ADÃO CRUZ – MAIS UM POUCO DE MÁ LÍNGUA

 

Na ausência de formação artística específica, e não sendo eu nenhum ideólogo da Arte, aproveitei um dia em que ela parecia bem-humorada para lhe pedir, ao menos, que me fizesse sentir a diferença entre a Arte Moderna e a de hoje, os períodos que mais respeito me dizem. Aparentemente solícita – algum santo estava para cair do altar! -, ela disse-me que nem um nem outro dos conceitos é meramente temporal. Ambos implicam uma estrutura histórica relativamente complexa. Moderno, mais do que recente, significa um estilo, nem sempre consciencializado na época. Aparecendo nos fins do século XIX e vivendo até meados do século vinte, rejeitava o academismo, preconizava a informalidade, a liberdade de expressão, o abandono de expressões realistas, a arbitrariedade das cores, irreverência etc. A Arte Contemporânea, propondo que tudo pudesse ser usado como espaço para a expressão e que a escolha das materialidades artísticas promovesse a reflexão, foi-se distinguindo por uma determinada estrutura de produção nunca antes vista. Claro que não fiquei completamente satisfeito com a resposta. Pouco ou nada acrescentou ao que eu já sabia. O que eu esperava era uma luz que fizesse romper a aparência e me transportasse para a essência da verdade. Mas ela, exposta por tudo quanto é lado, ou não quer nada comigo ou tem a mania que é superior e intocável. Apesar de malvada, não é tola, e sabe bem que eu queria era localizar-me. E também sabe que a verdade só põe a cabeça de fora ao fim de décadas de silêncio. Por isso, no meu caso, adiantei-me, respondendo a mim mesmo. Sempre procurei uma pintura silenciosa, sussurrante, intemporal, uma espécie de diálogo comigo mesmo, a meia voz, um diálogo de olhares, silêncios e reflexões. Ao mesmo tempo uma pintura sem regras, sem academismos, que os não tenho, uma pintura gestual, um tanto rude, áspera, a que eu chamo, sem qualquer ponta de presunção, uma espécie de expressionismo ficcionista do sentimento.

Já que ninguém nos ouve, deixem-me dizer-vos o que se segue e que eu gostaria que fosse ela a dizer. A forte ligação das estruturas do pensamento à consciência começa a permitir compreender o que somos, quem somos e o que são a Arte e o Mundo, vistos através das janelas das Neurociências. A pintura deixou de representar a aparência das coisas para tentar a resposta à constante interrogação de como é possível pintar a essência da Arte. Isto não significa que a pintura tenha de tornar-se obrigatoriamente abstracta, mas significa que os gestos deverão ser tanto mais secundários quanto mais difícil se torna conceber a Arte no longo caminho da sua concepção filosófica. À medida que a consciência imaginativa se vai implantando, o artista procura libertar-se de uma pesada carga histórica, a fim de tentar as possibilidades artísticas em qualquer sentido, sob qualquer propósito ou sem propósito nenhum. Mesmo que seja impossível uma arte pura, existe uma tendência para a purificação da arte, purificação que nunca poderá dispensar, pelo menos no meu modesto entendimento, a força anímica da realidade vivida, a inteligibilidade da natureza, dos meios, das cores, das formas e da harmonia. Sabemos que, para uma boa parte das pessoas, a postura diante de uma obra de arte não é diferente da atitude emocional que adopta no resto da vida, perante amores, ódios e paixões. A alegria ou sofrimento com os destinos humanos representados na obra por figuras e actos, a identificação com os retratos da vida, a mera receptividade sensorial, pouco têm a ver com o prazer e a sensibilidade artística, sendo certamente incompatíveis com a verdadeira fruição estética. Esta Arte do Depois do fim da Arte, uma Arte pós-histórica, pode não ser mais igual a nada nem igual a si mesma, pode nascer e desprender-se, naturalmente, de uma certa estética antiquada, mas tem de ser uma verdade inteligível. Daí, ela poder ser tantas vezes impopular, na medida em que a maioria das pessoas pode não a entender, por razões sócioculturais. No entanto, sendo séria, longe da liberdade fraudulenta, a Arte torna-se intelecção e o prazer estético passa a ser um prazer inteligente. Os três aspectos da Inteligência do Êxito, de Sternberg, estão intimamente ligados. Assim, não é possível separar a inteligência analítica da inteligência criativa e da inteligência prática, nem sempre presentes na obra e no artista, mas podendo existir em muitos dos olhos de quem a contempla.

 

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