A pergunta não é nada retórica. Há muitos especialistas em liderança, psicologia ou mesmo ciência política que o abordaram nestes termos ou em termos semelhantes. É claro que a resposta dependerá, em grande medida, do que entendemos por “idiota perfeito” e até que ponto consideramos que os narcisistas, incluindo os narcisistas matizados ou “humildes”, se enquadram na definição.
A pergunta do título do jornal El País caiu-me na sopa das reportagens e das capas de jornais em que a trepidante visita de Marcelo Rebelo de Sousa à Ucrânia surge como um fait divers entre a saga de Trump com os tribunais e prisões dos EUA, as opiniões no vácuo de várias eminências de sucesso nos meios de manipulação sobre a morte do chefe do grupo militar Wagner, a disputa entre Elon Musk e Zuckerberg, agora X e Meta, o embuste da substituição dos carros de motor a combustão por baterias elétricos para melhorar o ambiente, o despacho feito pelos governos europeus de aviões F-16, os mais modernos dos aviões obsoletos, para dar lugar à compra dos F-35, o mais caro dos obsoletos (nasceu assim) modernos, a título de apoio a Zelenski, a decisão da senhora Lagarde do BCE de subir as taxas de juro para resolver a crise da habitação, ou do chanceler alemão trocar o barato gás russo pelo caro americano e estranhar a estagnação da indústria alemã, até às pequenas coisas, as novelas do treinador do Benfica com um guarda-redes e de um administrador do Atlético de Madrid, uma empresa do ramo futebolístico, com o mais caro dos seus produtos, para não referir o beijo do chefe da Federação Espanhola de futebol a uma futebolista.
São decisões e atitudes de pessoas de sucesso, presidentes de Estados, de bancos, de grandes empresas mundiais. Como alcançaram este estatuto?
Moisés Ruiz, professor da Universidade Europeia e autor de vários livros sobre gestão e liderança, afirma: “há idiotas que têm sucesso, sem dúvida, e muitos deles enquadram-se na patologia que Sigmund Freud já definiu como narcisismo ”.
“O exemplo mais paradigmático me parece ser Elon Musk, que graças ao seu carisma, intuição e motivação, conseguiu ter sucesso com iniciativas como Tesla, mas agora está falhando miseravelmente no X/Twitter, porque seus sucessos iniciais acabaram aumentando sua egomania e o fizeram perder de vista o mundo”.
A “estranha década” que vivemos, com acontecimentos tão desconcertantes e perturbadores como a crise do coronavírus, fez-nos compreender que “não podemos colocar-nos nas mãos de falsos profetas, como Donald Trump, que vivem imersos na sua própria história e que criam as suas próprias fantasias.”
Embora o narcisismo seja um dos traços de personalidade que, juntamente com a psicopatia e o maquiavelismo, faz parte da chamada tríade negra, quem o possui, na opinião de Konstantinos Papageorgiou, professor associado da Universidade de Belfast, “tendem a ser socialmente bem sucedidos, porque não são desencorajados pela rejeição e a sua necessidade de atenção pode torná-los encantadores e altamente motivados. Um narcisista sente-se “melhor” que os mortais comuns e considera que deveria ser “recompensado” por isso. “Se dispensarmos as considerações morais e nos concentrarmos apenas no sucesso”, o narcisismo é uma qualidade muito eficaz no sucesso pessoal.”
Steve Fishman, jornalista da The New York Mag, inclui na categoria de “idiotas” um espectro muito amplo de egomaníacos, vaidosos, individualistas, presunçosos e petulantes. Admite que tais indivíduos dominam posições de responsabilidade e liderança em sociedades democráticas de mercado livre, dominada por reality shows, redes sociais, política ou certos tipos de empresas. Em certo sentido, descrever os autopromotores incansáveis como idiotas completos já é, para Fishman, um ato de resistência contra o narcisismo ambiental.
É o que aqui faço, deixando o link para o artigo. O artigo é ilustrado com as fotos de Elon Musk e de Trump, mas não faltam opções.