AS PESCAS PORTUGUESAS NA UNIÃO EUROPEIA
por José de Almeida Serra
Enquadramento geral
Secretário de Estado das Finanças do IV Governo Provisório (1975); Secretário de Estado da Marinha Mercante (Junho/83 a Fevereiro/85) e Ministro do Mar (Fevereiro/85 a Novembro/85) do IX Governo Constitucional; director-geral das pescas da União Europeia (1990-97).
Como Secretário de Estado das Finanças fui responsável pelas PMEs, quase não havendo intervenções públicas nacionalizadoras (as intervenções eram publicadas em DR), contrariamente ao que sucedeu às grandes empresas que foram virtualmente todas nacionalizadas. Outros elementos determinantes para o sucesso da operação: posteriormente, e já com ajuda americana, criou-se o célebre crédito CIFRE (existem dados nas Finanças) que criaria centenas de empresas e milhares de postos de trabalho, tendo o Banco de Fomento Nacional sido responsável por 40% de todo o crédito concedido pelo Sector Bancário (suponho existir um relatório do IARN sobre o assunto). Angola correspondeu, neste aspecto, exemplarmente, merecendo especial referência o hoje Tenente-General Silva Ribeiro.
Como responsável pela Marinha Mercante, a partir de meados de 1983, competiu-me proceder à reconversão do Sector que vivia em estado muito degradado que se traduzia em elevadíssimos encargos anuais para o erário público, a título de indemnizações compensatórias, conforme pode ser comprovado por consulta ao Diário da República (após 1974 o Estado despendera várias dezenas de milhões de contos, sem qualquer efeito útil; foram extintas as empresas então existentes e criadas novas; nunca mais – isto é: após finais de 1985 – tendo ocorrido problemas graves no Sector). A reconversão seria feita sem “ruído social” e em relativa paz, muito em resultado da compreensão e sensibilidade do saudoso Ministro das Finanças, Prof. Hernâni Lopes. No fundamental, tratava-se de abrir a economia à sociedade e acabar com subsídios estatais totalmente incomportáveis e sem qualquer efeito social visível. As soluções encontradas foram objecto de grande debate público antes da respectiva adopção.
Pescas
Como Ministro do Mar, nomeado em Fevereiro de 1985 (tive como Secretário de Estado das Pescas o Eng. Carlos Pimenta) competindo-nos negociar com a Espanha, em menos de três meses, todos os aspectos relativos às pescas, já que nenhum assunto se encontrava negociado em final de Fevereiro de 1985. Principais tarefas, de que foi responsável o ultracompetente Eng. Carlos Pimenta, sempre em consonância comigo e com o meu acordo:
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preparação adequada ‑ tratou‑se da primeira prioridade ‑ do processo negocial em matéria de pescas que conduziria à adesão. Houve, para isso, que criar e cimentar as equipas técnicas então constituídas, dar‑lhes confiança e apoio, e preparar os estudos que serviriam de suporte, quer à negociação com a Comunidade, quer com a Espanha. Tenho de dizer que nada se encontrava feito (o Eng. Pimenta tomou posse no mesmo acto que eu e o sector das pescas era um absoluto caos, tendo sido substituídos os então responsáveis e nomeados novos que tiveram muito pouco tempo para apresentar dossiers de trabalho). Permitam-me que acrescente que se fez em três meses o que agora costuma levar três anos.
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lançamento das bases para a definição de uma política integrada de desenvolvimento do sector e, simultaneamente, prepará‑lo para a integração europeia.
De notar que, desde a sua fundação, em 1983, da Política Comum de Pescas, estava prevista, no âmbito das Comunidades Europeias, uma revisão das mesmas (ou seja, em 1992).
Curiosamente, as pescas nunca mereceram grande atenção à imprensa, o que entendo como um bom sinal. Mas tenho de referir que 10 anos após a negociação publicou o Expresso um artigo muito bem feito, mas apenas e tão somente com os elementos publicamente conhecidos e eu só anos após a publicação teria conhecimento do mesmo. Recomendo a leitura.
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Nas pescas vigorava a anarquia (sejamos suaves; mas o então Embaixador de Marrocos em Portugal teria outras histórias para contar a propósito de uma oferta feita por Marrocos a Portugal de vários direitos de pesca, salvo erro 23 barcos).
Apenas outro exemplo: as pescas tinham tido um orçamento de 500 mil contos a ser distribuído por várias empresas de pesca para as costumeiras e fatais emergências marítimas. Nessa altura (Fevereiro de 1985) restavam 10 mil contos, tendo o resto sido distribuído por várias empresas de pesca desconhecendo-se os critérios de atribuição (não nos recordamos de ter havido catástrofes sérias e justificantes dessa afectação). O governo cairia daí a uns meses: saldo existente no final: 10 mil contos.
A história das negociações com Espanha, no palácio da Ajuda, nunca foi contada em aspectos fundamentais (obviamente de bastidores) e poderia ter conduzido à ruptura do Bloco Central (que chegou a ser equacionada pelo lado do PSD), tendo sido particularmente interventivos e decisivos o Vice-Primeiro Ministro Rui Machete (que nunca esteve fisicamente presente nas negociações, mas que tudo seguiu na retaguarda) e o Secretário de Estado das Pescas, Carlos Pimenta.
Na fase preparatória dos 3 meses sobrantes até à negociação, lá fomos elaborando dossiers visando a reconversão do Sector e a preparação do acordo de pescas com Espanha, que era quem pescava em águas portuguesas, na base de acordos efectuados ao longo de anos – publicados em Diário da República – simplesmente incompreensíveis (ou melhor: intoleráveis).
Em bom rigor, tratando-se da preparação da adesão à CEE deveria ter sido ela a acompanhar, se não a conduzir, as negociações, mas o Primeiro Ministro – e foi o quase-único caso (houve apenas outro) – pôs à frente das negociações o Ministro Dr. Jaime Gama (em todos os outros casos, com excepção da Agricultura também negociada no mesmo local e no mesmo dia e presidida pelo Ministro respectivo, julgo que era o Eng. Álvaro Barreto). Quem sempre presidira havia sido o saudoso Hernâni Lopes. Do lado espanhol veio o Ministro Morán, mas acompanhado do negociador tradicional e eterno, Manuel Marín.
O Eng. Pimenta e eu tivemos uma longa conversa sobre como conduzir as negociações, tendo chegado à conclusão que iríamos ter uma nova Aljubarrota: perderia quem não fosse capaz de aguentar a pressão. Assim fixámos que, durante o dia e até às 18 horas, eu não aparecia e era o Secretário de Estado que estava presente com o encargo de dizer não a todas as propostas espanholas. Eu apareceria, fresco, às 18 (afinal foi às 17) e ficava com a responsabilidade de “aljubarrotar”. E assim se fez.
Quando cheguei, o Eng. Pimenta – que era uma força da natureza, como viria a provar na vida – estava completamente desfeito e passou para a última fila e eu tomei o seu lugar.
De cedência em cedência fomos cedendo em tudo (isto é, o responsável pelo lado português), numa Aljubarrota em completa inversão. Papel do Ministro dos Estrangeiros? Prefiro não comentar mais, mas sentia a tensão aumentar em vários dos presentes, sendo geral a alegria dos espanhóis.
Cerca das 19 horas, e obtido o seu conselho, pedi ao Carlos Pimenta que telefonasse ao Dr. Rui Machete, contasse o que se passava, e que este telefonasse ao Dr. Gama procurando saber em que ponto estávamos e dizendo-lhe que, se houvesse desvios importantes ao documento aprovado em Conselho de Ministros, não haveria acordo porque o PSD romperia a coligação e explicaria ao País, na manhã seguinte, as razões por que o fazia.
De facto, daí a pouco o Dr. Gama é chamado ao telefone, voltou com cara de enterro, sentou-se e, qual velha estátua grega, manteve-se absolutamente imóvel e não interventivo durante uma hora, passasse o que se passasse na sala. Não mais atendeu telefone e quem atendia era eu, até dizer ao Dr. Machete que estivesse descansado porque se algo de excepcional acontecesse seria eu a telefonar-lhe. Foi um período que poderíamos chamar o período da “estátua” acompanhado da “alegria espanhola”, que aliás foi diminuindo, percebendo que algo de estranho se estaria passando.
Total inversão de Aljubarrota e a minha cena de me levantar ostensivamente, julgo que até malcriadamente, e arrumar com evidente indelicadeza e muita força os papéis na pasta dizendo em voz bem alta: “Meus senhores, as negociações acabam aqui”. Levantei-me e saí.
Reproduzo das minhas notas de então:
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Até que eu me levantei bruscamente, arrumei ostensivamente os papéis na pasta, e disse, alto e bom som, que as negociações acabavam ali e retirei-me;
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E os espanhóis entraram em pânico e seguiu-se uma mini reunião semiclandestina (Portugal-Espanha) com 3 ou 4 indivíduos de cada País (o Dr. Gama continuou a ser uma presença igual ao que já vinha acontecendo).

