CARTA DE BRAGA – “da comédia, da tragédia e de tudólogos” por António Oliveira

 

Quem dos tempos onde ainda se aprendiam estas coisas não se recorda da diferença entre tragédia e comédia, no mundo maravilhoso dos clássicos gregos? Ensinavam então, que não era apenas a mera diferença entre a desgraça e a gargalhada, mas a maneira como acabavam por ser resolvidos os problemas que nos poderiam sair no fadário da vida, desde os dramas do quotidiano trabalho, salário, patrão, impostos, casa e pão como os da socialização comunidades, associações e política, quase sempre ligados e interdependentes. 

Hoje, nesta velocidade em que vivemos, com tudo a ter de ser resolvido na hora, a tragédia será o drama de um futuro negro para o actor principal, vítima dos próprios erros ou julgamentos, enquanto a comédia estará na alegria e no contentamento com que os outros intervenientes passarão a olhar o futuro próximo, numa sociedade em que o afastamento daquele ‘mau’ (ou mesmo sem sequer aparecer!), leva à descoberta de um equilíbrio que, apesar de breve, merece ser comemorado. 

Não será tão fácil assim, pois os dramas ou as comédias, não são as que enchem as páginas dos manhas de todas as manhãs, avisados previamente, e com boneco a documentar, mas as do colectivo onde se está integrado, colectivo onde se assume e partilha, também e intensamente, o pior e o melhor da comunidade. 

Elisabeth Maisondieu-Camus, a neta do escritor Albert Camus, afirma, como já o fez o avô, que a vida nos traz momentos doces e outros momentos amargos e, só por isso, ‘A felicidade é a maior conquista contra o destino’, destino que será, talvez, o tal fadário da vida, que temos de vencer e ultrapassar. 

Outra maneira de encarar a diferença entre tragédia e comédia, seria a de Martin Luther King, talvez a figura mais importante do movimento dos direitos humanos nos EUA, ‘Não me preocupa o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos que não têm ética. O que me preocupa é o silêncio dos bons’. 

É, por tudo isto, que devemos reler e voltar a aprender com os clássicos gregos bem difícil por nem sequer caberem no ecrã do telemóvel, por assim podermos celebrar aquilo que faz de nós alguma coisa, entender a vida como movimento afirmou Edgar Morin, explicando, ‘Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias, e do sentimento de pertencer à espécie humana’.

No fundo, trata-se da ideia de metamorfose, desenvolvida pelo filósofo e sociólogo francês, ‘A nossa civilização supervalorizou o eu e menosprezou o nós. Precisamos mudar este curso, e desenvolver um nós novamente. Em todo o mundo de hoje, a convivialidade é descrita como a percepção de que nós, seres humanos, possuímos um destino comum’. 

Esse nós será a descoberta de como ele floresce na família, nos amigos, nas associações, nas comunidades, nos partidos políticos, na espiritualidade ou na religião, por serem locais de partilha, de envolvimento, em que o euisolado e egocêntrico perde a sua importância, porque qualquer sistema que não seja capaz de dar solução colectiva aos problemas fundamentais, acaba por se desintegrar, desaparecer ou ser absorvido por outro mais sólido. 

Talvez, também seja possível seguir um caminho, como Saramago descreveu um dia, ‘E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?’ 

Mas, por estar ao alcance de cada um, o entendimento da diferença entre tragédia e comédia e, seguindo ‘aparentemente’ a questão de Saramago, o psicanalista francês Jacques Lacan, escreveu ainda, ‘O amor está continuamente ameaçado pela morte. O nosso esforço de amor termina sempre num fracasso no tempo. É a fé que nos dá a certeza de que o amor, apesar de tudo, termina na realização e na plenitude. Tenho necessidade desse sentido. É uma realização e não uma compensação. É o Sentido último’.

E para voltar aos clássicos gregos, leia-se o que o cronista John Carlin, escreveu há semanas ‘Progredimos no aspecto material: Helena de Troia não tinha Instagram para mandar selfies aos pretendentes; Aquiles talvez tivesse salvado a vida com uma dose de penicilina no calcanhar; mas quanto às emoções, zero em evolução’.

E, a propósito de todas estas questões, quando é que o tudólogo volta a botar sentenças? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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