Rodeado por muitos amigos, Hélder Costa foi homenageado
por António Gomes Marques
Aconteceu no passado dia 6, dia em que o Hélder completou 85 anos.
Um grupo de amigos muito próximos do Hélder decidiram organizar uma homenagem, não só para comemorar o seu aniversário, mas também para lhe mostrar o quanto os seus amigos se orgulham dele, pelo que ele tem feito em prol da cultura, com especial realce no campo do teatro português e do teatro em Portugal, como encenador e autor de uma vasta obra teatral, e também na intervenção cívica em prol do seu povo e do seu país e onde granjeou algumas das mais fortes amizades que cultiva com dedicação, direi mesmo com amor, pois não devemos temer a palavra, que aqui atinge o seu significado mais nobre.
Hélder Mateus da Costa
A Comissão Promotora — constituída por Arnaldo Cunha da Silva, Carlos Pereira Martins, Joaquim Nunes, José Zaluar e Manuel Lopes Rodrigues —, comunicou a sua intenção a outros amigos do Hélder, o que fez com que, em Grândola, se juntasse um grupo significativo de amigos do homenageado, sendo eu um deles.
Com o Hélder e a Maria do Céu Guerra, a Comissão Promotora da homenagem
Fotografia de António Gomes Marques
Em Setembro de 2012, testemunhei uma outra homenagem ao Hélder, promovida pelo Armando Caldas e pelo Intervalo – Grupo de Teatro, de que o Armando era Director, no Auditório Municipal Lourdes Norberto, cabendo-me a mim falar do Hélder.
A dado passo da minha comunicação, escrevi:
“Não há, julgo eu, no actual panorama da cultura portuguesa, pessoa mais empenhada no Teatro Português, sem que isso signifique descurar o Teatro em Portugal, do que Hélder Costa. É um autor genuinamente implicado com o tempo que vivemos, na defesa da sociedade justa, solidária, uma sociedade onde haja igualdade de oportunidades para todos.
Baseio esta minha afirmação não só na sua obra, do autor e do encenador, de que «Os Encontros Imaginários» constituem uma originalidade em Portugal e aos quais não se tem dado o devido relevo, mas também na sua disponibilidade para intervir como cidadão português onde necessário se torne.”
E mais à frente, acrescento:
“É para o palco que os dramaturgos escrevem e apenas consideram o trabalho terminado quando vêem o seu texto confrontado com um público ou com os vários públicos. Há ainda algo que para mim, epicurista assumido, muito me interessa: sempre que falo ou discuto com o Hélder sobre os assuntos mais comezinhos –às vezes os mais importantes!- ou sobre as grandes questões, há sempre um sorriso ou uma piada e até mesmo, de vez em quando, uma brejeirice a que ele não resiste. O viver a vida é o mais importante, procurar ser feliz é a obrigação de cada um de nós! A obra de Hélder Costa fala-nos também disto.”
Não compete ao dramaturgo, que o Hélder é, e muito menos ao teatro, encontrar soluções para os problemas que o dia-a-dia nos coloca, os pequenos e os grandes problemas que o país que é o nosso nos coloca — ou mesmo o Mundo —, mas compete-lhes, ao teatro e ao dramaturgo, levantar problemas que nos levem a reflectir, que nos tornem mais conscientes de que somos agentes da nossa própria vida, que nos obriguem a intervir para mudar o que for necessário mudar, num trabalho que tem de ser colectivo, de modo a que seja possível atingir um dos grandes objectivos, ou mesmo o principal, de um ser humano, que é o de ser feliz e de viver em comunhão com os outros. Ora, tudo isto podemos encontrar na obra escrita do dramaturgo e do escritor de outros textos que é o Hélder Costa. Há ainda uma outra palavra que não pode deixar de ser invocada quando dele falamos ou nele pensamos e nele sempre presente: solidariedade! Conheço muitas pessoas amigas que são solidárias, que serão tão solidárias como ele, mas não me lembro de nenhuma que o seja mais do que ele.
Ao convívio inicial, seguiu-se o descerramento de uma placa, que se fixou na fachada principal da sua casa, em Grândola.
Fotografia de Carlos Martins
A homenagem que se lhe prestou em Grândola, na casa onde nasceu, foi também por tudo o que acabo de escrever. Não foi apenas pelo seu aniversário, não foi apenas pela amizade que todos que ali marcaram presença nutrem pelo Hélder, foi também pela admiração que a sua obra escrita e prática no teatro a todos merece.
Maria do Céu Guerra, Hélder Costa e eu (AGM)
Fotografia de Carlos Martins
Após o descerramento da placa, o Hélder leu-nos um texto seu:
A propósito de PAZ
No fim do massacre da I Grande Guerra, criou-se a Sociedade das Nações para evitar a repetição desses tristes e bárbaros acontecimentos e muitos intelectuais — de que destaco por exemplo o Francês Romain Rolland, o Austríaco Stefan Zweig, e o Inglês Bertrand Russel — lutaram por um movimento pela PAZ. Para afastar as paranóias do Deutschland uber alles Hitleriano(1), do Arriba España Franquista, do America Great Again da doutrina Monroe para estimular o Imperialismo dos Estados Unidos da América. Esta tendência da propaganda do país que é SUPERIOR aos outros continuou espalhada pelo Mundo, e até tivemos recentemente essa serôdia memória no nosso país com “Portugal à Frente”, de Passos e Portas!
Como se verificou, o esforço desses intectuais e de algumas nações não deu frutos e a Humanidade foi novamente agredida com a II Grande Guerra. Surgiu a resposta com a ONU e têm aparecido mais organizações que lutam pelo entendimento entre os povos.
Há dias, fomos surpreendidos com a notícia de Portugal ser considerado o país mais seguro da Comunidade Europeia e ter ficado em 3º lugar na avaliação dos países mais pacifistas à escala Mundial!
Curiosamente, não vi referências a este raríssimo acontecimento nos nossos “media”. Porquê? Para não envenenar o nosso querido Povo com essas ideias que o perturbassem e deixassem de admirar as guerras constantes de ocupação nos países Árabes do Oriente e na Palestina?
É lamentável. Sabemos a diferença entre o patriotismo — que é o amor pelo nosso país (e por isso também somos internacionalistas) — e o radicalismo Nacionalista que consiste em odiar todos os outros países.
Pensando bem, até acho que, desta vez aconteceu a fusão de interesses entre Pátria e Nação, porque o objectivo era hastear a bandeira da PAZ contra qualquer Guerra.
E podemos sentir o orgulho do nosso pequeno país merecer esses louvores Internacionais.
Hélder Mateus da Costa
13.04.20
A casa de Hélder Mateus da Costa, em Grândola
Fotografia de AGM
Seguiu-se o cantar da “Grândola, Vila Morena”, como seria inevitável.
A propósito desta canção do Zeca, hino do 25 de Abril de 1974, há que relembrar alguns acontecimentos e, também, a acção de a “Música Velha”.
A Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense — “Música Velha” (SMFOG), foi fundada no dia 1 de Maio de 1912, Dia do Trabalhador.
Nos anos de 1936/37, foi constituída uma comissão para a realização de obras no edifício e, na sequência dessa decisão, houve uma cisão na associação que deu origem à “Música Nova”, integrada no Sport Lisboa e Grândola, passando a SMFOG a ser conhecida por “Música Velha”.
Durante o Nacional Salazarismo, a SMFOG desenvolveu uma notável dinâmica cultural, particularmente relevante no panorama grandolense, onde a liberdade e a democracia estavam presentes, a exemplo do que acontecia noutras localidades do país. Nas décadas de 60 e 70, do século passado, aconteceram vários espectáculos, que iam do teatro à música, exposições de artes plásticas, gravura e fotografia, para além de vários debates que contaram com a presença de figuras reconhecidas como opositoras ao regime. A acção do Hélder Costa já ali se fazia notar.
O ano de 1964 não pode deixar de ser realçado. Ali actuaram o Coro da Academia dos Amadores de Música, sob a direcção de Fernando Lopes Graça, e, nas comemorações do 52.º aniversário, estiveram presentes Carlos Paredes (guitarrista), Fernando Alvim (viola), José Afonso (músico e poeta) e Rui Pato (viola).
De realçar que o Grupo Cénico apresentou a peça “O Doido e a Morte”, de Raul Brandão, com direção artística de Hélder Costa, e aconteceu uma outra peça encenada por Hélder Costa, “O Delator”, de Maria Teresa Horta, espectáculo este que foi proibido pelo Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo, por ofício datado de 13.06.1964, mas a peça tinha sido representada no dia 31 de Maio, ou seja, há 60 anos o Hélder ousava trocar as voltas ao SNI e à censura.
Outro ano de brilhante actividade foi o de 1972, com a organização de uma Exposição itinerante sobre a obra de Alves Redol, integrando um colóquio com o já referido Armando Caldas (actor), Isabel da Nóbrega e José Saramago (escritores e jornalistas), cantores Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Samuel e o guitarrista Carlos Paredes.
Este foi o ano da comemoração do 60.º aniversário da “Música Velha”, o que proporcionou que se realizasse também uma primeira Feira do Livro.
Zeca Afonso, no seguimento da sua actuação na “Música Velha”, em 17 de Maio de 1964, «ficou impressionado com a dinâmica cultural e com o espírito de liberdade e fraternidade existente na coletividade tendo afirmado, em carta enviada aos pais, que se alguma vez tiver de deixar esta terra, é a lembrança destes homens que conheci em Grândola e noutros lugares semelhantes que me fará voltar. Foi na sequência desta atuação que, dias depois, enviou a José da Conceição o poema Grândola, Vila Morena, lido pela primeira vez em 31 de maio na SMFOG:“Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/O Povo é quem mais ordena/Dentro de ti ó cidade/Em cada esquina um amigo/Em cada rosto igualdade/Grândola Vila Morena/Terra da Fraternidade/Capital da Cortesia/Não se teme de oferecer/Quem for a Grândola um dia/Muita coisa há-de trazer”. (2)
A designação da Sociedade Musical tem na sua designação a palavra Fraternidade, o que não foi esquecido pelo Zeca no seu poema.
Cantada a “Grândola Vila Morena”, todos se encaminharam para o restaurante onde iria decorrer o almoço de confraternização.
Ali, todos foram surpreendidos por imagens que iam passando numa televisão, mostrando algumas cenas da vida do Hélder e de seus familiares.
Já no final do repasto, alguém leu um outro texto do Hélder, que a seguir reproduzo:
Optimismo e Pessimismo
É fascinante ver a alegria indisfarçável com que o analista (ou His master voice) da Sic anuncia a inevitável bancarrota de Portugal (só faltam os Vampiros do Zeca).
E alegria, porquê? Porque essa gente sabe e cultiva más notícias — ou previsões, ou desejos —, para espalhar o Pessimismo. E com essa carga negativa, surgem o Medo, a Descrença, e as pessoas estando mais inseguras, são mais manipuláveis.
Recentemente surgiram umas vozes amaldiçoando o anátema dito “marxismo cultural”. Pois, o Marx tem as costas largas, mas deixem o Homem em paz. Se querem perceber um pouco da História do pensamento progressista, podem começar pelo Demócrito, “o Filósofo que ri”, Epicuro, “O elogio da Loucura” de Erasmo, “Utopia” de Thomas More, mais recentemente “O nome da rosa” de Umberto Eco onde assassinatos num convento surgiam porque era preciso eliminar páginas que elogiavam a alegria num livro clássico…
Estas breves referências servem para referir o Optimismo como arma de transformação social e cultural. Curiosamente, surgem várias frases que tentam travar essa reacção Emocional!… “muito riso, pouco siso”, “são jovens, não pensam”; o mais interessante é que esses comportamentos até têm a sua dose de verdade. E são mais frequentes nos jovens, mais afectivos, directos e de fácil indignação. E por isso, dispostos a arriscar nas lutas difíceis. Recordo os movimentos estudantis dos anos 60, surgiram quando se percebeu que o Pessimismo tinha sido o caldo cultural alicerce do nosso Fascismo de 48 anos. E a juventude dos “Capitães de Abril”, as várias lutas contra a guerra Colonial…
Fernando Pessoa escreveu “se o coração pudesse pensar, parava”. Felizmente, o coração está bem vivo para nos insuflar de Optimismo, e também não se perde nada em pensar um bocadinho…
Termino com uma convicção: “O Humor é a seiva do Revolucionário”.
Hélder Mateus da Costa
Novembro de 2019
E depois, cada qual regressou às suas casas, retendo para sempre na memória este dia que foi de homenagem, de comemoração de um aniversário e de fraternidade graças à pessoa solidária e fraterna que é o Hélder Mateus da Costa.
Portela (de Sacavém), 2024-01-12
Hélder Mateus da Costa na companhia de muitos amigos
NOTAS
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Deutschland uber alles (A Alemanha acima de tudo) é o primeiro verso de uma das muitas canções nacionalistas Das Lied der Deutschen, mas que os nazis alteraram, cantando apenas a primeira estrofe da canção e, de seguida, emendavam introduzindo os versos do hino do partido nazi. (Para mais informação, ver, por exemplo, «https://www.cartacapital.com.br/mundo/alemanha-acima-de-tudo-um-verso-e-um-passado-sombrio/»);
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in: https://www.cm-grandola.pt/o-que-visitar/museus/poi/sociedade-musical-de-fraternidade-operaria-grandolense-musica-velha, «link» que fornece mais pormenores sobre a “Música Velha”.







