DIOGO MARTINS – NÃO É SÓ AMÁLIA E CRISTIANO RONALDO

 

Persiste a injusta perceção de que a projeção internacional de Portugal está confinada a um conjunto muito restrito de figuras e áreas. Por outras palavras, para a maioria do mundo, Portugal é fado e futebol; ou, se quisermos flirtar com figuras de estilo situadas entre a personificação e a metáfora, Portugal é pouco mais do que Amália e Cristiano Ronaldo. Venho, por isso, contar-vos um pequeno episódio que pode ajudar a desmistificar esta visão pessimista sobre o conhecimento internacional da nossa gloriosa pátria. .

Há uns dias, recebemos aqui no departamento aquele que será dos economistas com maior proeminência internacional sobre o estudo das desigualdades. O livro trata da análise comparada do pensamento sobre desigualdade de diferentes economistas ao longo da história do pensamento económico.

Depois da apresentação, decorreu uma daquelas recepções, onde se trocam argumentos num registo mais informal, enquanto se vão tragando uns acepipes. São momentos que, sempre pensei, proporcionariam grandes sketches de humor, se vistos de fora. Pode extrair-se grande comicidade de pessoas a esgrimir argumentos com alguma sofisticação junto de pessoas que admiram enquanto vão ingerindo uns amendoins com uma mão e equilibrando uma bebida na outra.

Mas adiante: num desses momentos, procurei dizer alguma coisa remotamente inteligente (às vezes até consigo, sobretudo quando não estou a dizer parvoíces no Facebook) sobre a apresentação que acabava de ser feita. Comentei que um dos aspetos que mais intriga no momento presente é a unidade entre o capital rentista e o capital produtivo, quando parece ser óbvio que a elevação astronómica dos preços da habitação aumenta a rendibilidade do primeiro, não apenas à custa dos salários, mas também à custa da rendibilidade do segundo. Prossegui (porque estava mesmo a querer parecer um rapaz inteligente) acrescentando que isso contrasta com o que se observou na Inglaterra do início do séc. XIX, onde o pensamento de David Ricardo sobre as Corn Laws representa exatamente o conflito entre os interesses do capital rentista e industrial inglês. Perante o assentimento do meu interlocutor, prossegui para dar o caso de países onde isto tem sido mais expressivo, como no caso português. Referi como era paradoxal que isto não fosse reconhecido como um problema e o governo português concedesse inclusive benefícios fiscais aos influxos de capital estrangeiro para habitação, agravando o problema.

Assim que referi Portugal, o meu interlocutor comentou de imediato: “Ah, conheço muito bem o caso. Muitos dos meus ex-colegas do Banco Mundial compraram lá casa e foram para lá viver durante a reforma para pagarem menos impostos. E também por causa do sol, claro”. Em tom de gozo, ainda referi: “E é o Partido Socialista que está no poder. Imagine se fosse a direita…”. Rimos muito os dois (para quê chorar, não é?) e demos conta de mais uns amendoins.

Moral da história: alegrai-vos, gentes. Portugal não é só conhecido por ser o país da Amália e do Cristiano Ronaldo. Também é internacionalmente reconhecido por ser um paraíso fiscal para reformados com lugares cimeiros em instituições internacionais, que, no final das suas carreiras, querem apanhar sol e pagar poucos impostos.

Uma honra.


Para ler este texto de Diogo Martins no original clique em:

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