Introdução Quinta – Entre o início da série e a oportunidade de um texto de Ben Fine
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Coimbra, 3 de Dezembro de 2023
Venho com o presente texto informar que se inicia amanhã a publicação dos textos da série temática Teoria e Política Económica: os grandes confrontos (debates) de ontem, hoje e de amanhã. Uma homenagem ao Joaquim Feio, iniciada agora, quando a FEUC encerra as festividades dos seus cinquenta anos de vida. A Faculdade iniciou as festividades dos seus 50 anos de vida em 2022, e neste mesmo ano eu comemorei os 50 anos da invasão do ISEG pela polícia de choque, numa crónica que me foi solicitada pela Comissão Organizadora dessas festividades, como um dos rastos da minha passagem pelo ISEG. Este artigo, autobiográfico, tem como ponto central de reflexão a entrada brutal da polícia de choque no ISEG, 16 de maio de 1972, foi inicialmente colocado no portal do ISEG, e agora passado a livro. Um registo dos tempos de estudante. Isto na mesma semana em que a FEUC encerra as comemorações dos 50 anos de vida enquanto eu concluo as comemorações do meu início de carreira em 1973 como docente em 28 de dezembro, data de aniversário do Joaquim Feio,
Trata-se de uma série construída como homenagem ao Joaquim Feio, meu antigo aluno, meu colega de Faculdade, mas não só, porque o encaro sobretudo como meu colega de equipa de trabalho e mais ainda, como um grande amigo, como um professor de exceção como poucos que conheci nestes tempos de neoliberalismo. Esta série, feita como reflexo do trabalho conjunto de décadas, funciona também como comemoração do meu início de carreira docente, iniciada em 1973. Uma carreira que se pautou sempre por um ensino da economia em profundidade, mainstream ou não, mas nunca abdicando de um sentimento crítico sobre as matérias que do mainstream se ensinava, sentido crítico esse assente primeiro que tudo na contextualização do que era ensinado.
Diria hoje que tenho cinquenta anos de economista heterodoxo pluralista, uma vez que este termo não era utilizado na época para caracterizar os economistas out the box. Poderei ir até mais longe: terei sido heterodoxo desde os meus tempos de estudante como, por exemplo, na disciplina do Alfredo de Sousa, onde, segundo as palavras do referido professor ditas a Miguel Beleza, eu [e o meu grupo] terei sido o aluno a quem ele em TPDE deu nota mais elevada de que a que foi dada ao próprio Miguel Beleza, o que levou este a olhar para mim como tendo eu vindo de outro planeta, como na disciplina de Planeamento (4º ano) onde a professora nos pede emprestada a bibliografia de que nos servimos, em Internacional e Integração, onde fui convidado para assistente. Visível ainda quando em 74 e 75 coloquei disponíveis para os estudantes vários autores, hoje heterodoxos, como Parrinello, Stedman, Metcalfe, Arrigiri Emmanuel, Nobuo Okisio e Claudio Napoleoni, visível depois ao longo da minha longa carreira docente. Tudo isto é igualmente transparente na série editada como homenagem ao Joaquim Feio, abaixo descrita.
Esta série é constituída por seis capítulos, a saber:
0) Alguns conceitos fundamentais em economia
1) Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos Neo-ricardianos
2) De Sraffa à necessidade de uma ruptura com o pensamento económico dominante. As grandes questões de macroeconomia
3) Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago
4) A quem servem os modelos de macroeconomia – os impasses da esquerda americana
5) Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx
Curiosamente esta semana tive conhecimento de um texto de Ben Fine, um dos mais importantes economistas heterodoxos do nosso tempo com o título: Na ortodoxia e contra a ortodoxia: Ensinar Economia na Era Neoliberal.
Li-o e acho-o um texto muito relevante para quem quer pensar criticamente no que se faz hoje no ensino de economia nas Universidades por esse mundo fora e, em particular, no que se ensina, no que se faz na Nova FEUC que agora nasceu. Curiosamente, a série acima referida encaixa-se perfeitamente nos objetivos do próprio texto de Ben Fine e por isso mesmo o anexo a este email (e será publicado ainda hoje, aqui na Viagem dos Argonautas), sendo também claro que se trata de um texto dirigido quase que exclusivamente a economistas. E é um texto difícil na sua estrutura, na sua substância e até pelo trabalho que me deu a sua tradução. Como o texto me chegou às mãos a 27 de novembro, traduzi-o com algum cuidado, mas dada a escassez de tempo não tive tempo de pedir a revisão da minha tradução a ninguém. Seria desumano. Depois desta edição e com mais tempo o texto será republicado no blog numa edição duplamente revista [1].
Vale a pena ler o texto de Ben Fine e creio que merece ser onfrontado com a longa série de textos dedicada ao Joaquim Feio. Salvo os muitos patamares acima em que se coloca o texto de Ben Fine relativamente a esta série, o fio condutor de uma coisa e da outra é o mesmo. Por essa razão o anexo a este email e direi mesmo que se trata de um texto que à posteriori – neste momento a série está concluída – serve de justificação científica para a própria série, o que nos confere algum conforto dada a dificuldade de alguns dos textos que na série serão apresentados.
Dizia eu há dias a Ben Fine que já tínhamos passado a idade que nos obrigava institucionalmente a sermos politicamente corretos e que podíamos contar histórias que desse ponto de vista deixavam de pertencer ao domínio do mainstream como é criticar frontalmente o imperialismo em economia praticado pelos neoliberais e de que o atual plano de curso da Nova FEUC é disso um bom exemplo.
Aqui relembro dois ou três apontamentos sobre essa prática imperialista. Durante anos fui um dos organizadores de uma Iniciativa intitulada Cinema, Debates e Colóquios na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC). Foram anos de trabalho gratuito na FEUC, de horas e horas. Curricularmente não há uma linha em ata do Conselho Científico sobre esta Iniciativa. Nela colaboraram largas dezenas de economistas estrangeiros e nacionais de primeira linha. Dezenas de brochuras (livros) com textos selecionados foram editados. Com esta Iniciativa foram dezenas de artigos de qualidade que foram disponibilizados aos nossos estudantes. Por fim, reuni um grupo de artigos dos mais significativos e disponibilizei-os ao diretor da Revista da FEUC, Notas Económicas, meu antigo aluno, Paulino Teixeira para que pudessem ser editados na revista. Foram todos rejeitados como sendo de forte carga ideológica, com exceção de um, assinado por Edward Gresser, um alto funcionário da Administração Clinton. Et pour cause…
Neste grupo de textos estava um artigo de Ben Fine, recusado como os outros. Depois disso tentámos editar o texto de Ben Fine num dos media de qualidade deste nosso país e estes são muito poucos. Disseram-me que sim, mas que não tinham, possibilidades de o traduzir. Damos-lhe o texto traduzido e assim foi aceite. Traduzi o texto, mas eu sou pobre em inglês, aceito isso como verdade absoluta. A minha tradução foi revista pelo Luís Peres Lopes e desse não pode ser dito que não sabe inglês. Depois da sua revisão-tradução foi enviado ao diretor da editora Terramar para uma revisão literária do texto, sendo este um perito em traduções de inglês. Trata-se, pois, de uma segunda revisão feita por um profissional em que por cada eventual modificação, esta era discutida ao milímetro comigo. Foi entregue o artigo a quem aceitou publicá-lo. Recebi depois a informação de que não era publicável devido à má qualidade da tradução!
Recusado à direita, por um neoliberal da FEUC, Paulino Teixeira, recusado à esquerda por um economista-censor, conselheiro editorial, este texto ficou pendurado à espera que lhe fizessem então uma melhor tradução para vir a ser publicado nesse mesmo órgão de imprensa. Por esta razão, não foi integrado num livro que depois de muitas andanças foi editado pela Coimbra Editora, com o título PERSPECTIVAS PARA UMA OUTRA ZONA EURO. Mas sem Ben Fine pelo meio e também aqui houve a confirmação do imperialismo reinante em economia. Depois de uma longa história em torno da possível edição do livro, o livro, já paginado foi apresentado à editora Almedina. Manifestou grande interesse na sua edição. Esteve em apreciação por alguém de economia, presumo, e presumo que tenha sido de economia da FEUC, que seria conselheiro da editora e esperou-se durante muito tempo, vários meses, para se obter uma resposta espetacular: o livro tinha muito interesse, mas estava desatualizado. Quanto à qualidade não se podia questionar, até porque contava com um prefácio de José Reis e textos de João Ferreira do Amaral, José da Silva Lopes e José de Almeida Serra, três das figuras mais relevantes do pensamento económico em Portugal.
Com a ajuda de Miguel Lobo Antunes lá se conseguiu publicar o livro pela Coimbra Editora. Na apresentação do livro na Culturgest dizia Silva Lopes ao João Cravinho mais ou menos isto: o raio do livro parece ter sido escrito ontem! Escrito ontem, segundo o “banqueiro vermelho”, desatualizado para o conselheiro-censor editorial da Almedina, possivelmente um colega meu. Mais uma vez o imperialismo do pensamento dominante em ação. A minha resposta à Almedina foi qualquer coisa do género : em termos temporais só há um artigo desatualizado por falar do modelo de bens-salário de Ricardo, mas este autor é utilizado para explicar a política europeia atualmente imposta quanto à política salarial.
Poderia acrescentar, se a interlocutora soubesse de economia: interprete bem a Comunicação da União Europeia que continua hoje a ser aplicada e mostre-me depois que o livro está desatualizado :
Crescimento e Emprego NO QUADRO DA UEM ORIENTADO PARA A ESTABILIDADE, reflexões sobre a política económica tendo em vista a formulação das orientações gerais para 1998,
mas economia era coisa de que a funcionária da Almedina não percebia. Hoje, responderia: não foi feito por nenhum computador de noite para estar fresquinho ao nascer da manhã.
Estes são apontamentos que nos mostram bem a tenaz dos defensores do Pensamento Único, do pensamento dito mainstream.
Sobre o Ciclo de Cinema de onde saiu o livro noticiava o Expresso e passo a reproduzir:
“EM COIMBRA ALGO DE NOVO
Existe um pensamento económico dominante, que atribui aos mercados todas as virtudes e todos os malefícios ao Estado – e que é grandemente responsável por esta crise. Mas eis que, após o grande embate de 2008, ressurgem de novo com redobrado vigor as mesmas velhas receitas.
Contudo, como na aldeia de Astérix, há quem resista – Coimbra, onde decorreu esta semana um ciclo integrado de cinema, debates e colóquios, organizados pela Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), sob o lema “Para uma redefinição da união económica e monetária europeia: da crítica dos seus fundamentos à crítica da crise atual”. Vale a pena ler as comunicações apresentadas, que mostram um outro olhar sobre a crise e apresentam novas soluções, vindas de vários lados.”
Bom, o que se pode dizer de tudo é que a aldeia de Asterix a que se referia o Expresso foi invadida pelos bárbaros romanos e dela restam apenas cinzas. Nem Asterix, nem Obelix, nem Panomorix: apenas o Crepúsculo dos Deuses, os tempos de agora. Dir-me-ão que estou a exagerar, mas repare-se: em 2022 a FEUC apresentou o seu programa de festividades: nelas havia algumas sessões de cinema, cinco creio eu. Tratava-se de versões fortemente simplificadas face ao que se fazia em qualquer sessão do Ciclo de Integrado de Cinema, Colóquio e Debates na FEUC [2]. Se estávamos a comemorar os cinquenta anos da FEUC o mínimo seria que as pessoas que ainda restavam da aldeia de Asterix a que se referia Nicolau Santos no Expresso, o grupo organizador desta Iniciativa, fossem convidadas a participar numa ou noutra destas sessões de cinema quando foram elas os docentes inovadores que levaram o cinema à cidade, o cinema-comentário à sala de aulas e à cidade de Coimbra e que levaram os estudantes a fazerem pequenas recensões sobre os filmes-documentários como se fossem artigos para um jornal. Não foram convidados, isso é certo, e não poderá ter sido por esquecimento. Com efeito, em maio de 2022, o boletim da Biblioteca da FEUC, Mil Folhas, a pedido do seu coordenador, Carlos Fortuna, editava um artigo de Luís Lopes e Margarida Antunes (ver aqui) sobre o que foi essa aventura cultural e científica, artigo esse que foi alvo de debate na presença do diretor da FEUC, Álvaro Garrido. Nesse artigo diz-se:
“Não é exagero assim considerar-se que o Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC esteve, acima de tudo, a fazer Universidade”.
Não pode, pois, ter sido por esquecimento do enorme trabalho destes docentes, logo só posso entender esta ausência como uma opção. Mas o que significa uma opção destas num contexto destes? Responda quem souber, uma vez que aqui prefiro ficar surdo e mudo uma vez que não é minha intenção querer magoar ninguém.
Curiosamente, o texto de Ben Fine, se lido com atenção, insere-se na resposta a dar à degradação do ensino dominante e direi mesmo mais, a sua leitura deveria ser obrigatória antes de se passar à prática qualquer reforma no ensino de economia deste país. Haja, pois, coragem para o ler e para o poder defender na luta a travar por uma melhor qualidade de ensino. Ainda que isso possa ser demais para os nossos novos bárbaros que invadem a cidadela do conhecimento em Portugal
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Notas
[1] Pensei anexar o original em inglês mas trata-se de um texto editado em livro e apesar de me ter sido oferecido pelo autor, poderia com isso criar problemas com a editora, Não valeria a pena.
[2] Em cada sessão, havia pelo menos um conferencista estrangeiro e um comentador nacional para o debate com estudantes na FEUC, um filme-documentário temático ligado à conferência que era projetado no Gil Vicente com entrada gratuita e a quem era distribuída gratuitamente uma brochura (livro mesmo) com recolha de textos de economia ligados ao tema .Na apinião de Gerard Epstein, Co-diretor de Political Economy Research Institute (PERI), que esteve connosco na FEUC, tratava-se na altura de uma experiência pedagógica única no mundo. Surgiram depois versões simplificadas desta iniciativa nos Estados Unidos. Numa das Iniciativas, a convidada estrangeira americana, iria passar três dias na sua Universidade o mesmo filme que comentava no Gil Vicente.


