uma sentença de Eduardo Galeano, o antigo jornalista uruguaio, ‘Quem está preso pela necessidade, está preso pelo medo; alguns não dormem pela ansiedade de ter as coisas que não têm, e outros não dormem pelo pânico da perder as coisas que têm’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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