EVA CRUZ – DE VELHO SE TORNA A MENINO

 

Há muito que não nos juntávamos, para nossa grande tristeza. Noutros tempos, os nossos encontros eram mensais, e dos onze amigos de outrora somos hoje apenas seis. Apesar de o jantar ser muitas vezes em sítios diferentes, habitualmente os encontros davam-se no restaurante Sétima Arte. Por isso, demos ao grupo o nome de Sétima Arte, nome que até lhe assentava bem, já que a arte, de uma forma ou de outra, também andava por ali. Hoje, somos todos velhos, cabendo-me a sorte de ser a mais nova. Nesses passados tempos, não era propriamente o jantar o acontecimento mais importante, mas o serão que se prolongava pela noite dentro, num saudável convívio de anedotas, de análises filosóficas, políticas, sociais e literárias. Além disso, havia sempre alguém que levava um texto, uma crónica, um poema …E um dos mestres nas anedotas e curiosidades linguísticas não precisa de ser apresentado. Toda a gente sabe quem é. E é ele quem está, de facto, na origem do nosso encontro de hoje. Assim fluía o tempo dessas noites, numa fruição de sabores para o corpo e para a mente. Tempo que o tempo levou, deixando memórias e recordações doces e amargas, como acontece em tudo o que é passado.

Hoje, almoçámos os seis no Meia-Lua. Há muito que o nosso convidado, de noventa anos, o tal mestre que não necessita de nome, suspirava por este encontro, emocionando-se logo aos primeiros abraços. Da sua mochila saíram de imediato duas garrafas de vinho, mais refresco do que vinho, dada a sua baixa graduação, e que foi apreciado sobretudo pelas senhoras. Para surpresa nossa, saíram também da mochila dois pequeninos presentes, embrulhados num papel vermelho lustroso, uma faquinha de serra para o meu irmão e uma tabuinha de madeira para mim. A faquinha seria para o meu irmão cortar o que quisesse e a tabuinha faria de régua para os meus risquinhos saírem direitos. Para suavizar a emoção, esperavam-nos umas ricas entradas de bolinhos de bacalhau e sardinhas pequeninas, antecedendo um saboroso cozido à portuguesa, já nosso conhecido. Foi muito grato sentir que este precioso encontro, mais do que o cozido, soube reacender em todos nós o sabor de outrora.

A tabuinha, que não me saía da cabeça, teve o condão de me levar, nas minhas asas de criança, com o bibe de popelina engomada, até aos meus tempos de menina da escola, em que eu trocava uma pratinha por um santinho e…tinha de fazer os risquinhos direitos.

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