Uma das mais importantes figuras da cultura do século XIX, o italiano Giacomo Leopardi, deixou escrito numa obra quase niilista, ‘Zibaldone di pensieri’, uma séria de pensamentos sobre o mal, de que retirei esta ‘Tudo é mal. O que existe é mal; cada coisa que exista é mal; a existência é um mal e está orientada para o mal; a finalidade do universo é o mal; a ordem e o Estado, as leis, o curso natural do universo, não são mais que males e estão dirigidos ao mal. Não há outro bem que o não-ser; só é bom aquele que não é; as coisas que não são coisas: todas as coisas são más’.
Peguei nesta citação, tirada de um outro cronista –José María Lorente– como me baseei numa das suas crónicas, para referir o que se passa em Gaza, onde todos os dias, há praticamente três meses, tirando uns míseros dias de tréguas, não acontece nada a não ser um sem fim de mortes, e corpos lançados à terra com denominação indefinida, como bem documenta o cartoon que encabeça esta carta, do bem conhecido El Roto, do diário ‘El País’.
Dele tirei também, e a propósito, esta frase que bem poderia servir de legenda ao cartoon ‘Tudo isto é inimaginável para quem, como o cidadão comum do nossos país, onde reina a paz e a segurança em termos gerais, nunca teve a experiência de saber exactamente que a sua vida pode terminar a qualquer momento, como pode perder os seus entes queridos, que não vai comer e que os males que sofrerá, nem importa se é ou não inocente, porque aquele estado de guerra em que vive, não respeita os lugres estabelecidos para atender quem cai ferido, debaixo de um fogo não misericordioso, bíblico, do todo poderoso e amoral exército israelita’.
Talvez seja esta a ocasião para voltar a Leopardi, porque ali, em Gaza, até poderá estar a reinar o “mal absoluto”, aquele que Paul Rubens, Hieronymus Bosh e outros, pintaram tão bem, por ali estar a impossível prova da vontade do poder que tudo abala, tudo derruba e tudo destrói, independentemente de que tenha dentro, física ou moralmente, pois, por cá, estamos cobertos pela democracia, em Gaza os palestinos não têm qualquer amparo nem o podem receber, por ali imperar a lei do mais forte.
Não sei porquê, mas alguém le lembrou há uns dias, um verso simples da autoria de José Afonso ‘Há quem viva sem dar por nada. Há quem morra sem tal saber’.
Ave Zeca Afonso!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor