Quando se noticia e confirma o desaparecimento de tantos pássaros, eis que aparece, a poisar numa árvore pequena do lado de lá do muro, um passaroco tingido de azul, que nunca tinha visto por aqui e até nem via há umas dezenas de anos, desde os dias em que corria carvalhais, urzes e giestas, à procura deles e de outros que, com a idade a condizer, eram também motivo de brincadeiras.
E diziam os mais velhos, os que se sentavam nos muros entre as casas, ou jogavam à malha para passar o tempo, que ver um gaio era sinal de boa sorte, por ele ser um mensageiro do céu, pois o azul era um anúncio de satisfação e nova energia para as tarefas que se iriam começar e, ‘Estuda rapaz que, se o vires mais vezes, podes vir a ser alguém!’
E mais contavam como eles enchiam papo e bochechas com bolotas e nozes, depois fugiam para um lugar onde estivessem à vontade para as deitar fora, e logo as tornar a comer descansados, esconder as que sobravam para comerem no inverno, até voltar a época delas outra vez. E lá íamos a correr para o meio dos carvalhos, grandes ou pequenos, à cata de bolotas para lhas deixarmos numa laje escondida, onde eles pudessem ir sem problemas.
Lembrei tudo isto por a maioria já nem sequer ter ideia do que será um gaio, do que ele poderia representar para a gente que com ele vivia a diário, no princípio de um processo simbólico, com novos significados para poder integrar comportamentos institucionais ou vivenciais dispares e distintos, na crença simples de um futuro menos pesado.
Processo que não passava de ser só uma incorporação simbólica, talvez mágica, por em vez de um deus se integrar um pássaro, absorvendo-lhe a imagem, crendo na sua presença, mesmo simbólica; se corrermos as lendas e tradições tanto deste país como de outros por todo o mundo, encontraremos estes dispositivos mágicos com frequência, quando vemos beber ou comer uma coisa qualquer num ritual diferente, uma arcaica e alegórica manifestação para a possuir também.
Aliás, no dia primeiro de Julho, li num grande diário europeu, a entrevista a um antigo fotógrafo de imprensa, mostrando tal situação; tinha muitas fotos de uma pessoa já abalada e, à medida que as ia achando nos arquivos, logo as mandava para a família. Um dia a irmã dessa pessoa, pediu para não mandar mais, pois iam desaparecendo da caixa onde as guardavam; a mãe, à socapa, cortava-as e comia os pedacitos, um modo de ter, simbolicamente, o filho com ela.
Por outro lado, também se poderá ver como, apesar do crescimento e da evolução, o trabalho, o lazer, a natureza, a cultura, outrora dispersos nas nossas cidades –também anárquicas mesmo continuando arcaicas– estão agora misturados, amassados, climatizados e homogeneizados nos templos onde ‘O miraculado do consumo serve todo um dispositivo de objectos simulacros e de sinais característicos de felicidade, esperando que ela venha ali poisar’, afirmou um dia o filósofo e sociólogo francês Jean Baudrillard em ‘A sociedade do consumo’.
E por andar um gaio aqui, na minha rua, voltei atrás no tempo e até me ajudou a compreender como para entender, aceitar e respeitar alguma coisa –mesmo sendo ele um “dispositivo mágico” incomum– será conveniente conhecer tudo o que referencia algo ou alguém, ligado simbolicamente a tal dispositivo, pois todos as nossas infâncias não passam das nossas próprias divagações, para nos protegermos de alguma coisa, se calhar só uma outra ficção em volta daquilo de que nos queremos proteger.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor