Um escritor afirmou recentemente a um jornal diário, ‘A paisagem devia estar incluída nos direitos humanos’, por o sistema em que vivemos ter como eixo central a balança da produtividade, onde tudo o que não produz está a mais e temos de aproveitar o que produz, ‘sem dar grande importância ao que se destroça ou destrói’.
O problema não está só aqui ou na Europa –apesar de algumas tentativas de correcção– mas em todos os continentes, mesmo nas áreas mais desprotegidas –até com os gelos polares–, onde o critério fundamental é produzir e, aos que dizem estarmos a viver pior que os nossos pais, basta recordar como há cinquenta anos, sobravam as aldeias onde não chegavam estradas em condições e as casas não tinham sanitários nem água canalizada.
Talvez por isso, seja importante saber como e de onde viemos, conhecer da história e da cultura das terras de onde somos originários, por sermos realmente o somatório de todos os que nos antecederam, pois só assim se aprende a solidariedade e se afasta o egoísmo, por cada um de nós também contribuir para aquela engrenagem da produção, a ter em conta o que e como, consumimos. Lembro-me muito bem de ver –e ainda não passaram muitos anos– como se compravam e abundavam aquelas pulseiras de cobre para ‘curar’ uma série de coisas, especialmente a artrite.
No blog ‘Setenta e quatro’ também o economista João Rodrigues salientou ‘Na realidade, sempre a realidade, a democracia, a soberania do povo, está sob ameaça permanente no capitalismo, porque nele quem tende a ter a última palavra são precisamente os que controlam a esfera da produção e da circulação. Além disso, sem Estado não há sector privado, mas o contrário não é necessariamente verdadeiro. De resto, a despesa de uns, pública ou privada, é rendimento de outros’.
Mas o problema é agora bem mais grave, atendendo ao que o professor Viriato Soromenho Marques afirma numa das suas cónicas no DN, ‘O modo como no nosso país, com a permissividade e até entusiasmo deste governo, estamos a assistir ao saque e delapidação dos recursos naturais, do capital ecológico, do património paisagístico, de tudo aquilo que torna Portugal num território capaz de orgulhar os seus habitantes e atrair os visitantes estrangeiros, vai para além de todos os limites do suportável’.
A política não é nada mais do que ética social garantia Aristóteles, o velho e sábio filósofo grego. Para isso acontecer, explicava, será conveniente um debate profundo, tendo sempre em atenção as consequências negativas de leis aprovadas à pressa, porque as civilizações nunca prosperaram e se desenvolveram sem a necessária informação sobre cada tema.
Aliás e nas palavras do padre, professor e filósofo Anselmo Borges, também em crónica no DN, ‘Ser livre é propor-se ideais, deliberar e agir segundo razões e argumentos, impondo limites aos impulsos, inclinações e desejos, o que mostra que o ser humano pode ser senhor dos seus actos e, assim, é responsável, isto é, responde por eles e por si próprio’.
É a liberdade, sempre e inclusivamente, até para todo aquele que pensa de maneira diferente, não por causa de algum ‘duende’ da justiça, mas por tudo ser instrutivo e purificador em liberdade, que logo desaparece quando se transforma em privilégio. Nesta sociedade em que vale e se persegue a meritocracia onde teimam em nos mergulhar, ‘Se um de nós não triunfa, além de perdedor, ainda é culpado do seu próprio fracasso, acusado de pertencer ao lado equivocado da história’, nas palavras do poeta e escritor Antoni Puigverd.
Talvez por isso e se nos dermos ao trabalho de olhar para trás, na obra ‘A evolução criadora’, Henri Bergson, deixou escrito ‘A estrada que percorremos no tempo está juncada pelo detritos de que começámos a ser, de tudo o que poderíamos ter sido’, se…
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor