DIOGO MARTINS – DIÁLOGOS DO DEMO NUMA REPÚBLICA DOENTE

Uma pessoa argumenta que um Estado laico, na sua missão de equidistância e neutralidade perante a vida espiritual, não deve acolher e investir num evento religioso como se de um evento de Estado se tratasse. Viola, evidentemente, a neutralidade do Estado perante a religião, deixando-se impregnar pelas agendas desta última, além de que qualquer hipótese de igual tratamento se torna impossível: nunca o Estado português se mobilizaria de igual modo para outra religião.

Como resposta a isto, ouve-se com frequência “que cerca de 85% dos portugueses se assumem como católicos, o evento tem grande retorno económico e as pessoas estão geralmente muito felizes com a vinda do Papa”.

Em face destes argumentos, eu perco a paciência. Porque tenho de explicar que a laicidade não é contingente em maiorias nem em putativos retornos económicos de vulto (bastante discutíveis, já agora).

Numa República, e tendo a maioria destas pessoas pelo menos o ensino primário, é como ter de explicar que 2+2=4 e que os contra-argumentos deles não têm nada que ver com o argumento inicial.

O que evidencia é que convivem bem com a violação ostensiva da laicidade do Estado. Ou são só ignorantes e acham mesmo que a defesa de um evento com estes contornos e a inviolabilidade do Estado laico são possíveis.

Durante uns anos, eu fui pela pedagogia. Mas há limites: só se ensina a quem quer aprender. E, nestes argumentos, ou há simplesmente má-fé ou uma incapacidade preocupante de assimilar conceitos básicos.

Claro que a real resposta a isto, na maioria dos casos, é que estão muito felizes com a violação da laicidade do Estado. Sempre estiveram. Este é o país onde o padre é convidado para todos os eventos, onde se abençoam inaugurações com água benta e onde a maioria dos cuidados a idosos e à infância está sob a alçada de instituições religiosas diretamente financiadas pela segurança social.

E onde, de caminho, se acha muito normal batizar crianças fora da idade de consentimento. Como se pertencer ou não a uma comunidade religiosa fosse uma decisão que os pais podem impor aos filhos.

Em nada disto a esquerda é isenta de culpas. Com pânico de hostilizar a sua base social de apoio, socialistas e comunistas têm um histórico de contemporização com todas estas práticas, com a noção tácita de que o sacrifício da laicidade da República é um preço estrategicamente baixo a pagar. Talvez venham a descobrir que anos de omissão e conivência tácita os deixam particularmente permeáveis a um povo pouco habituado a prezar valores republicanos e por isso vulnerável a cantos de sereia de quem os pretende destruir.

Nada disto é normal. E tudo isto ser tido como normal é o sintoma de uma República agonizante, demasiado permeável à crendice e ao fascismo. Sendo claro que o último não hesitará em sustentar-se na primeira, como sempre o fez, como forma de ascensão.

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1 Comment

  1. Os partidos responsáveis não querem provocar conflitos institucionais com as organizações religiosas e seus seguidores. Nem o PR que jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição da República o faz. Pois isso acabaria por redundaria em seu seu benefício se tivermos em conta os avantajados meios de comunicação a que têm acesso para chegar às pessoas. É por isso, e muito bem, que deixam essa tarefa ao cuidado dos Cidadãos e da Sociedade. E eu travo esse combate contra o proselitismo da ICAR e a cumplicidade das Instituições do Estado português com muito gosto, não abdicando desse dever e não transferindo essa responsabilidade para outros.

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