CARLOS REIS, BOM DIA! – CHEROKEE

Hoje o texto é mais longo – podem mesmo apagar, desde já – mas trata-se de uma resolução já antes tentada e que pressupõe acabar de vez com estas larachas diárias da minha parte, de que já me sinto escravo e que não interessam a ninguém.

 Intróito

Compreendi, tardiamente, que a compreensão e o gosto pelo Jazz (salvo pequenas, ínfimas excepções) tem limites. Limites de ouvido (o básico) de cultura, de maus hábitos e maus costumes, de vícios e preconceitos, de vidas e opções.

Mas não são apenas os do ouvido os mais importantes: os limites da idade são terríveis. Ou se começa numa ainda relativa tenra idade – por um acaso, pela rádio, por “culpa” dos pais ou de amigos, mais velhos ou não, etc., – ou então a partir de “uma certa idade” já não há muito a fazer…

(Parece, aliás, estar provado que crianças que nascem e crescem a ouvir as pimbalhadas de lá, da sua terra natal e que os pais entoam todos os dias – estarão perdidas para a Música logo a partir dos 7 ou 8 anos de idade. São casos extremos, mas razoavelmente numerosos – de ignorância e ausência de qualquer cultura).

Das ínfimas excepções e de alguma recuperação, fazem parte, como constatei, pessoas de outras músicas, mas com gosto e exigência, ouvido e cultura. Uma amiga de “certa idade”, por exemplo, que cantava no Coro da Gulbenkian (o que não é para todos, como é evidente) aderiu com toda a naturalidade e vontade, logo à primeira vez que a pus a ouvir o Chet Baker.

Ficou mesmo total e absolutamente convertida. Alguns outros e outras gostam ou apreendem a gostar. E até agradecem.

No creo en milagres, pero que los hay, los hay.

São é poucos, infelizmente.

Tudo isto, toda esta conversa, ocorreu-me ao tropeçar de novo no vídeo que se segue (uma repetição) pois a primeira vez que ouvi o “Cherokee” – fazia parte de um velho LP que um tio meu tinha em casa (sabe-se lá porquê) e que ele nunca ouvia – era eu teenager e os meus ídolos eram o Pat Boone, os Everly Brothers, o Tennesse Ernie Ford…

Concluo então que quem não conhece o tema em questão, jamais (jamais) poderá entender o que estes Músicos executam. Pode gostar, ou sentir que gosta deste ou daquele, mas não tem a necessária bagagem dos muitos anos a virar frangos, de quem passou parte da vida a privar ou a discutir com eles. Pode reconhecer alguns standards, mas segui-los, mas compreendê-los na sua plenitude está quase sempre fora de questão.

Por uma questão de humildade e honestidade devo declarar que não consegui seguir e compreender o tema, às primeiras notas do Wynton Marsalis, dada a complexidade do seu sopro. Nada como ter voltado a ver e ouvir a gravação, para afinal ajuizar da magnificência de tudo aquilo, uma das mais bem preenchidas sessões de Jazz de muitas vidas. Mas isso é paciência que só os católicos praticantes possuem. E de que nada irá (iria) servir aos infiéis. Nem mesmo a cristãos novos.

Todo este modo de tocar e estar na Música pressupõe, quanto a mim e para além de todas as potencialidades musicais de cada um, uma inteligência e uma capacidade inventiva súbita e acima da média.

Portanto.

Desligar-me-ei de quem nunca nem uma palavra (aplauso ou pateada, não interessa) alguma vez apeteceu tecer – por não ouvir, por não lhe interessar, por alguma deseducação – e ficarei apenas com os estritos necessários leitores e ouvintes.

Carlos

(Aqui vai o “bis” – uma coisa impossível no Jazz, mas possível com a tecnologia)

Obrigado a Jazz In Marciac e ao youtube

Wynton Marsalis – trompette

Walter Blanding Jr – tenor

Dan Nimmer – piano

Carlos Henriquez – contrebasse

Francesco Ciniglio – batterie

Véronica Swift – voix

 

Lembram-se do Sean Jones no “Cherokee” (até parece que foi ontem – e foi mesmo) e de toda aquela absoluta potencialidade solarenga e orquestral do Jones e da orquestra, repectivamente?

Pois nas minhas expedições ao infinito, acabei por endoidecer com (mais) esta descoberta.

Não, não me refiro apenas ao Wynton Marsalis e ao seu maravilhoso quinteto, aliás já plenamente conhecido de todos vós, experts e bons e atentos alunos, em épocas de divulgação anteriores…

E o que é magnífico neste vídeo?

É tudo:

É começar por ouvir o Marsalis só, seguido da entrada da secção de ritmo, a seguir a uma espécie de pequena “pausa” com ele de novo solitário e a reentrada fulgurante do ritmo, com o olhar de aprovação do sax, entretanto silencioso, mas atento, bem como o mesmo olhar do baixo, esse absolutamente em funções.

É quando o Wynton Marsalis acaba o seu chorus, o sax se prepara para iniciar o seu e descobre que o Marsalis “insiste” em mais uma volta. Absolutamente tremenda, sobretudo na segunda parte do tema, o que se pode constatar, observando o competente baixo ali ao lado, encantado e emocionado.

É a entrada do sax, aparentemente (aparentemente) simples e o espantoso desenvolvimento subsequente, completamente ensandecido mesmo, onde até trauteia pelo meio o “Tea for two” (não sei se notaram? Notaram com certeza) continuando como se nada fosse e a trocar olhares de inteligência expectante com o trompetista

E é nessa altura – já todos tínhamos reparado numa rapariga sorridente que por ali estava sem fazer nada, uma espécie de decoração insólita, enfim – e é nessa altura que caio para o lado, quando ela afinal desata a cantar perante pausas e toques secos e perfeitos dos sopros e quando mais tarde entra num scat do melhor que tenho ouvisto, uma coisa inaudita, dificultando-me mesmo a recuperação da queda.

Ó Paulo Gil, isto tem realmente a ver contigo! Espero que abras o computador e me digas de imediato o que sentiste.

É tudo, meus filhos. Há ainda um solo arrebatador e surpreendente do pianista, que parece um menino e um último e arrebatador solo do Marsalis, perante ao aplauso mudo dos outros e há que referir a competência do baterista, mesmo sem voos nem solos.

Espero que este tema (uma obsessão minha – ouvi-o em jovem e ficou-me para sempre) tenha sido natural e devidamente trauteado por todos vós, durante os solos, incluindo o dela –  único modo de apreciar tudo isto em toda a sua dimensão.

Desculpem a longa retórica e obrigado por me lerem até aqui.

Vejam e ouçam, que vale a pena.

Carlos

11 de Junho 2022

 

The Art of Van Damme (o início de tudo).

https://www.youtube.com/watch?v=WRQUnm3IBLE

Obrigado a Art Van Damme – Tópico e ao youtube

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