93º FEIRA DO LIVRO DE LISBOA, NO PARQUE EDUARDO VII por Luísa Lobão Moniz

Que agradável que é estar rodeado de árvores que exalam um perfume que não deixa ninguém indiferente, que agradável que é ver o Tejo lá ao fundo para surpresa dos turistas.

Jovens casais aproveitam para trocar carinhos e afetos nos bancos do jardim ou na relva verde que emolduram os inúmeros pavilhões.

Se nos apetecer algo para nos refrescar do calor, não faltam pavilhões com café, cerveja, gelados, pizzas, farturas, pipocas…e mesas e cadeiras para podermos saciar a sede e a vontade de comer à sombra.

Todos os anos vou à feira do livro e senti que havia sangue novo no cuidado da apresentação dos milhares de livros que esperam por nós, para os folhearmos e pensarmos no orçamento que podemos gastar na compra dos livros, pois de facto as pessoas têm menos poder de compra.

Pessoas sozinhas, outras acompanhadas pelos amigos “ eu tenho esse livro, não compres que eu empresto-te”, no fim de semana e nos feriados a Feira enche-se de famílias que levam os seus filhos, adolescentes e crianças, o cão, só falta o periquito, pois sabe-se se lá se ele não aproveitava e levantava voo e em liberdade piaria, piaria…

Eu gosto de ver e ouvir o comportamento de quem passa pelo pavilhão onde estive a autografar o meu livro “A Escola e os Cravos”.

O livro tem de facto uma ilustração muito apelativa, feita pela minha sobrinha Rita, as crianças aproximavam-se e mexiam no livro e, então, ouvia-se o que já não ouvia há muito tempo não mexas no livro, vais estragá-lo, o que me levou a dizer , não se preocupe, os livros são para quem quer ver. Se a menina estragar, o que não acredito que o faça, não faz mal, é sinal que ela gosta ver um livro, que é curiosa…potencialmente pode vir a ser uma boa leitora, escritora, organizadora de festas de livros, sabe-se lá…

Uma senhora folheava livros, escolheu um, mas disse vou só ali falar com o meu marido e já volto, mas não voltou.

Para quem está em contacto com as pessoas que se dirigem aos pavilhões para verem os livros, ainda imperam atitudes repressivas relativamente às crianças curiosas, à falta de poder de escolha e de decisão das mulheres  sem o aval do marido

O que leva a constatar que temos ainda um longo caminho a percorrer relativamente à educação das crianças curiosas e que querem saber mais coisas… em relação às mulheres que ainda vivem subjugadas pela opinião do marido, que não assumem a sua identidade enquanto pessoas livres com poder de escolha.

A Feira teve milhares de visitantes, compraram-se imensos livros, fizeram-se diversas apresentações de novos livros, autografaram-se muitos, muitos livros…conversou-se com pessoas conhecidas, desconhecidas e, por vezes, a visão do mundo não era coincidente, mas enriquecedora.

Ler faz aumentar o vocabulário, as palavras que são um dos meios de aquisição de novos conhecimentos e afectos são facilitadoras da expressão dos nossos pensamentos, são as melhores armas para modificar as sociedades.

A Feira do Livro é um local onde se cruzam várias culturas, onde se folheiam livros de que se ouviu falar, onde se comentam livros que já se leram há muito tempo…onde se pede a opinião sobre livros adequados a várias idades, normalmente, para adolescentes.

As crianças correm, saltam, gritam, comem algodão doce. Espero que daqui a uns anos se lembrem da alegria de estar na Feira do Livro, por vezes, contagiante.

Livros passeiam-se de tabuleiro para tabuleiro, põem-se em cima de outros e o tabuleiro já é outro, e alguém descobre um livro que ainda não tinha visto.

Já viste este? Publicaram-no com outra capa….este livro foi publicado na ano…. Aos anos… Sabes alguma coisa do Carlos Araújo? Já não o vemos há muito tempo.

Mas este ano a conversa dominante era sobre o nosso amigo Zé Pinho, homem de uma alegria de viver imparável, sempre com novos projetos para a divulgação do livro. Com uma energia difícil de acompanhar. Os seus olhos, brilhantes e confiantes no futuro, eram sonhadores e faziam a diferença, não se conformavam. Os seus amigos, perante esse olhar, acreditavam que ele ia dar a volta por cima, mas a Natureza foi cruel e não deixou que concretizasse os muitos sonhos que ainda tinha.

Cabe-nos, agora, não deixar que o tempo apague esta estrela cadente.

Vamos Ler Devagar aquilo que foi urgente. *

O chão das livrarias, das ruas de Óbidos, da LX Factory  são como o poema de Maria Alberta Menéres, As Pedras. Estas Pedras poderão ser as palavras que os escritores desbravam por caminhos vários?

AS PEDRAS

 As pedras falam? Pois falam

mas não à nossa maneira,

que todas as coisas sabem

uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés

ou dentro da nossa mão

o que pensarão de nós?

o que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos

choram no meio da rua

tremem de frio e de medo

quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,

no fundo do mar se esquecem,

umas partem como aves

e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai,

vestem-se de musgo verde

em casa velha ou em fonte

que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras

que a faísca rebentou:

uma germinou em flor

e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.

Só as entende quem quer,

que todas as coisas têm

uma coisa para dizer.

Maria Alberta Menéres, Conversas com versos, 4.ª ed., ASA, 2009 (1.ª ed. 1968)

Sobre este poema escreveu Leonor Riscado :  «O poema “As pedras” é uma espécie de manifesto poético ou compromisso com o mundo.» (no artigo “Maria Alberta Menéres: aquém e além do horizonte – imaginação e harmonia dos tempos”, in No branco do sul as cores dos livros: 5.º encontro sobre literatura para crianças e jovens: atas. 2003, Escola Superior de Educação. Instituto Politécnico de Beja (org.), (pp. 41-57).

*No dia 3 de Junho a Feira do Livro prestou uma pequena, mas grande homenagem ao Zé Pinho. A Feira do Livro parou e durante um minuto houve uma salva de palmas de todos quantos estavam presentes.  Foi emocionante.

 

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