CARLOS MATOS GOMES – FOX CRIME - GAZA E OS MILITARES COMENTADORES

O canal de televisão que vejo com maior frequência é o Fox Crime. Os episódios, muito bem filmados, apresentam um crime e a sua resolução por métodos de análise de polícia científica. Os corpos das vítimas, os teatros de operações são sujeitos a provas, qual o ângulo de entrada da bala, ou da faca, que órgãos foram atingidos, qual a composição química de um vestígio, o morto, o de cujus, é antes de tudo um pretexto para exibir a parafernália dos meios da polícia, dos analistas. Os guiões apresentam retratos tão assépticos quanto possível das vítimas e dos assassinos. Os polícias científicos pretendem mostrar coo foi cometido o crime e como o podem descrever ao espetador. O sucesso da série, julgo, deve-se à frieza da análise. O espetador não tem de se envolver emocionalmente. Os episódios terminam habitualmente com uma cena “aberta”, um rosto neutro. Não existe empatia, nem emoção. A conclusão: o “sistema” funcionou.

Pela hora do jantar passo pelas TVs. A rotina: Fox Crime — noticiários levou-me a associar os dois produtos. As Tvs, depois dos episódios da guerra na Ucrânia estão agora a exibir episódios da operação israelita em Gaza. O elenco é o mesmo e a lógica dos enredos também. Do elenco interessam-me os profissionais, os militares comentadores. Com exceção das exceções, que são poucas e cada vez mais afastadas do modelo Fox Crime, os militares desempenham um papel central na mensagem que o nosso mundo de bons valores pretende passar, a verdade única: desumanizar a guerra. Não há pessoas, mas populações… massas flutuantes…

O grosso do contingente de comentadores militares nas Tvs realizam a operação de desumanização da violência abordando as ações como um jogo com livro de instruções. A Ucrânia foi apresentada como uma campanha militar convencional, com linhas de defesa e eixos de ataque, conjugação de manobras de forças terrestres, apoiadas por artilharia e meios aéreos. Vimos a guerra como um curso de tática numa Academia Militar. Alguns comentadores militares, mais excitados e mais militantes (e também menos inteligentes), passaram e passam a barreira da falsa neutralidade da análise e assumem-se membros da claque da causa do “Ocidente”, e replicam o refrão da NATO.

Quanto a Gaza. O que está a ocorrer em Gaza é, segundo as Nações Unidas, os jornalistas presentes, as agências internacionais, as organizações não governamentais, o Vaticano, a Amnistia Internacional, os Médicos Sem Fronteiras, a Cruz Vermelha, um crime de dimensões apocalíticas. Ora o que os comentadores militares me explicaram ontem foi que as Forças de Defesa de Israel — uma entidade cuja respeitabilidade e direito de agir nunca questionam, tal como nunca questionam a ação do Estado que as utiliza como instrumentos da sua ação criminosa — estão a realizar uma operação militar e tinham entrado na segunda fase do seu plano. Estavam a progredir por eixos do Norte para Sul, tinham tomado a cidade de Gaza, onde se encontrava o comando do terrível Hamas, que afinal se deslocara maldosamente para Sul, para onde se dirigem as forças da ordem no seu encalço. Os objetivos estabelecidos pelas forças do Estado de Israel no teatro de operações, segundo os comentadores militares, estão a ser devidamente conquistados com tropas terrestres, numa conjugação de blindados, infantaria, artilharia e apoio aéreo, tudo devidamente coordenado. Em suma, tecnicamente, a operação do exército israelita funciona com a mesma eficácia tecnológica dos melhores campos de concentração da Alemanha nazi. As câmara de gás foram substituídas pelos prédios em escombros no meio de uma coluna de fumo. Gaza é mais espetacular que Auschwitz!

Entretanto, o que os comentadores militares nos dizem é que o crime de Gaza, o genocídio, é uma mera operação militar que em muitas ocasiões classificam como uma guerra, sabendo que estão a induzir uma falsa ideia, pois uma guerra é travada entre dois contendores com meios equivalentes, e tratam o Hamas, uma organização político-militar do tipo dos movimentos independentistas, ou de resistência que desde tempos imemoriais utilizam a tática da guerrilha, a única opção do fraco contra o forte, como se fosse equiparável a um exército com os mais modernos e poderosos meios de combate, incluindo armas nucleares e protegido por dois porta-aviões e duas esquadras de apoio. Esquecidos destes pormenores, os comentadores militares descrevem a intervenção como os médicos legistas que observam num ecrã o percurso de uma sonda que invade o interior do corpo do cadáver, ou do moribundo.

O que os comentadores militares nos dizem, tal como os realizadores dos episódios do Fox Crime, é que o crime, a essência criminosa do ato e dos agentes no teatro de operações, e a desproporção de forças, de meios, dos apoios, é um tema sobre o qual não nos devemos pronunciar. Esqueçam. Isso é política e eles tratam de assuntos sérios, de técnicas. A dor das vítimas nunca surge no relato. É cenário. Eles falam mesmo em cenário de guerra. A causa da ação também nunca é referida. Não existem causas, mas manobras. Estamos num jogo de xadrez. Não se fala da qualidade da ação, de ser uma vingança planeada, uma limpeza étnica, de ser um ato impune. Trata-se de uma amputação que está a ser bem-sucedida, sugerem-nos. Também nunca surge a questão da consciência dos militares israelitas colocados perante a ordem de cometer crimes, o que vale para os pilotos dos aviões que bombardeiam a esmo (a moda é justificar que nos edifícios se encontram instalações do Hamas — no Vietname foram despejados agentes químicos sobre populações e campos agrícolas, porque serviam os vietcongs), as tripulações de blindados, os atiradores. E a ação desses militares devia ser questionada por todos e pelos comentadores militares em primeiro lugar — existe o direito à recusa de cometer atos violadores da consciência e não é desculpa a invocação de obedecer a ordens.

Os comentadores militares apresentam a operação de arrasar Gaza como os antigos professores de medicina apresentavam as fases de uma autópsia aos seus alunos. Onde se abre o cadáver, com que ferramentas e, no final, onde se despejam as vísceras. Ficamos elucidados. Afinal, numa autópsia do Fox Crime, o que interessa o morto? Nos episódios, o morto tem como papel salientar o virtuosismo técnico dos analistas, a eficiência dos operacionais que o transformaram num objeto de estudo. Os comentadores desempenham a função dos técnicos de laboratório nas cenas em que os resultados são assepticamente apresentados. Os episódios da Fox Crime e da Faixa de Gaza não devem tirar o sono nem provocar más digestões aos telespectadores que têm, isso sim, de comprar os artigos apresentados pela publicidade e, claro, um Ferrero Rocher vale mais que um palestiniano, vivo ou morto!

 

 

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Fox Crime — Gaza e os militares comentadores | by Carlos Matos Gomes | Dec, 2023 | Medium

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