Será Natal para as crianças, com as caras ensanguentadas, que choram de fome, de dor, de solidão, de orfandade?
Será Natal para as mães e pais que não têm onde deitar os filhos, com que alimentar as suas crianças?
Será Natal para os militares que morrem em combate?
Um homem, vítima de uma das muitas guerras, disse na televisão, “porque não deitam uma bomba atómica, assim acabavam com o nosso sofrimento e com todos.”
Natal é um tempo de grandes contradições, de inúmeros pedidos de contributos para as instituições dedicadas às famílias sofredoras.
Natal é uma época de grande consumismo inútil que só serve para alimentar quem alimenta as guerras, o capital.
Ninguém é inocente, não bastam a indignação, a informação, a doação e apoio, é necessária a Revolta!
Como dizia Sophia de Mello Breyner Andresson em
Cantata de paz
Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar Vemos, ouvimos e lemos Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos Relatórios da fome O caminho da injustiça A linguagem do terror
A bomba de Hiroshima Vergonha de nós todos Reduziu a cinzas A carne das crianças
D’África e Vietname Sobe a lamentação Dos povos destruídos Dos povos destroçados
Nada pode apagar O concerto dos gritos O nosso tempo é Pecado organizado.
As guerras mostram-nos um lado da Humanidade que é capaz de fazer o mal, não importa a quem, as guerras são para matar, são para fabricar mais armas, mais balas, mais drones…mais poder…
Mas a guerra não se trava só nos campos de batalha, dentro de casa há opressores e oprimidos que morrem ou ficam feridos na sua dignidade, para sempre.
Quem contacta, de perto, com meninos e meninas que todos os dias têm “a lágrima no canto do olho” porque se sentem em risco, porque se sentem sozinhos numa família agressiva ou violenta, numa escola que não sabe lidar com estas realidades, numa sociedade classista que quer ignorar os sem voz, os invisíveis.
Quem se sensibiliza com esta realidade, de famílias em risco, percorre Seca e Meca para auxiliar as famílias, as crianças que estão sentadas numa sala de aula com os corpos magoados, com as emoções descontroladas, com os pés e as mãos prontos a agredir alguém.
Estas crianças não confiam em ninguém, nem nos professores que querem mudar o rumo das suas vidas.
Crianças de origens culturais e étnicas diferentes olham para um desses professores e pensam “mais um…”
Têm medo de serem novamente rejeitadas. Gostar do professor para quê? Para ele chamar a mãe e dizer que não aprendem e que se portam mal? Isso não é novidade, mas é o suficiente para levarem grandes tareias…
Estou a falar de uma época em que não havia apoios sociais, nem organizações que apoiassem crianças maltratadas.
Não havia conhecimento destas situações e quando havia não havia meios suficientes para as acompanhar.
Hoje, felizmente, existem organizações sem fins lucrativos para apoiar as crianças e as famílias, e cito apenas algumas: O SOS Criança, do Instituto de Apoio à Criança, que é já um direito da criança e um dever de todos nós colaborar na sua divulgação; A APAV, A Unicef, as CPCJ (comissão de proteção de crianças e jovens); assistentes sociais; psicólogos…
É urgente dotar as crianças de alguma informação sobre a existência de serviços que as podem orientar antes que o risco aconteça.
Foi criada a Linha Verde, nas Taipas, que ajudou uma destas crianças a ultrapassar os problemas da dependência de drogas, como a gasolina e a cola. Esta ajuda tornou este menino num homem, com saúde, e a sua família foi tratada de hábitos de alcoolismo.
O Direito à Informação e à Participação é um dos Direitos da Criança.
É impossível ficar indiferente…
Este exemplo faz acreditar, ainda com mais força, que é possível desviar o rumo para o abismo, para um caminho sem pedregulhos.
As crianças maltratadas têm agarradas à pele a violência e a falta de afeto…
É por causa destes e de outros meninos e meninas que se pode acreditar que não há determinismos históricos, há o conhecimento de que a vida pode ter muitas facetas e que devemos lutar pelo lado BOM da Humanidade combatendo a ignorância em nome da Dignidade Humana daqueles que sofrem com as exclusões e com os maus tratos.
Neste Natal e todos os dias temos o dever de lutar por uma sociedade mais equitativa, vamos acreditar que não há pessoas só más e pessoas só boas, temos a obrigação humanitária de acreditar no lado bom de cada um e lutar, sempre, sempre por esse lado Bom.
Dedico este incompleto texto a todos quantos lutam pelo bem-estar de todos e às famílias e crianças sofredoras que conheci.
Dedico este texto ao lado Bom da Humanidade.
Não, não é Natal para todos, como os dias que passam não são fáceis para todos, como o Poder tem sido mais destruidor do que gerador de Paz.
Confio nas novas gerações que enchem ruas, que gritam bem alto os seus valores.
Quem pode dizer que a sociedade portuguesa não contribui para a igualdade, desde a Revolução dos Cravos? É lenta, não tem meios, mas tem valores humanitários.