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Sobre reitores e caceteiros, sobre pensamento único, sobre quero posso e mando nas Universidades, alguns pequenos textos de reflexão
Coimbra, 22 de Junho de 2023
A propósito de caceteiros e de reitores (com r minúsculo), o mesmo é dizer, a propósito de pensamento único e do quero, posso e mando, ao tratar um texto muito longo sobre um célebre debate sobre macroeconomia entre Emiliano Brancaccio e Olivier Blanchard, durante anos o patrão do FMI, sou levado a uma carta aberta de um Prémio Nobel à sua ministra. Um texto exemplar de Jean Tirole pelas afirmações que faz e pelo poder subterrâneo desejado e que tem sido imposto, muito semelhante ao que foi defendido pelo reitor João Gabriel para a Universidade de Coimbra. Basta ver as trancas que este último criou para que os docentes não subirem de escalão ao longo de muitos anos.
Quatro textos que deixo para vossa leitura.
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Carta de Jean Tirole à Ministra da Tutela (original aqui)
Senhora Ministra, fiquei muito sensibilizado com a sua presença ao meu lado esta semana em Estocolmo. O apoio que a Senhora Ministra e as suas equipas deram à TSE [Toulouse School of Economics] durante mais de 2 anos contribui para o otimismo que sinto quanto ao futuro dos melhores centros de investigação económica em França e que tenho vindo a exprimir nos meios de comunicação social desde 13 de outubro.
Gostaria de manifestar a minha preocupação relativamente a um rumor insistente sobre a criação de uma nova secção do CNU [Conseil National des Universités] intitulada “Instituições, Economia, Território e Sociedade”. Se este rumor se confirmasse, seria uma catástrofe para a visibilidade e o futuro da investigação económica no nosso país.
Como sabem, sempre defendi que o nosso país adotasse as normas de avaliação da investigação em vigor no resto do mundo. Em particular, é importante para a comunidade dos professores-investigadores e dos investigadores em economia dispor de uma única norma de avaliação científica baseada numa classificação das revistas da disciplina e na avaliação externa por pares reconhecidos internacionalmente. Na minha opinião, é impensável que a França reconheça duas comunidades no seio da mesma disciplina. É essencial que a qualidade da investigação seja avaliada com base nas publicações, obrigando cada investigador a confrontar-se com o julgamento dos seus pares. É esta a base do progresso científico em todas as disciplinas.
A tentativa de se subtrair a este julgamento promove o relativismo do conhecimento, a antecâmara do obscurantismo. Os economistas autoproclamados “heterodoxos” têm a obrigação de respeitar este princípio fundamental da ciência. A criação de uma nova secção do CNU tem por objetivo subtraí-los a este rigor, a esta disciplina.
Além disso, as críticas formuladas pelos iniciadores deste projeto sobre a falta de interdisciplinaridade, de cientificidade e de utilidade social da economia moderna são infundadas (aliás, mesmo que tivessem fundamento, teria sido necessário demonstrar que uma nova secção do CNU melhoraria a situação nestes domínios!) A economia moderna está aberta às grandes questões da sociedade, como ilustram perfeitamente os trabalhos recentes de Thomas Piketty e de muitos outros economistas franceses de renome. Muitos dos melhores economistas franceses e estrangeiros estão a trabalhar nas relações entre a economia, a psicologia, a sociologia, a história, a ciência política, o direito e a geografia. A economia está a tornar-se cada vez mais interdisciplinar, como o demonstra a criação do IAST [Institute For Advanced Study] em Toulouse. Em particular, os meus colegas economistas e eu, em Paris, Toulouse, Marselha e noutros locais, trabalhamos há muito tempo sobre as instituições, os territórios e a sociedade. Estes temas estão mesmo no centro da nossa investigação. É lógico que todos nós devemos fazer parte desta nova secção.
Em segundo lugar, tal como outras grandes disciplinas científicas, a economia moderna questiona constantemente as suas hipóteses, confronta os modelos com os dados e abandona as teorias que não passam no teste da realidade. Por fim, os centros de excelência em economia que surgiram em França nas últimas três décadas formam hoje economistas muito procurados pelas entidades reguladoras, pelos organismos internacionais e pelas empresas, porque estão mais bem equipados para enfrentar os grandes desafios tecnológicos, económicos, sociais e ambientais do século XXI. Esta forte procura é a melhor demonstração do valor social da nossa disciplina. Separar a comunidade de economistas franceses, protegendo um grupo heterogéneo que tem dificuldade em cumprir as normas de avaliação reconhecidas internacionalmente, é uma resposta muito pobre à incapacidade deste grupo para validar o seu trabalho nas principais revistas científicas que prevalecem na nossa disciplina.
Se o boato fosse fundado, parecer-me-ia indispensável proceder a uma reavaliação (a comissão Hautcoeur já se tinha pronunciado contra, mas o seu parecer não foi aparentemente seguido), desta vez a nível internacional, e, portanto, totalmente incontestável. Poderíamos, por exemplo, pedir a uma amostra representativa de investigadores premiados internacionalmente (Prémios Nobel e, para os mais jovens, medalhas Clark e prémios Yjro Jahnnson – melhores economistas com menos de 40 e 45 anos, respetivamente, prémios atribuídos pelas associações americanas e europeias de economia) que se pronunciassem sobre os méritos relativos de dois textos argumentados e assinados: um a favor e outro contra a criação de uma secção deste tipo. Estou à vossa inteira disposição para discutir as modalidades possíveis de uma tal avaliação.
Queira aceitar, Senhora ministra, os maus mais respeitosos cumprimentos
Jean Tirole.
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Teoria tradicional (mainstream) e abordagens teóricas alternativas
Nota de Julio Marques Mota
Em 2019 realizou-se um grande debate sobre questões de macroeconomia, apoiado pela Fundação Feltrinelli, um debate entre Olivier Blanchard e Emiliano Brancaccio (ver aqui) e que envolveu grandes figuras do mundo universitário italiano. Vale a pena dar a conhecer (mais abaixo) a parte final da intervenção de Olivier Blanchard no que se refere a Tirole e ao pensamento único, o mundo dos caceteiros. E relembramos que Olivier Blanchard, enquanto economista-chefe do FMI. apoiou a política assassina da Troika relativamente à Grécia e à Letónia, tendo ido a Riga dar vivas à austeridade em 2012. A situação da Grécia sob a sua tutela é bem conhecida pelo que citemos apenas alguns dados da austeridade que Blanchard em Riga elogiava. Dados do Guardian relativos à Letónia, publicados em junho de 2012:
“A Letónia sofreu as piores perdas de produção do mundo durante a crise financeira mundial e a recessão de 2008-2009, sacrificando quase um quarto do seu rendimento nacional no altar da austeridade. Pior ainda, o desemprego aumentou de 5,3% para mais de 20% da força de trabalho. E se contarmos as pessoas que abandonaram a mão-de-obra ou trabalharam involuntariamente a tempo parcial, o desemprego/subemprego atingiu um pico superior a 30%.
Mas mesmo isso não mede a extensão do sofrimento que os letões sofreram. Cerca de 10 por cento da força de trabalho deixou o país, muitos para nunca mais voltarem”. Fim de citação.
Estes dois factos caracterizam, pois, a figura de Olivier Blanchard.
Fechado este parêntesis, voltemos então a Tirole. Respondendo a uma pergunta do público presente no debate entre Olivier Blanchard e Brancaccio relativamente a Tirole, respondem Brancaccio e Olivier Blanchard. Vejamos a pergunta e as suas respostas:
Pergunta:
Quinta pergunta: Em 2014, o Prémio Nobel da Economia Jean Tirole afirmou que as teorias económicas alternativas, aquelas que correspondem a tradições de pensamento crítico, são anticientíficas. Na sua opinião, essas teorias não podem ter espaço na academia porque promulgariam um relativismo do conhecimento que é a antecâmara do obscurantismo. Gostaria de saber a opinião do Professor Blanchard sobre este assunto e se considera que o estudo das teorias alternativas – a par das tradicionais, é certo – deve ser encorajado.
Resposta de Brancaccio:
“A última pergunta sobre Jean Tirole obriga-nos a refletir sobre o facto de alguns dos principais representantes da comunidade académica atual não parecerem muito dispostos a criar as condições mínimas necessárias para tornar possível uma concorrência lakatosiana [n.t. referência a Imre Lakatos] frutuosa entre paradigmas alternativos. Este é um grande obstáculo ao progresso futuro da economia, e gostaria de ouvir a opinião de Olivier sobre este assunto”.
Resposta de Olivier Blanchard:
“No que se refere às afirmações de Jean Tirole, penso que ninguém tem o monopólio do conhecimento. Se outras pessoas tiverem coisas interessantes para dizer e as disserem, então a pessoa que era um outsider pode tornar-se um insider, como aconteceu com Hyman Minsky. Aqueles que defendem pontos de vista diferentes dos da corrente dominante podem dar-nos algo de muito útil. E, por vezes, têm razão. Mas, ao mesmo tempo, continuo a acreditar que o caminho previsto pela corrente dominante é o correto. Não acho que haja realidades alternativas, acho que há apenas uma realidade que precisa de ser compreendida. Quando me perguntam o que faço, gosto de dizer que sou engenheiro. Sou um engenheiro social, é assim que vejo as coisas. A máquina que estou a tentar compreender é complexa e estou aberto a sugestões. Mas, no fim de contas, é essa a máquina e é essa a máquina que temos de compreender.” Fim de citação.
Este texto deve ser lido devagar, com muita atenção, procurando perceber o que está por detrás de cada frase, o que não é dito.
Dois economistas italianos de referência (ver aqui), ROBERTO CICCONE e ANTONELLA STIRATI, analisaram longamente o texto desse debate e quanto a esta afirmação de Blanchard dizem-nos o seguinte:
“Voltando à parte final do discurso de Blanchard já mencionado, parece-nos significativo que, imediatamente após a passagem mencionada acima, ele acrescenta:
Não creio que existam realidades alternativas, mas que há apenas uma realidade que deve ser compreendida. [….] Sou um engenheiro social.[…]. É uma máquina complexa que estou a tentar entender e estou aberto a sugestões, mas no final essa é a máquina, e são os seus mecanismos que devemos entender (Blanchard in Blanchard and Brancaccio, 2019, p. 30).
As abordagens teóricas alternativas ao mainstream teriam, portanto, razão para ser aplicadas apenas a realidades diferentes daquela em que vivemos – por outras palavras, a teoria tradicional seria a única autorizada a fornecer uma representação correta da ‘máquina’ que constitui o nosso sistema económico. Em vez disso, consideramos que esta representação sofre de limitações profundas, que se manifestam periodicamente na incapacidade de fornecer interpretações claras e consistentes dos factos da realidade económica e dos efeitos das políticas económicas. Na nossa opinião, é já tempo para que as numerosas e profundas fissuras na construção da interpretação tradicional serem consideradas no seu conjunto, conduzindo a aceitar a necessidade de uma revisão segundo linhas alternativas e rigorosas, para além dos seus fundamentos, desse sistema de análise dos fenómenos económicos e da política económica” Fim de citação
Na equivalência aos nossos reitores daqui, da Universidade de Coimbra, diremos que à brutalidade de Tirole corresponde a do atual reitor, Amílcar Falcão, o que é bem exemplificado com o caso do professor russo ou o caso da proibição da utilização de carne de vaca nas cantinas da Universidade, enquanto ao cinismo de anterior reitor João Gabriel corresponde o cinismo ultrafino de Olivier Blanchard. Todos eles defendem de forma bem assumida o neo-liberalismo puro e duro de que todos somos vítimas desde há décadas.
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Despacho da AFP [23 janeiro de 2015] : “Obscurantismo” contra “pensamento único ”, economistas franceses incomodam-se (original aqui)
Associação Francesa de Economia Política
Um Prémio Nobel que teme o “obscurantismo” confronta-se com investigadores que denunciam um “pensamento único”, num cenário de guerrilha académica: a economia em França vive uma grave crise de identidade, longe do sucesso internacional das suas vedetas.
À primeira vista, a economia à francesa vive um período de ouro, com um Prémio Nobel para Jean Tirole e um maremoto mundial para o livro de Thomas Piketty sobre a desigualdade, “O capital no século XXI”.
Estes dois investigadores, com os seus numerosos diplomas, apresentam uma imagem ideal da diversidade em economia: um defensor do mercado que representa a excelência matemática (Tirole) e um economista mais político que defende um imposto global sobre a riqueza.
Mas é inútil procurar vestígios desta harmonia nas faculdades francesas, presas de uma batalha ideológica em que Tirole pegou em armas.
– Tirole na batalha
Numa carta enviada ao Ministério da Educação após a atribuição do prémio em Estocolmo, o recente Prémio Nobel fala de uma possível “catástrofe para a visibilidade e o futuro da investigação económica no nosso país”. Na carta, cuja cópia foi obtida pela AFP, critica uma iniciativa que “promove o relativismo do conhecimento, a antecâmara do obscurantismo”.
A “catástrofe” anunciada por Tirole – que não respondeu aos pedidos da AFP – é a possível criação de uma segunda secção de economia, intitulada “Instituições, Territórios, Economia e Sociedade”, no seio do Conselho Nacional das Universidades (CNU). Em suma, um cisma académico.
O CNU, um organismo com 52 secções que representam todas as disciplinas, incluindo a secção 5 dedicada à economia, reina sobre o recrutamento e a carreira dos universitários em França.
A proposta de uma segunda secção de economia vem da Association française d’économie politique (Afep), que defende uma disciplina aberta às ciências humanas e menos matemática. Os seus representantes, qualificados de “heterodoxos”, são maioritariamente de esquerda.
Em contrapartida, a abordagem “ortodoxa” dominante centra-se nas interacções entre agentes económicos mais ou menos desencarnados, que procura modelar recorrendo às ciências duras. É frequentemente qualificada de liberal.
Na guerra entre estas correntes, a questão de uma nova secção universitária tornou-se o principal campo de batalha.
“Matámos a biodiversidade em economia”.
Os economistas heterodoxos têm medo de desaparecer de cena. A Afep afirma que, desde 2005, esta corrente representa apenas 5% dos professores universitários recrutados, ou seja, 6 pessoas. Florence Jany-Catrice, professora em Lille e vice-presidente da Afep, avisa que “o diktat do pensamento único está próximo”.
Benjamin Coriat, professor na Universidade de Paris 13 e membro do coletivo “Economistes Atterrés”, considera que “está-se a matar a diversidade biológica na economia”, ao privilegiar os “técnicos” em detrimento do que ele chama “economistas cultos “.
Uma das referências para os economistas heterodoxos é Bernard Maris, morto no ataque ao Charlie Hebdo, que afirmou: “A realidade é suja. Cheira a bairros de lata e a sofrimento. Pobreza, para o dizer sem rodeios. As equações permitem-nos tapar o nariz”.
Mas o campo oposto rejeita este rótulo de matemático obtuso. Na sua carta, Jean Tirole afirma que “as críticas (…) sobre a falta de interdisciplinaridade, de cientificidade e de utilidade social da economia moderna são infundadas” e considera que ele próprio, com os seus trabalhos em que recorre à psicologia, merece “fazer parte desta nova secção”.
Em vez de multiplicar os critérios de avaliação dos jovens economistas, considera “essencial que a qualidade da investigação seja avaliada com base nas publicações” nas principais revistas científicas, nomeadamente americanas.
– Diálogo de surdos
Para Bruno Sire, os economistas representados pela Afep não estão à altura das circunstâncias: o reitor da Universidade de Toulouse 1 considera a sua (da Afep) abordagem como “marketing de pessoas que não têm acesso às revistas internacionais” (letudiant.fr).
Os investigadores heterodoxos respondem que as publicações em causa estão fechadas para eles, porque apoiam a teoria dominante. Um perfeito diálogo de surdos.
“Se acham que somos lixo, então que nos deixem ir” para uma nova secção, disse à AFP Philippe Légé, professor conferencista da Universidade de Picardie e membro da Afep.
Jany-Catrice lamentou a “grande arrogância” dos economistas que “defendem a maior concorrência possível nos mercados (mas) recusam-se a introduzi-la na disciplina”. “Criar uma nova secção não é a melhor solução, mas é a única”, afirma.
Não, pensa Alain Ayong Le Kama, presidente da atual secção de economia do CNU e professor em Paris-Dauphine. Embora reconheça “insuficiências na gestão das carreiras e, certamente, problemas reais de pluralismo“, está convencido de que o quadro atual permite introduzir uma maior diversidade, por exemplo, se o Ministério, que nomeia um terço dos membros da famosa secção número 5 do CNU, fizer bom uso dessa prerrogativa.
Estamos a ter cada vez mais dificuldade em atrair estudantes, somos insultados socialmente, somos criticados por não sermos as “Madames Sol ” do crescimento. Será esta a altura certa para nos dividirmos publicamente?
Philippe Aghion, que ensina tanto em Harvard como em Paris, rejeita um divórcio institucional. “Não creio que seja do interesse dos próprios economistas heterodoxos fecharem-se num gueto”, declarou à AFP este economista, muito influente junto do Presidente François Hollande.
– O veto “muito claro” do Ministério
No entanto, durante algum tempo, o projeto de criação de uma nova secção universitária avançou, ganhando a simpatia, nomeadamente, do antigo ministro da Educação Benoit Hamon. E, até meados de dezembro, os economistas “heterodoxos” pensavam que tinham a partida ganha. Mas, desde então, os ventos mudaram.
A 23 de dezembro, Geneviève Fioraso, Secretária de Estado do Ensino Superior e da Investigação, escreveu a Jean-Loup Salzmann, Presidente da Conferência dos Reitores das Universidades, para tornar a sua posição “muito clara”.
“Estou certamente convencida de que a disciplina da economia necessita, mais do que nunca, de uma diversidade de abordagens e de uma fertilização multidisciplinar. Mas, por tudo isso, não creio que a divisão da secção seja a resposta correta”, afirma Fioraso na sua carta.
Interrogada pela AFP, uma porta-voz do Ministério da Educação confirmou que o projeto tinha sido suspenso por enquanto: “as ministras (Najat Vallaud-Belkacem e Geneviève Fioraso) decidiram não prosseguir com a ideia de criar uma nova secção no início de 2015″.
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Carta aberta a Jean Tirole (da AFP em 29 de Janeiro de 2015, original aqui)
Caro Senhor
A diversidade intelectual não é fonte de obscurantismo e relativismo, mas sim de inovação e de descobertas!
O despacho da AFP de quinta-feira, 23 de janeiro, (acima reproduzido) faz referência a uma carta que Tirole enviou ao Ministério da Educação. Esta carta teria contribuído para que o Ministério recuasse na sua intenção de criar uma nova secção de economia.
Consideramos útil responder a esta carta, uma vez que os seus comentários ilustram as razões pelas quais queremos abandonar a secção “economia” em favor de uma nova secção “economia e sociedade”, aberta e interdisciplinar. A este respeito, aí se menciona uma possível “catástrofe para a visibilidade e o futuro da investigação em economia no nosso país”. Escreve que este projeto “promove o relativismo do conhecimento, a antecâmara do obscurantismo”.
Na carta escreve que “as críticas […] sobre a falta de interdisciplinaridade, cientificidade e utilidade social da economia moderna são infundadas” e acrescenta que, dado o seu trabalho em psicologia, mereceria “fazer parte desta nova secção”. Não parece querer multiplicar os critérios de avaliação dos jovens economistas e considera “essencial que a qualidade da investigação seja avaliada com base nas publicações” nas principais revistas científicas, nomeadamente americanas.
Em suma, considera que só há uma maneira de fazer economia. Nesta visão monista da ciência, a diversidade de pontos de vista favoreceria o relativismo e ameaçaria a excelência.
Não, Professor Tirole, a diversidade intelectual não é uma fonte de obscurantismo ou de relativismo, é uma fonte de inovação e de descobertas. A ciência progride primeiro pelas suas margens, por minorias ousadas cujos méritos só são frequentemente reconhecidos muito mais tarde: Gauss tinha tanto medo de apresentar as premissas da sua geometria não-euclidiana que esperou décadas para as tornar públicas. Riemann e Helmholtz foram insultados por Dühring, vencedor de prestigiados prémios atribuídos por maiorias influentes, vinte anos após os escritos fundamentais de Riemann sobre geometria diferencial. A geometria dos sistemas não lineares de Poincaré foi largamente ignorada durante cerca de sessenta anos, até que as teorias deterministas do caos a trouxeram de novo à ribalta [1]. Não se trata apenas de uma questão científica, mas também de uma questão democrática fundamental: porque a democracia, incluindo na universidade, baseia-se na regra da maioria, mas também em instituições pluralistas que garantem que as vozes minoritárias se possam exprimir, explorar novas vias, alimentar o debate e convencer.
Na atual secção “economia”, estas instituições pluralistas já não existem. É claro que nos explicarão que a economia dominante, tal como se desenvolve atualmente, não é monolítica: e aqui terão razão, é certamente composta por várias espécies que variam em aparência, habitat e pedigree. Mas é um pouco como se a biodiversidade dos mamíferos se reduzisse à imponente família dos felinos, provocando a extinção de outras espécies de mamíferos económicos pelo facto de as suas vozes e presas serem menos potentes. Esta biodiversidade é demasiado pobre para a vitalidade do ecossistema.
Todos nós, cientistas, temos uma forte necessidade de sermos avaliados, mas a própria natureza das avaliações não deve conduzir a uma normalização endogâmica da ciência. Com efeito, os trabalhos mais inovadores chocam com as rotinas actuais e têm muitas vezes dificuldade em entrar nas revistas mais consagradas. Ao uniformizarmos a avaliação, ao forçarmos uma identidade de objetivos, de métricas e, portanto, de conteúdos, estamos a matar as variações e as inovações que marcam os percursos evolutivos da produção do conhecimento científico. Estamos a dificultar artificialmente a necessária hibridação com outras disciplinas que procedem segundo outros modelos.
Enquanto membros da AFEP, publicamos em revistas internacionais (incluindo no sentido restrito das revistas americanas). Mas estas revistas, por publicarem outras formas de praticar a economia, são relegadas para as margens dos rankings económicos atuais. Nem sempre foi assim.
Houve um tempo em que a American Economic Review ou o Quarterly Journal of Economics recebiam autores de um vasto leque de origens. Esses tempos já lá vão. Estudos bibliométricos sobre o funcionamento da disciplina económica revelam como funcionam as principais revistas económicas e mostram que o debate se extinguiu no seu seio [2]. Em contraste com as revistas internacionais equivalentes de outras ciências sociais, estas revistas publicam uma proporção considerável de autores da universidade a que pertencem e caracterizam-se pelo baixo número de citações de trabalhos de outras ciências sociais. Sob a capa da excelência, estamos na presença de redes estreitas e fechadas de auto-citações. A economia mainstream é tão egocêntrica que não cita outras correntes. Em contrapartida, as correntes plurais da economia política citam trabalhos de outras ciências sociais e abordagens teóricas diferentes das suas, incluindo a sua, Professor Tirole.
Como as revistas são classificadas de acordo com o número de citações e como as minorias são menos numerosas do que os grupos dominantes, as revistas sectárias são automaticamente mais citadas do que as revistas pluralistas. Não confundamos sectarismo com qualidade.
Convencidos da sua superioridade, os economistas dominantes competem com arrogância. Muitas vezes, aquilo a que chamam interdisciplinaridade não é mais do que imperialismo em relação a outras disciplinas: replicam vezes sem conta fórmulas ultrapassadas em domínios estudados por outras ciências sociais, aplicando o seu modelo habitual a qualquer assunto e mostrando pouco interesse pelo que as outras disciplinas têm para dizer. Esta extensão de um armazém intelectual permite certamente publicações estandardizadas à escala industrial, mas será que corresponde a um verdadeiro intercâmbio inovador? Pela nossa parte, queremos praticar uma interdisciplinaridade generosa, baseada na reciprocidade e no (re)conhecimento mútuo. Este tipo de interdisciplinaridade é exigente, requerendo longos esforços para assimilar o pensamento e os métodos uns dos outros, mas é rico em inovações.
Evitemos uma normalização do pensamento económico, impondo critérios estreitos numa escala uniforme, impedindo qualquer variação em relação à norma. Porque sem diversidade, a democracia e a ciência definham. Então, onde estão as análises que anteciparam os mecanismos da crise financeira de 2007-2008 nos anos que a antecederam? Não estão nas revistas de “excelência”, mas em livros e revistas minoritárias, e até em blogues. Foram escritos por economistas minoritários ou investigadores de outras disciplinas! Onde estão o iluminismo e o obscurantismo?
A disciplina da economia está atualmente presa a uma trajetória que não é a ideal. Temos de abrir novas perspetivas e oferecer aos nossos colegas e aos nossos estudantes o menu variado que tanto desejam [3]. A nova secção abrirá um modesto, mas exigente espaço de liberdade experimental. Não retirará nada às correntes dominantes, se não mesmo o seu monopólio sobre a disciplina. É tempo de dar um novo fôlego ao mundo dos economistas: experimentemos e inovemos!
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[1] Longo G. (2014), “Science, Problem Solving and Bibliometrics”, Palestra a convite, Conferência da Academia Europaea sobre “Use and Abuse of Bibliometrics”, Estocolmo, maio de 2013. Actas, Wim Blockmans et al. (eds), Portland Press, 2014.
[2] Cf. principalmente Fourcade M., Ollier E., Algan Y. (2014), “The Superiority of Economists”, MaxPo Discussion Paper 14/3, Max Planck Sciences Po Center on Coping with Instability in Market Societies, Nov. 2014, http://www.maxpo.eu/pub/maxpo_dp/maxpodp14-3.pdf; Francis J. (2014), “The Rise and Fall of Debate in Economics. New data illustrate the extent to which economists have stopped discussing each other’s work”, Joe Francis’ Blog, Aug. 29, http://www.joefrancis.info/economics-debate/, et Lee F. S. (2007), “The Research Assessment Exercise, the state and the dominance of mainstream economics in British universities”, Cambridge Journal of Economics, 31, 309–325.
[3] ISIPE (2014), “Para uma economia pluralista : o apelo mundial dos estudantes”, Le Monde, 5 mai 2014, disponível em: http://www.lemonde.fr/economie/article/2014/05/05/pour-une-economie-pluraliste-l-appel-mondial-desetudiants_4411530_3234.html

