Crise na Universidade — “As universidades não estão ao nível”,  por Josh Barro

Entre os intelectuais que mais se insurgiram contra a censura, encontramos Almeida Garrett, Alexandre Herculano e José Estêvão de Magalhães (protesto contra a lei das Rolhas de 1850).

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 18 min de leitura

As universidades não estão ao nível

 Por Josh Barro

Publicado por  em 5 de Janeiro de 2024 (original aqui)

Os universitários deveriam refletir mais sobre o que é que as Universidades fizeram para terem perdido a confiança dos americanos

 

Caros leitores,

Nos últimos meses, tem-se falado muito sobre como os conservadores estão cada vez mais alienados das instituições de ensino superior. A confiança nas faculdades e universidades está agora fortemente polarizada por partido; entre 2015 e 2023, a Gallup descobriu que a proporção de republicanos que expressam “muita” ou “bastante” confiança no ensino superior caiu 37 pontos percentuais. Como os conservadores passaram a olhar negativamente para estas instituições, os republicanos têm-se empenhado cada vez mais em ataques políticos ao sector, mais recentemente, na campanha de averiguação e pressão que levou Claudine Gay a demitir-se esta semana do cargo de presidente de Harvard.

Menos discutido é o facto de a confiança do público nas faculdades ter caído significativamente em todos os grupos ideológicos desde 2015. Embora a confiança dos republicanos tenha sido a que mais diminuiu, a Gallup verificou que caiu 16 pontos entre os independentes e 9 pontos entre os democratas.

Muitas vezes, quando uma questão se polariza, assiste-se a efeitos termostáticos na opinião pública, como quando os democratas se tornaram mais liberais em relação à imigração em resposta aos ataques histriónicos de Donald Trump aos imigrantes. Mas embora as figuras liberais no campus gostem de falar de si próprias como uma vanguarda na luta contra os conservadores ignorantes que querem acabar com o saber e o saber-fazer daí consequente, não há uma reação pró-universidade entre os liberais que seja visível nas sondagens. Por isso, seria bom que os defensores do conhecimento, da investigação, das competências profissionais e da verdade nas universidades de elite do nosso país fossem um pouco menos arrogantes e choramingas, e um pouco mais introspetivos sobre as razões pelas quais toda a gente parece gostar menos do que antes das Faculdades e Universidades americanas.

Pessoalmente, também desenvolvi uma visão mais negativa das faculdades e universidades ao longo da última década, e a minha razão é simples: Cada vez mais acho que estas instituições são desonestas. Muita da investigação que delas sai não tem como objetivo a verdade, seja porque é politizada ou por razões mais venais. A mensagem de justiça social em que se envolvem é frequentemente não sincera. Os seus relatos públicos sobre as razões das suas ações internas são muitas vezes implausíveis. Mentem sobre o papel que a raça desempenha nas suas práticas de admissão e contratação. E, por vezes, especialmente a nível de pós-graduação, conferem diplomas cujo valor sabem que não justificará o tempo e o dinheiro que os estudantes investem para os obter.

O mais recente descalabro em Harvard, em que grande parte da comunidade académica parece ter esquecido convenientemente o significado do termo “plágio” para não ter de admitir que Claudine Gay o cometeu, é apenas o mais recente exemplo da mentira endémica no campus.

Para mim, o problema começa com a crise da replicação. Licenciei-me em psicologia em Harvard, em 2005. A maior parte do meu curso era sobre psicologia social. E algo que continuo a ver nas notícias desde que me formei, é que uma boa parte do que me foi ensinado nos cursos de psicologia social de Harvard estava simplesmente errado. Na altura em que eu era estudante, havia uma voga para todo este corpo de investigação sobre a forma como a “exposição aos estímulos” e pequenos estímulos comportamentais podem afetar materialmente as atitudes e o comportamento, mas os estudos que aprendi nas aulas continuam a ser desmentidos, com réplicas a falharem e com estudos muitas vezes pirateados ou mesmo baseados em dados fraudulentos. A desonestidade generalizada na investigação em psicologia resulta de fracos incentivos – as descobertas interessantes são publicadas, as publicações dão-lhe financiamento, segurança no emprego e notoriedade e, por vezes, até contratos de consultoria empresarial, e é mais fácil produzir uma descoberta interessante se se falsificarem os dados – e foi possível graças a práticas pouco rigorosas que prevaleceram até há pouco tempo, incluindo a não obrigatoriedade de os investigadores registarem previamente os resultados dos seus estudos e não ser considerado ter de partilhar os seus dados em bruto para poderem ser analisados por terceiros [1].

O nível de interesse das universidades em lidar com a desonestidade generalizada na investigação em ciências do comportamento tem sido… misto. Não posso ser o único a interrogar-me por quanto tempo mais Dan Ariely poderá continuar a ser um professor em boa posição na Duke [n.t. Universidade Duke em Durham, Carolina do Norte].

Muito do trabalho de limpeza do campo tem sido feito como projeto paralelo por três professores que escrevem no Data Colada, um blogue sobre integridade de dados. A Harvard Business School [HBS], para seu crédito, investigou agressivamente as alegações de fraude de dados contra a Prof. Francesca Gino que o Data Colada levantou pela primeira vez, acabando por suspendê-la no ano passado e, assim, suportando uma ação judicial e a alegação de rigor de que tomar medidas contra ela era sexista. Mas se a equipa do Data Colada não tivesse feito esta investigação no seu tempo livre, nem a HBS nem as revistas que publicaram a investigação de Gino teriam alguma vez reparado que estavam a ajudar a perpetuar uma fraude. E, numa antevisão das defesas que vimos no caso Claudine Gay, o professor da Faculdade de Direito de Stanford, Lawrence Lessig, olhou para além das amplas provas de fraude de dados para dizer ao New Yorker que rejeitava as alegações contra Gino por causa de quem ela é: “Estou convencido porque a conheço”, disse ele. “Essa é a razão mais forte pela qual não posso acreditar que isto tenha acontecido.” [2]

Não tenho a impressão de que a crise da replicação nas ciências sociais seja tão grande para os outros como é para mim. Mas a desonestidade na investigação nas universidades não se limita às ciências sociais. Nas ciências humanas, assumiu uma forma diferente – a investigação pós-moderna que visa a “minha verdade” em vez da verdade.

Matt Yglesias escreveu há algumas semanas sobre um artigo de Jenny Bulstrode, uma historiadora da ciência da Universidade de Londres, que alega que uma técnica metalúrgica moderadamente notável, patenteada em Inglaterra no final do século XVIII, foi de facto roubada aos metalúrgicos negros jamaicanos que realmente a desenvolveram. O problema do artigo de Bulstrode é que não apresenta provas reais da sua tese – não só não demonstra que o inglês Henry Cort tinha conhecimento de uma técnica metalúrgica jamaicana semelhante à que patenteou, como também não demonstra que essa técnica tenha sido alguma vez utilizada na Jamaica.

O artigo, pelo facto de se enquadrar na categoria em voga de “Historiador descobre mais uma coisa racista”, obteve muita cobertura crédula por parte da imprensa. E quando as pessoas chamaram a atenção para o facto de o artigo não ser verdadeiro, os editores da revista que o publicou lançaram uma salada de palavras do tipo “O que é verdade”, de qualquer modo em defesa do artigo, incluindo isto:

Não defendemos, de forma alguma, que a “ficção” é uma categoria sem sentido – a desonestidade e a fabricação em estudos académicos são eticamente inaceitáveis. Mas acreditamos que o que conta como responsabilidade perante os nossos sujeitos históricos, os nossos leitores e as nossas próprias comunidades não é único nem deve ser ditado antes de nos envolvermos no estudo histórico. Se quisermos enfrentar a anti-negritude das tradições intelectuais euro-americanas, tais como foram explicadas ao longo do último século por DuBois, Fanon e pelos universitários das gerações seguintes, temos de compreender que aquilo que é vivido pelos atores dominantes nas culturas euro-americanas como “empirismo” está profundamente condicionado pelas lógicas predadoras do colonialismo e do capitalismo racial. Fazer o contrário é repor formas mais antigas de historicismo profundamente seletivo que apoiam a dominação branca.

Estas abordagens centradas sobretudo na ideologia, orientadas para o ativismo e cuja verdade depende de quem está a olhar, também se estendem às ciências sociais não técnicas – veja-se, por exemplo, o tema da reunião anual da Associação Americana de Antropologia de 2024, que declara a intenção de “reimaginar” a antropologia de forma a derrubar a barreira entre a teoria e a prática para dar mais espaço ao ativismo social, para que a antropologia sirva melhor como ferramenta para responder à “opressão sistémica”.

As pessoas (incluindo eu) olham para artigos e declarações como esta e concluem que muito do que se passa nas universidades não é realmente investigação – é ativismo social disfarçado de investigação, que não precisa de ser de boa qualidade desde que tenha os objetivos ideológicos certos. Claro que isto não é o que todos (nem  mesmo necessariamente a maioria) os professores de humanidades estão a fazer. E vejo argumentos como este de Tyler Austin Harper, professor de literatura no Bates College, segundo o qual o corpo docente das humanidades em geral nem sequer está satisfeito com estas mudanças – que são os administradores no topo destas instituições que estão a empurrar os departamentos em direções politizadas. Ele escreve:

A hipótese dominante é que os académicos de cor estão desproporcionadamente representados em campos orientados para o ativismo, tais como a “teoria descolonial”, o que significa que os reitores – sempre à procura de mais rostos morenos para colocar nos sites das universidades – têm mais probabilidades de aprovar novas linhas de titularização em disciplinas ricas em diversidade e ideologicamente sobrecarregadas. Muitas vezes, são os professores que estão a tentar salvaguardar os seus campos de trabalho das maquinações progressistas dos seus senhores burocráticos. Mas confrontados com a escolha entre verem os seus departamentos a diminuir ou concordarem em contratar em áreas que ajudem a concretizar os esquemas de engenharia de pessoal dos seus chefes, os departamentos tendem a escolher a segunda opção.

Portanto, esta é outra forma de desonestidade [3]. Como é ilegal utilizar quotas raciais na contratação, as universidades não podem admitir explicitamente que reservam lugares para candidatos de minorias sub-representadas. Por isso, em vez disso, recorrem a filtros ideológicos e a revisões de declarações DEI como substitutos da raça [N.T. DEI, também chamada de “declaração de compromisso para com a diversidade” ou “declaração de contribuições para a diversidade”, é um breve ensaio (1-2 páginas) no qual o autor coloca em destaque as suas contribuições em relação a DEI na sua sala de aulas, universidade e disciplina.]. Esta abordagem tem muitos inconvenientes – para além de envolver uma ocultação desonesta dos verdadeiros objetivos da universidade, não tem qualquer utilidade para os candidatos negros e hispânicos que não estão interessados em áreas de estudo “ideologicamente sobrecarregadas” e, por vezes, leva à contratação de candidatos brancos de qualquer forma, se estes souberem incluir melhor as palavras mágicas da moda numa declaração DEI. Harper acrescenta algo mais sobre as razões não raciais que levam as administrações universitárias a empurrar as humanidades para estas direções – diz que vender aos estudantes a esperança infundada de que as humanidades os tornarão activistas sociais mais eficazes é uma forma de os levar a inscreverem-se, por exemplo – mas nada disto diz bem do empenho das universidades numa investigação e ensino honestos.

A última forma de utilização desonesta da produção académica de que quero falar é uma forma que explodiu como um enorme problema quando a pandemia da COVID atingiu o seu auge: especialistas num dado domínio utilizam o disfarce de peritos num esforço para impor os seus valores e preferências políticas ao público. Este fenómeno não se limita às universidades – alguns dos profissionais médicos e de saúde pública que o fizeram pertenciam a faculdades, outros trabalhavam em hospitais, outros trabalhavam para o governo e outros simplesmente publicavam muito no Twitter. Mas direi simplesmente que passar vários anos a ouvir “a ciência diz” antes de afirmações que não eram ciência enquanto tal, mas sim aplicações de afirmações científicas através de um quadro de valores muito específico que eu não partilho – parte comunitarista, parte neurótica, parte de esquerda – deram-me um sentimento mais negativo em relação aos especialistas, incluindo os das universidades, e estou longe de estar sozinho nesse sentimento.

A desonestidade nas universidades estende-se para além dos resultados da sua investigação. Falemos de admissões. Harvard tem uma prática de longa data de utilizar a raça como fator de admissão na universidade, gerando uma turma que é menos asiática e tem negros e hispânicos do que seria se não considerassem a raça. E também têm uma prática de longa data de mentir sobre isso. Ao longo do litígio sobre as políticas de admissão de Harvard, eles não se limitaram a defender a adequação das políticas de promoção da diversidade baseadas na raça; negaram que estivessem a fazer discriminação Fizeram jogos de palavras – semelhantes ao “o que é o plágio?” utilizado pelos defensores de [Claudine] Gay – argumentando que a raça podia ser utilizada como um fator positivo para a admissão sem nunca ser um fator negativo, uma impossibilidade matemática quando se atribui um número fixo de vagas de admissão.

Faz parte de uma desonestidade mais ampla na forma como as pessoas no ensino superior insistem em falar de discriminação positiva. As políticas de discriminação positiva preferem pessoal de determinadas origens raciais e étnicas como parte de um esforço para alterar o equilíbrio demográfico da instituição – é este o objetivo da discriminação positiva – mas aparentemente é racista admitir que é isto que está a acontecer (ou por vezes constituiria uma admissão de atividade ilegal), pelo que há uma série de falsificações que escondem o que as universidades estão realmente a fazer quando analisam a questão racial. E desde a decisão do Supremo Tribunal, no ano passado, que proíbe as práticas de admissão com base na raça, as instituições de todo o país têm sido manifestamente óbvias na sua procura de formas de desrespeitar a lei. É desonesto e, nos últimos anos, é um tema que tem estado em todos os noticiários, o que não deve ter sido bom para a confiança do público nas universidades.

E isso leva-me ao ponto de partida desta agitação noticiosa: a audiência do mês passado, em que os presidentes de Harvard, do MIT e da Penn levaram uma tareia de Elise Stefanik [4], entre outras pessoas. Os presidentes das universidades tinham razão num dos pontos que estavam oficialmente em causa na sua troca de palavras: se as políticas de expressão de uma universidade forem concebidas de acordo com o Primeiro Aditamento, então mesmo um apelo ao genocídio só será proibido em determinadas circunstâncias específicas. O problema, na minha opinião, é que os reitores das universidades estavam enganados sobre a parte “se” dessa declaração: na prática, não adotam uma abordagem não intervencionista para todos os tipos de discurso. As universidades encontram formas de estender a tolerância aos oradores que violam as regras no processo de expressão de ideias favoráveis e impõem sanções aos oradores de ideias desfavoráveis, muitas vezes através do processo como sanção.

A própria [Claudine] Gay foi pessoalmente responsável por uma dessas violações da neutralidade, discutida na audição: o despedimento do Prof. Ron Sullivan como reitor da Faculdade de Harvard, devido ao facto de ter representado juridicamente Harvey Weinstein em tribunal. Oficialmente, não foi por isso que Sullivan foi despedido – a universidade branqueou as queixas dos estudantes sobre as suas atividades legais com a noção de que o seu comportamento era perturbador do “clima” dentro da Winthrop House, e Gay continuou esse branqueamento no seu testemunho. O caso de Carole Hooven [5] também mostra que uma afirmação tão banal como dizer que só há dois sexos humanos (note-se sexos, não géneros) não está protegida na prática em Harvard.

Os detratores de Gay identificaram corretamente Harvard como hostil a certos tipos de discurso, mas também tinham uma série de outras queixas – queriam restrições a certos tipos de discurso sobre Israel, e tinham objeções mais amplas ao DEI e à adoção de posições institucionais mais explicitamente de esquerda em universidades muito para além de Harvard [6]. Mas o que encontraram, quando procuraram podres sobre ela, não estava relacionado com tudo isto: ela plagiou, repetidamente, no corpo do seu trabalho universitário. Copiava parágrafos de texto quase na totalidade, sem citar os autores cujos textos utilizava. Qualquer pessoa que tenha andado na universidade sabe que não é permitido fazer isso. Não se trata apenas de uma regra – é uma regra com a qual as universidades vivem obcecadas e que ronda a hipocrisia. Eles matraqueiam a cabeça dos estudantes dizendo-lhes até à exaustão que devem colocar corretamente as suas fontes. Se eu copiasse como fez Gay quando eu era estudante em Harvard, e se fosse apanhado, o normal seria ser expulso da Universidade.

Dall-E 3 geração de imagens para “académicos submetidos a um processo de recuperação em termos de justiça no qual expiam o seu plágio e reparam os erros que cometeram contra outros”. Dall-E rejeitou a incitação proposta “de universitários a plagiarem-se uns aos outros”, alegando que “criar uma imagem de universitários a plagiarem-se uns aos outros seria inadequado e pouco ético, uma vez que promove uma atividade negativa e prejudicial”. Também rejeitou a sugestão “académicos a serem justamente punidos por plágio” porque “não posso criar uma imagem que represente um castigo ou consequências negativas para os indivíduos, mesmo no contexto de um comportamento pouco ético”. Rejeitou uma terceira proposta, “académicos a serem severamente advertidos pelo seu plágio”, porque esta “continua a centrar-se num cenário negativo e potencialmente prejudicial”.

 

E é por isso que tem sido tão chocante, no último mês, ver alguns académicos e jornalistas anunciarem uma nova e mais branda norma sobre plágio que era desconhecida para nós quando éramos estudantes. O que parece estar a acontecer aqui é que estão a sofrer do Síndrome de Perturbação de Chris Rufo. Ou seja, sabem que o ativista conservador Chris Rufo é um tipo mau e, por isso, a única forma de analisarem uma questão sobre a qual ele opinou é assumindo que o oposto do que ele disse é a verdade. Se Rufo diz que Gay plagiou, então ela não deve ter plagiado, independentemente de quaisquer parágrafos quase duplicados que possamos ver com os nossos próprios olhos. Para além de ser uma abordagem terrível para aprender a verdade, este modelo mental confere a Rufo um poder tremendo: se tivermos o Síndroma de Perturbação de Rufo, tudo o que Chris Rufo tem de fazer para nos fazer parecer um completo idiota é ter razão sobre alguma coisa, uma só vez que seja.

Por isso, tivemos uma série de declarações idiotas. Gay era apenas culpada de “duplicação de linguagem”, disse a Harvard Corporation, na altura em que ainda se defendia a sua nomeação. Disseram-nos que toda a gente o faz: “Claudine Gay demitiu-se com base numa acusação de plágio que poderia ter sido levantada contra qualquer pessoa que conhecemos graças ao poder de extração de texto aplicado sem normas sólidas sobre como avaliar os resultados”, escreveu Jo Gludi, professor de História em Emory (A sério? Alguém que conheçamos?). Charles Blow chegou a escrever no New York Times que a expetativa de que a presidente de Harvard não plagiasse (ou não fosse objeto de “perguntas sobre citações e aspas em falta”, como ele descreveu o plágio de forma mais verbosa) constitui um “problema da Mulher Maravilha”, em que as mulheres negras em posições de poder “estão presas em ratoeiras nas prisões das exigências de perfeição dos outros” [7].

A exigência segundo a qual devemos redefinir a honestidade académica para resolver o facto de a primeira presidente negra de Harvard ser uma plagiadora é um insulto para os académicos de todas as raças que não copiam os trabalhos de outras pessoas, mesmo as partes “banais” dos mesmos. E a insistência de que sempre foi assim, de que este tipo de cópia é uma prática normal neste setor, é apenas uma ilusão. Eu andei na Universidade. Sei que isso não é verdade.

Finalmente, a Harvard Corporation apercebeu-se (tardiamente) de que ninguém estava a acreditar nesta argumentação e que a posição de Gay era insustentável – que não era bom ter um reitor de universidade no seu lugar quando tinha feito coisas sobre as quais a universidade expulsa estudantes normais por o fazerem [8]. Mas o facto de o primeiro instinto de Harvard ter sido o de mentir e ofuscar – dizer que não havia nada para ver – reflete a postura geral de desonestidade e falta de transparência da universidade. Por uma questão de equidade para com os membros da Corporação, eles normalmente safam-se.

E tudo isto influencia a forma como me sinto em relação à “guerra contra o ensino superior” dos conservadores. Os liberais no meio académico, incluindo a própria Claudine Gay, andam muito agitados. Mas não é claro para mim o que se deve defender e porquê. Preferia ver este setor profissional a fazer uma introspeção sobre a razão pela qual está a perder a confiança do público – mais uma vez, como discuti no início, não apenas entre os conservadores – e sobre o que é que poderia fazer para merecer mais confiança. Afinal, se a estratégia é simplesmente polarizar os pontos de vista sobre as universidades e transformá-las numa causa célèbre liberal, isso não só será um desastre para os orçamentos das universidades nos estados vermelhos, como nem sequer parece estar a funcionar como estratégia para obter apoio entre os liberais.

Muito seriamente,

Josh

__________

Notas

[1] As mentiras endémicas da psicologia tiveram importância no mundo real, mas não necessariamente numa direção de esquerda. As mentiras eram frequentemente neoliberais: como disse Gideon Lewis-Kraus no New Yorker, este corpo de investigação errada prometia que “modificações kitsch do comportamento individual reparariam o mundo” – por exemplo é possível fazer com que os segurados sejam mais honestos simplesmente mudando os atestados que têm de assinar para o topo dos formulários em vez de estarem colocados no fim – e a alegada viabilidade destas abordagens de «One Weird Trick -Um Truque Estranho” escondeu situações em que a melhoria do comportamento individual requer, de facto, uma mão reguladora mais pesada, ao mesmo tempo que desviava a nossa atenção de mudanças mais estruturais que poderiam ter sido mais eficazes para a melhoria da sociedade. E, provavelmente, a parte mais influente da investigação psicológica que aprendi na faculdade é aquela que veio a constituir a pedra angular das iniciativas DEI. Trata-se do Teste de Associação Implícita, uma ferramenta muito mal utilizada que pretende encontrar preconceitos implícitos em seres humanos que nem sequer sabem conscientemente que os têm.

A lição extremamente abrangente que tantas pessoas e organizações retiraram do IAT – que o racismo está escondido dentro de todos nós e que a forma de o curar é senti-lo na própria pele e a procurá-lo – levou a que se perdesse imenso tempo em imaginárias formações de funcionários, distraindo-os do problema mais pernicioso e ainda de uma forma generalizado do racismo explícito. Por outras palavras, podemos considerar que a  ascensão de Robin DiAngelo é em grande parte imputável aos psicólogos sociais que difundem investigações de má qualidade.

[2] Este nível excessivo de cortesia profissional é uma das razões pelas quais a fraude de Gino demorou tanto tempo a ser descoberta. Depois de Harvard ter suspendido Gino, Zoé Ziani escreveu sobre o facto de ter tentado, há vários anos, levantar questões sobre a integridade dos dados num dos trabalhos de Gino, como parte da sua própria dissertação de doutoramento em Comportamento Organizacional. Mas dois dos membros do seu comité de dissertação pressionaram-na fortemente para eliminar a secção em que apresentava  as suas preocupações, essencialmente com o argumento de que fazê-lo não seria colegial ou seria desrespeitoso para com os investigadores mais antigos. Este é outro sinal de uma cultura que não faz da honestidade na investigação uma prioridade.

[3] Gostaria de referir que, embora Harper apresente um bom argumento no sentido de que o empenhamento das universidades na política radical é em grande parte não sincero, a pressão que descreve para criar linhas de docentes em áreas de estudo radicais representa um empenhamento financeiro muito real das universidades em relação às ideias que de forma não sincera defendem. Este é o pior dos dois mundos, em termos de como nos devemos sentir em relação ao que as universidades estão a fazer com o nosso dinheiro: a sua viragem “descolonial” é simultaneamente falsa, por uma questão de sentimento, e real, por uma questão de atribuição de recursos. E se esta tendência de contratação se mantiver durante muito tempo, essas atitudes tornar-se-ão bastante sinceras numa proporção crescente do corpo docente das universidades.

[4] Estava um ano atrás de mim em Harvard.

[5] Falando do facto de eu ter andado em Harvard: Carole Hooven lecionou a minha secção de discussão há cerca de 20 anos, quando frequentei The Evolution of Human Nature, um grande curso ministrado pelos Profs. Richard Wrangham e Marc Hauser, Hooven era uma professora dinâmica e cativante. Hauser, infelizmente, acabou por fabricar e manipular dados para alguns dos seus estudos com macacos que aprendemos nas aulas. Que azar!

[6] Estes críticos podem estar a ter algum sucesso em fazer oscilar o pêndulo do discurso pró-palestiniano de institucionalmente favorecido para institucionalmente desfavorecido – um resultado que provavelmente consideraram possível devido ao longo historial destas universidades de não cumprirem os seus supostos compromissos de neutralidade.

[7] Uma reação mais razoável à saída de Gay é uma que vi de Keith Boykin, que quer ver análises dos escritos de outros presidentes de universidades para ver se também plagiaram. Ótimo, vamos a isso; eu vou buscar as pipocas. O meu palpite é que este tipo de cópia não é muito comum, precisamente porque os académicos sabem que é muito fácil de apanhar se formos à procura. Mas não tenho a certeza, e estou interessado em saber. O que eu acho que há muito por aí, sem ser detectado, é a fraude de dados do tipo que vimos nos casos Hauser e Gino. A fraude de dados é muito mais fácil de ocultar do que o plágio, e muito mais morosa de identificar e provar, e como tal presumo que seja mais tentadora para os académicos sob pressão publicar esses trabalhos. Também gostaria de ver mais recursos jornalísticos dedicados a esta investigação.

[8] O plágio de um discurso de formatura – nem sequer de um trabalho académico – levou à demissão do presidente branco e masculino da Universidade da Carolina do Sul em 2021. Suponho que ele também não cumpria os requisitos da Mulher Maravilha.

 


 

Comentário de Brad DeLong (em 9 de Janeiro de 2024, ver aqui)

Capital humano: Josh Barro tem boa opinião sobre alguns dos seus professores em Harvard – mas não sobre muitos, e não tem boa opinião sobre precisamente nenhum dos administradores de Harvard. Todos eles deviam pensar nisso:

“Josh Barro: Para mim, o problema começa com a crise da replicação…A maior parte do meu curso era sobre psicologia social. E há qualquer coisa que continuo a ver nas notícias desde que me formei é que uma boa parte do que me foi ensinado nos cursos de psicologia social de Harvard estava simplesmente errado…. mas os estudos que aprendi nas aulas continuam a ser  desmentidos, com réplicas a falharem  e os estudos muitas vezes pirateados ou mesmo baseados em dados fraudulentos.

A desonestidade generalizada na investigação em psicologia resulta de fracos incentivos – as descobertas interessantes são publicadas, as publicações dão-lhe financiamento, segurança no emprego e notoriedade e, por vezes, até contratos de consultoria empresarial, e é mais fácil produzir uma descoberta interessante se se falsificarem os dados

O nível de interesse das universidades em lidar com a desonestidade generalizada na investigação em ciências do comportamento tem sido… misto. Não posso ser o único a interrogar-me durante quanto tempo mais Dan Ariely poderá continuar a ser um professor em boa posição na Duke

Mas a desonestidade na investigação nas universidades não se limita às ciências sociais. Nas ciências humanas, assumiu uma forma diferente – a investigação pós-moderna que visa a “minha verdade” em vez da verdade.

muito do que se passa nas universidades não é realmente investigação – é ativismo social disfarçado de investigação, que não precisa de ser de boa qualidade desde que tenha os objetivos ideológicos certos. Claro que isto não é o que todos (ou mesmo necessariamente a maioria) os professores de humanidades estão a fazer.

E vejo argumentos…  que são os administradores no topo destas instituições que estão a empurrar os departamentos em direções politizadas.

Faz parte de uma desonestidade mais ampla na forma como as pessoas no ensino superior insistem em falar de discriminação positiva. As políticas de discriminação positiva  preferem pessoal de determinadas origens raciais e étnicas como   parte de um esforço para alterar o equilíbrio demográfico da instituição – é este o objetivo da discriminação positiva  – mas aparentemente é racista admitir  isto

Se eu copiasse como  Gay fazia quando eu era estudante em Harvard, e se fosse apanhado, o normal seria ser expulso da Universidade.

E é por isso que tem sido tão chocante, no último mês, ver alguns académicos e jornalistas anunciarem uma nova e mais branda norma sobre plágio que era desconhecida para nós quando éramos estudantes.

E tudo isto influencia a forma como me sinto em relação à “guerra ao ensino superior” dos conservadores. Os liberais no meio académico, andam muito agitados. Mas não é claro para mim o que se deve defender e porquê. Preferia ver este setor profissional a fazer uma introspeção sobre a razão pela qual está a perder a confiança do público “. Fim de citações do artigo de Josh Barro

O único ponto em que discordo seriamente do Josh é no que se refere à discriminação positiva: É um facto que há aspetos importantes na procura do mérito – na procura das pessoas que farão melhor o trabalho – que escapam aos nossos padrões de redes de velhos amigos e de superação de provas bem preparadas e há boas razões para agir de acordo com esse facto. A questão é que o pesado desequilíbrio demográfico é provavelmente um sinal de que se está a praticar mal a meritocracia.


O autor: Josh Barro [1984-] é um jornalista estado-unidense e criador do boletim e do podcast Very Serious. Anteriormente apresentou o programa semanal de rádio Left, Right & Center na KCRW de Los Angeles e foi editor senior e colunista em Business Insider. (para mais informação ver wikipedia aqui)

 

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