Se houvesse televisão em 1870 o telejornal abriria com a seguinte notícia “morreu João Machado, condenado a 15 anos de trabalhos forçados, na cadeia, por ter dado 15 facadas no ex-marido da sua companheira”.
Hoje quase não há dia em que não haja notícias de crimes de homens sobre mulheres, crianças, idosos, deficientes, ou de crimes de mulheres sobre outros mais fracos do que elas. Bebés que são mortos à facada porque o pai não conseguia lidar com a situação da separação, são mulheres que são mortas porque têm outro companheiro depois da separação, são bebés mortos, à nascença, pelas suas mães…São mulheres maltratadas até à morte por ciúme.
Estes crimes chocam a sociedade e logo a indignação é geral e os meios de comunicação publicam pareceres de vários peritos nesta matéria. Todos opinam, todos querem saber porquê, se calhar, todos estes reclusos e reclusas deviam ser acompanhados, desde o início, por uma equipa de saúde mental.
Esquecem-se que todos temos as mãos ensanguentadas por todas as vezes que sabemos destes crimes e apenas queremos saber como foi e não porque foi, e porquê tanta violência? Como era a sua personalidade, o seu carácter? Como era a sua capacidade afectiva de lidar com situações adversas ao seu entendimento sobre as relações pessoais; como pode ele ser substituído por outro, “se ela não é minha, não é de mais ninguém”, “o que o amante queria era o dinheiro que eu tenho.”
Hoje, enquanto tomava café, ouvi uma conversa entre três senhoras mais velhas a dizerem que antigamente as pessoas eram mais amigas, que os vizinhos sentiam-se capazes de ir saber o porquê de tantas discussões, porque choravam as crianças. Os seus conselhos e conversas faziam parte da sanção social (sem que elas soubessem o que é a sanção social), quando percebiam que a vizinha não tinha nada para dar aos filhos, os vizinhos ajudavam como podiam. Todos se conheciam. Agora vive-se em prédios, como os seus filhos e netos. Quando os vão visitar ficam muito admiradas, por eles não saberem os nomes dos vizinhos.
Não há aceitação possível destes crimes contra natura, não há sanção social suficientemente forte para regular alguns comportamentos sociais.
A comunicação social faz entrevistas a vizinhos do assassino e quase todos têm uma característica em comum “era boa pessoa, simpático, nunca causou nenhum problema. Não percebo o que aconteceu, parece mentira”, mas também aparece alguém que muito timidamente diz que ouviu dizer que ele gritava muito em casa e que a mulher raramente saía. Não disseram nada à polícia porque não sabiam o que se passava dentro de casa, ele até era simpático”.
Estes homens, que aparentemente são sociáveis com os outros e que em casa maltratam até matar a mulher, filhos, sogras, amigas da mulher, são pessoas que têm alguma perturbação que se manifesta em situações de stress emocional, social, económico, para espanto de muitos amigos. Estes homens vivem a contradição de uma sociedade que quer os machos fortes e valentes, donos das pessoas com quem vivem, bons chefes de família, detentores do poder em casa e na rua. O que quer tudo isto dizer?
Nisto olhei para o écran da televisão do café e lá estava a ser relatada uma notícia do assassinato de uma mulher pelo ex-marido, com todos os pormenores. Para quê, sim a sociedade tem o direito de saber o que se passa, mas para quê tanto pormenor? Para aprender a ser ainda mais violento? Para eu saber que a justiça social é mais branda do que a justiça “ feita pelas minhas mãos? Maltratam as mulheres humilhando-as, muitas vezes, em frente dos amigos para mostrarem que ele é quem manda.
A sociedade, por outro lado, libertou-se de preconceitos que faziam com que a mulher só servisse para ter filhos, tratar da casa e cuidar do marido. O homem começa a sentir-se fragilizado pelo poder que está a perder.
Depois da Revolução de Abril as mulheres lutaram pelos seus Direitos, a sociedade começou a perceber que os homens não podem maltratar a mulher, nem quem vive no mesmo agregado familiar, a família já não se intimida tanto com as consequências de comunicar o que se passa em casa, porque já se sente mais segura com a assistência social, com o tribunal… Já lá vai a época em que o macho ia caçar e a fêmea ficava a tratar dos filhos. Hoje, os homens e as mulheres podem fazer o mesmo trabalho, não podem é ter um salário inferior ao do homem.
A liberdade trouxe novos conceitos da vida em sociedade, mas a democracia é frágil quando não consegue cuidar dos cidadãos considerados o elo mais fraco da sociedade, crianças, idosos, mulheres, deficientes, homo/sexuais, migrantes, sem-abrigo…,ou seja, todo aquele ou aquela que é diferente do que consideram ser a “normalidade”.
O poder do homem sobre os diferentes acentua-se em momentos de crise, mas a crise não explica tudo. O que explica quase tudo é a falta de desconstrução de certos preconceitos, é a falta de assistência na saúde mental, é o isolamento em que muitas pessoas vivem, são as substâncias aditivas, é a falta de regras sociais que refreiem este descontrolo.
Eu acredito na bondade humana, mas não acredito que a forma como as sociedades se organizam seja a melhor para vivermos.
É trágico que não se tenha conseguido, ainda, mudar a sociedade que estende a passadeira para o crime, para a dor dos mais indefesos, para o descrédito na bondade humana. A bondade humana só pode existir quando as condições sociais o permitirem.
Porque é que uns homens matam e outros não? Porque há ambientes familiares violentos e outros não? As pessoas desligaram-se dos seus deveres enquanto cidadãs, a prevenção e a regulação das regras sociais foram entregues ao poder individual e coletivo. Quando há uma sentença que decreta a prisão efetiva, as vítimas pedem sempre penas mais pesadas, na realidade, não há prisão que possa abafar a dor causada pela violência. A cadeia não tem conseguido distinguir os vários tipos de razões que levam alguém a ser maltratante até à tortura e à morte da vítima. A cadeia, em regimes democráticos, serve para afastar os criminosos da sociedade e “recuperá-los” para a vida em família, em sociedade.
Se todas as vezes que nos lembrarmos destes crimes contra natura, refletíssemos sobre a nossa vida dentro de casa, nos comportamentos de vizinhos, de colegas de trabalho faríamos com que a sanção social começasse a ser um dos processos de regulação dos comportamentos.
O lobo mau não atacou a menina do capuchinho vermelho quando ela estava a apanhar flores para a avó porque apareceu um caçador, e todos sabem que não se faz mal a uma criança… A sanção social foi mais forte, regulou o comportamento do lobo.
Nota: Esta reflexão foi feita a partir de um texto sobre o mesmo tema escrito em 2014, agora revisto e aumentado. O tempo passa, mas as realidades ficam escondidas atrás dos ponteiros dos relógios.

