Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Nota de editor:
Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a primeira.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
11 min de leitura
Parte B: Texto 6 – Um economista não conformista, Piero Sraffa (1898-1983). Capítulo III – Os anos da instalação de Sraffa em Cambridge (1/2)
Em
, Presses universitaires de Lyon (original aqui)
1- OS CURSOS NA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE: O SEU BREVE, MAS BENÉFICO IMPACTO
Devido à crescente repressão política do regime fascista, Piero Sraffa desistiu de seguir uma carreira académica em Itália, apesar de ter obtido uma cátedra em Cagliari, e aceitou a oferta de John Maynard Keynes para vir ensinar na Grã-Bretanha. Na sua chegada a Cambridge no final de setembro de 1927, J.M. Keynes tomou a seu cargo pessoal a sua instalação. Providenciou-lhe um apartamento no edifício que ocupava com Lydia durante as suas visitas de fim-de-semana à cidade universitária. Embora não fosse (nem se tornasse) um Membro do King’s College, Piero Sraffa gozou dos privilégios inerentes a esta posição, os “direitos de mesa alta” [n.t. mesa para uso dos membros da Sala Comum Senior e seus convidados em grandes refeitórios universitários]. Finalmente, Keynes concordou com o seu pedido de ser dispensado do ensino durante alguns meses, para que pudesse melhorar os seus conhecimentos da língua inglesa. A pedido do seu patrono, Piero Sraffa deu um curso avançado sobre a história das teorias de valor, “Teoria Avançada do Valor”, que foi anunciado no programa em 1927-28, mas que na realidade teve lugar durante dois anos, em 1928-29 e 1929-30. Também deu outro curso sobre o funcionamento dos sistemas bancários italiano e alemão [1]. Sentiu-se muito intimidado pela audiência, e em geral por falar em grupo, e passou muito tempo a escrever as suas intervenções na íntegra. No curso sobre teorias de valor desenvolve uma leitura crítica dos Princípios de Economia de Alfred Marshall e retoma as ideias expostas no artigo da Revista Económica de 1926. Os ataques à ortodoxia marshalliana chocaram frequentemente a maioria da audiência. Apenas uma pequena minoria de estudantes beneficiou grandemente destas lições, incluindo Richard-Ferdinand Kahn (nascido em 1905) e Joan-Violet Robinson (1903-1983).
Esta última, nas suas “Recordações ” (1977), sublinha a este propósito:
“Ele estava em vias de cometer calmamente o sacrilégio de apontar contradições em Marshall e, além disso, a apresentar-nos outras escolas de pensamento contemporâneas (mas não eram melhores). [2]
Em 1929, Richard Ferdinand Kahn tornou-se amigo íntimo de Piero Sraffa [3]. Nesse ano, escreveu a sua tese de doutoramento. Influenciado pelos Princípios de Alfred Marshall, decidiu tratar da “economia de curto prazo”; uma escolha que foi aprovada por J.M. Keynes.
R.F. Kahn recebeu encorajamento de Gerald F. Shove e do nosso investigador italiano. No período de preparação deste trabalho, defendido na Universidade de Cambridge, em dezembro de 1929, obteve muitos elementos interessantes durante “longas discussões” com Piero Sraffa, cujo artigo de 1926 utilizou no seu sétimo capítulo sobre “imperfeição do mercado”; recebeu mesmo ajuda direta dele para as páginas dedicadas à teoria do duopólio [4].
Joan Robinson, que começou a ensinar na Universidade de Cambridge em 1931, deve muito ao ensino inovador de Piero Sraffa. O seu primeiro livro, The Economic of Imperfect Competition, publicado em 1933, embora profundamente influenciado pela obra de Arthur Cecil Pigou, foi “inspirado por uma sugestão de Sraffa”. Ela afirma mesmo no ‘Prefácio’ (1932):
“Entre as obras mais recentes, estou muito grata ao artigo de Piero Sraffa em Economic Journal, dezembro de 1926” [5].
O nosso italiano envolvera-se em muitas discussões com Joan Robinson, mas ele submeteu-a sobretudo a críticas destrutivas. No início de 1930, John Maynard Keynes decidiu organizar um simpósio sobre as teses de 1926, reunindo Dennis H. Robertson, Gerald F. Shove e Piero Sraffa, cujo material foi publicado em março no Economic Journal, sob o título “Increasing Returns and the Representative Firm ” [6]. D. H. Robertson tenta defender a teoria marshalliana no seu artigo, “The Trees of the Forest”. No decurso da discussão, Piero Sraffa salienta que
esta teoria não pode ser interpretada de forma a dar-lhe coerência lógica interna e ao mesmo tempo reconciliá-la com os factos que afirma explicar. O remédio de Robertson é dispensar a matemática e ele subentende que o meu remédio é dispensar os factos; talvez eu devesse ter explicado que neste caso penso que é a teoria de Marshall que deve ser dispensada. [7]
Joseph Schumpeter apresenta uma contribuição para o debate numa carta a Piero Sraffa em 3 de maio de 1930; este último lamentou o facto de o economista austríaco ter desistido de enviar uma “carta ao editor” para o Economic Journal [8].
No Outono de 1930, Piero Sraffa decidiu demitir-se do seu cargo de encarregado de curso, uma vez que tinha estado sob constante pressão para desenvolver as suas ideias perante uma audiência e, além disso, sobre temas que não eram muito “ortodoxos”, especialmente no curso dedicado à “história das teorias de valor”. Recordando as suas memórias deste tempo, o marido de Joan Robinson declara:
“Achou o cansaço das lições quase intolerável (ficava acordado toda a noite antes de uma lição, atormentando-se por causa do que ia dizer)”. [9]
O intelectual italiano informou J.M. Keynes e Austin Robinson, encarregado de organizar o ensino de economia em Cambridge, da sua intenção de deixar de ensinar e regressar a Itália [10]. Keynes, que não aceita ver o seu amigo a ir-se embora do King’s College, encarregou-se de encontrar uma solução para este problema bastante delicado. Em 1931, faz com que Piero Sraffa seja nomeado para o novo cargo de Bibliotecário da Biblioteca Marshall de Economia [11], um cargo que ocupou até 1973. No mesmo ano, teve o cargo de “diretor assistente de investigação” no King’s College, criado especialmente para ele durante quatro anos. Sraffa teve de supervisionar toda a investigação dos estudantes de economia, encontrar diretores de teses, etc. Em março de 1935, foi reconduzido no mesmo cargo na mesma instituição.
Na segunda metade da década de 1930, Piero Sraffa organizou um seminário em que os estudantes investigadores liam artigos. Em 1937-1938, trabalhou na teoria ‘neo-clássica’ dos salários, que tinha levado à publicação na Grã-Bretanha de dois importantes livros, A Teoria dos Salários [12] de John R. Hicks e A Teoria do Desemprego [13] de Arthur Cecil Pigou. Em 1938, deu conselhos a um estudante de Keynes, John Thomas Dunlop (nascido em 1914), que lhe apresentou um rascunho do seu artigo para o Economic Journal, “The Movement of Real and Money Wage Rates ” [14].
Em 1939, Dennis H. Robertson deixou o seu posto no Trinity College, Cambridge, para ir ensinar na London School of Economics na cadeira deixada vaga por Theodore Emmanuel Gregory, agora conselheiro do Indian Reserve Bank. Piero Sraffa sucedeu-lhe como colega do Trinity College e ocupou o cargo de diretor de investigação até 1963.
2- AMIZADES EM CAMBRIDGE: DOBB, RAMSEY, WITTGENSTEIN, KEYNES
Desde 1927, Sraffa foi iniciado nas particularidades da vida universitária de Cambridge. Foi imediatamente apresentado ao “Clube de Economia Política ” [15], um círculo reconstituído por John Maynard Keynes com novas regras de funcionamento. Os seminários do Clube Keynes foram realizados nas noites de segunda-feira na casa do economista no King’s College, com a presença de professores e alguns estudantes. Piero conheceu algumas pessoas muito interessantes que se tornaram muito seus amigos.
Sraffa contactou pela primeira vez com Maurice H. Dobb (1900-1976), docente na Faculdade de Economia de Cambridge desde o final de 1924. Estudante em Cambridge em 1919-1922, Maurice Dobb completou a sua formação na London School of Economics de 1922 a 1924, e escreveu uma tese sob a direção de Edwin Cannan, na qual tentou conciliar a teoria marxista da mais-valia com a teoria de Marshall: Empresa Capitalista e Progresso Social [16]. Desde 1922, ele é um ativista muito ativo no Partido Comunista da Grã-Bretanha. Provavelmente através dele, Piero Sraffa entrou em contacto, por razões desconhecidas para nós, com Harry Pollitt, Secretário-Geral do Partido, de agosto de 1929 a 1956 [17].
Sraffa tornou-se amigo do jovem filósofo, lógico e brilhante matemático, Frank P. Ramsey (1903-1930). Amigo de John Maynard Keynes, Frank P. Ramsey criticou o seu Tratado sobre as Probabilidades, escrito em 1914-1920, mas só publicado em 1921. Em 1923, escreveu uma importante recensão, na revista Miind, do livro do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein Tractatus logico-philosophicus (1918). No ensaio “The Foundations of Mathematics” (1925), publicado após a sua morte, tentou conciliar as proposições do Tractatus (1918) com as desenvolvidas por Bertrand Russell e Alfred North Whitehead nos Principia Mathematica (1910 e 1913). Graças a Keynes, juntou-se à sociedade secreta conhecida como “Os Apóstolos”, composta por máximo de doze membros. Como colega em Matemática no King’s College, Ramsey foi encorajado por Keynes a trabalhar na economia política. Escreveu dois artigos, que foram publicados no Economic Journal, «A Contribution to the Theory of Taxation» (março de 1927) e «A Mathematical Theory of Saving» (dezembro de 1928). Este último é particularmente importante, como observa o Professor Henri Bartoli:
“Há 50 anos, F.P. Ramsey fez um trabalho pioneiro ao formular pela primeira vez o problema do crescimento ótimal em termos intertemporais da procura de trajetórias ótimas da taxa de acumulação de capital num dado intervalo de tempo e para um dado sistema económico. O seu trabalho permaneceu quase despercebido até que, nos anos 50, Solow, Samuelson e Tinbergen retomaram a sua problemática e a sua metodologia, provocando um amplo debate “[18].
Em 1929, Piero Sraffa conheceu o amigo de Ramsey e Keynes, o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951). De 1930 a 1935, Wittgenstein foi colega no Trinity College e, tal como Ramsey, pertenceu à sociedade secreta dos “Apóstolos”. Ele gostou muito das longas discussões filosóficas com o nosso italiano, cujas severas críticas o levaram a abandonar as teses do Tractatus Logico-Philosophicus (1918) e a desenvolver novas ideias em Blue Book (1933-1934) e especialmente na primeira parte das Investigações Filosóficas (1936-1945). Georg-Henrik Von Wright diz sobre o filósofo austríaco:
“Eu próprio o ouvi dizer que depois das suas discussões com Sraffa se sentiu como um tronco de árvore sacudido pelos seus ramos”. [19]
No prefácio das suas Investigações Filosóficas de 1945, Wittgenstein escreve:
“Ainda mais do que a essa crítica – sempre vigorosa e segura – [a de Frank Ramsey, JPP] estou em dívida com aquilo que um professor da Universidade de Cambridge, M.P. Sraffa, exerceu incansavelmente sobre as minhas ideias durante vários anos. É a este último estímulo que devo as ideias mais consistentes e frutuosas deste livro”. [20]
Mais tarde, em 1960, Piero Sraffa considerou que a sua influência na formação intelectual do segundo Wittgenstein tinha pouca importância, embora tenha mencionado a possibilidade de escrever um estudo para clarificar esta questão [21].
Desde o início da década de 1930, a relação entre John Maynard Keynes e Piero Sraffa tornou-se muito mais íntima. Ambos eram grandes colecionadores de livros raros, com uma predileção particular pelas obras de filosofia e economia política do século XVIII. Passavam frequentemente as suas tardes de sábado em digressão pelas livrarias de Cambridge especializadas em livros antigos; em particular, frequentavam a loja do famoso antiquário Gustave David (d. 1936) [22]. Este interesse comum estendeu-se a Joseph Schumpeter que, no seu regresso à Europa após um ano em Harvard, parou em Cambridge a partir de 1929; disse a propósito de Keynes que o intelectual italiano “se tornou um aliado muito apreciado por ele” [23]. Um exemplo notável desta paixão partilhada é o seguinte. Por volta de 1937, John Maynard Keynes recebeu como presente do seu irmão Geoffrey, também ele colecionador, uma cópia rara do Abstract of Hume’s Treatise of Human Nature, de Hume, publicado em 1740 e atribuído ao jovem Adam Smith. Keynes e Sraffa conseguiram estabelecer pouco depois que esta obra foi de facto escrita pelo próprio Hume, e juntos escreveram uma introdução para a publicação deste livro em 1938 [24].
3- PIERO SRAFFA, CRÍTICO DE KEYNES: DO TRATADO SOBRE A MOEDA À TEORIA GERAL
Entre 1924 e 1928, John Maynard Keynes começou a escrever um livro cujo título mudou à medida que a sua pesquisa progredia: O Padrão de Valor, depois O Padrão Monetário, e finalmente Um Tratado sobre a Moeda. Ele pediu a Piero Sraffa que lhe lesse o rascunho pouco depois da sua chegada à Grã-Bretanha. Sraffa fez-lhe observações críticas. A correspondência de Keynes com a sua esposa Lydia, por exemplo, menciona uma discussão muito importante que teve lugar a 2 de março de 1928 [25]. Algumas críticas são levadas em consideração. É difícil determinar exatamente qual é o ponto de vista real de Piero Sraffa sobre este livro. Podemos ter uma ideia, indiretamente, através de algumas reflexões comunicadas a Antonio Gramsci em setembro de 1931, por ocasião do relatório da Comissão MacMillan, ou “Comissão de Inquérito de Finanças e Indústria”. Esta comissão, criada pelo governo trabalhista em novembro de 1929, permaneceu até 1931 e era composta principalmente por J.M. Keynes, Reginald McKenna, Theodore E. Gregory, R.H. Brand e Ernest Bevin. Sraffa diz do Relatório MacMillan:
“Foi escrito em grande parte por Keynes, e inspirado inteiramente por ele. Contém uma análise que lança muita luz sobre as causas da atual crise financeira na Grã-Bretanha; além disso, contém uma exposição parcial da teoria das crises e da moeda que Keynes tinha proposto, numa linguagem muito complicada e confusa, no seu recente Tratado sobre o Moeda (1930). Esta teoria atribui as crises a um excesso de “poupança”, no sentido de dinheiro “reservado” pelos aforradores, relativamente aos “investimentos” no sentido de novas construções, etc.; com o resultado de que a moeda disponível para adquirir os produtos atuais é insuficiente para cobrir os seus custos de produção. Como se pode ver, há muito de antigo, e algo de novo. Mas Keynes, que involuntariamente fez uma crítica à economia liberal e capitalista, conclui com uma apologia do empresário capitalista e pela procura de “remédios”. [26]
A teoria do ‘ciclo de crédito’ do Tratado sobre a Moeda [27] é claramente evidente no Relatório, mas também nas intervenções de J.M. Keynes durante as várias sessões da Comissão [28]. Tendo descoberto que o autor lhe tinha agradecido, juntamente com Ramsey e Kahn, pelas suas estimulantes críticas na prova do Prefácio do Tratado, datado de agosto de 1929, Sraffa pediu a Keynes para não incluir o seu nome; o prefácio do livro, que saiu em outubro de 1930, não mencionava, portanto, o nome do jovem italiano [29]. Este último, que tinha traduzido A Tract on Monetary Reform em 1924, não se propôs realizar a mesma operação com o Tratado sobre a Moeda [30]. Embora fosse muito cético quanto à importância das novas ideias expostas no Tratado sobre a moeda, Sraffa foi, contudo, o primeiro a propor aos seus amigos economistas a constituição de um grupo de trabalho para o estudo e crítica do livro, se quisermos acreditar no testemunho de Joan Robinson [31], o famoso “Circus” foi criado em Cambridge no final de 1930, e funcionou até maio de 1931. Os principais oradores neste seminário, composto por jovens académicos, foram Richard Ferdinand Kahn, um Membro do King’s College desde março de 1930, James E. Meade, um Membro de uma faculdade de Oxford, a estagiar no Trinity College, Joan Robinson e o seu marido Austin, e finalmente Piero Sraffa. Entre outros membros menos proeminentes, podemos citar Charles H.P. Gifford, A.E. Wynn Plumptre e Lorie Tarshie. Algumas reuniões são frequentadas por estudantes do terceiro e último ano. Os resultados das discussões em cada sessão foram transmitidos a Keynes [32] durante o fim-de-semana pelo secretário, Richard Ferdinand Kahn, que relatava o resultado ao grupo na sessão seguinte [33]. Uma carta de Piero Sraffa a J.M. Keynes, datada de 9 de maio de 1931, está situada no contexto do “Circus ” [34]. Estas discussões estimulantes contribuíram ativamente para a preparação e amadurecimento da Teoria Geral (1936). Como se comportou Piero nestas discussões entre os economistas? Austin Robinson irá salientar a este respeito:
“Mas de todas as nossas discussões, lembro-me mais dele como uma chaleira num fogão a gás de chama baixa. Esperávamos e esperávamos que fervesse. Quando quase o tínhamos esquecido, de repente fervia. Piero Sraffa em plena potência com um torrencial inglês italianizado era algo de memorável, quanto mais não fosse pela sua raridade. Acho extremamente difícil adivinhar a sua contribuição. Como crítico, ele era inquestionavelmente notável. Como descobridor de falhas e de coisas insensatas e como corretor das ideias brilhantemente sobrevalorizadas das pessoas, ele era excecional. Pessoalmente, não me lembro dele como um grande fornecedor de ideias novas e brilhantes. Mas este elemento de uma operação coletiva pode facilmente ser sobrestimado.” [35]
É difícil avaliar a relação do nosso intelectual com o trabalho de Marx nessa época. Os arquivos de Cambridge talvez nos revelem alguma informação interessante sobre este assunto nos próximos anos. De acordo com testemunhos fiáveis, Piero parece ter adquirido, no início dos anos trinta, a reputação de ser um bom “conhecedor” de Marx em termos de teoria económica. Um aluno de Keynes, Lorie Tarshie, recorda que Sraffa “tinha uma grande reputação, pelo menos entre os estudantes, como discípulo de Marx” [36]; do mesmo modo, o marido de Joan Robinson, Austin, dirá a propósito do ‘Circus’ de 1931: “Piero Sraffa, claro, foi o melhor discípulo de Marx entre nós” [37]: Estes testemunhos, claro, devem ser tratados com cautela, pois o trabalho de Marx era pouco conhecido entre os economistas de Cambridge na altura. Maurice Dobb, muito envolvido em atividades ativistas, ainda não tinha estabelecido a sua reputação como estudioso de Marx; o mesmo se aplicava a Joan Robinson.
Desde o Verão de 1932, John Maynard Keynes prepara a sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Ele fez Sraffa ler esboços do livro durante os anos 1933-1935 [38]. Sraffa fez uma série de críticas, mas que, de um modo geral, não convenceram Keynes. Por exemplo, numa carta à sua esposa Lydia datada de 3 de dezembro de 1933, Keynes declarou:
“Piero naturalmente apresentou algumas dificuldades esgotantes, mas, tenho o prazer de dizer, sem quaisquer consequências reais” [39].
Numa outra carta a Lydia, datada de 18 de junho de 1934, ele menciona uma animada discussão de seis horas, interrompida por uma refeição com os pais de Piero [40]. De facto, a crítica do nosso italiano não parece ter um carácter construtivo, e preocupa-se principalmente com problemas marginais e não vitais da Teoria Geral.
Mais tarde, em 1938, quando Celestino Arena propôs que se traduzisse o livro de Keynes para italiano, como parte de um projeto para a segunda série da “Nova Coleção de Economistas” na “Biblioteca dell’ Economista”, ele respondeu:
“(…) Infelizmente estou completamente ocupado numa edição de Ricardo, e até a ter terminado não posso assumir mais compromissos” [41].
(continua)
Notas
- Alessandro Roncaglia: Sraffa e la teoria dei prezzi, Laterza, 2e édition 1981, Appndice «La rivoluzione di Sraffa», p.177; Alessandro Roncaglia: «Piero Sraffa: une bibliografia ragionata», Studi Economici, anno XXXVIII, no21, 1983, p.140.
- Joan Robinson: «Reminiscences», na coletânea Contributions to Modern Economies, Oxford: Basil Blackwell, 1978, p.IX; ver também Joan Robinson, Prefácio à edição francesa de Economic Heresies (1971), Hérésies économiques – Essais sur quelques problèmes démodés de théorie économique, Calmann-Lévy, 1972, pp.7-8.
- Foi então convidado para a casa de Angelo Sraffa, e, em Milão, conheceu Raffaele Mattioli, chefe do “Banca Commerciale Italiana” (Richard F. Kahn: The Making of Keynes’ General Theory – Raffaele Mattioli Lectures, Cambridge: Cambridge University Press, 1984, pp. 3 e 170).
- Richard F. Kahn: Prefácio à edição italiana (1982) da tese, The Economics of the Short Period (1930), L’economia del breve periodo, Turin: Boringhieri, 1982, pp.36-37.
- Joan Robinson: The Economics of Imperfect Competition, tradução francesa, L’économie de la concurrence imparfaite, Dunod, 1975, p.XXI.
- «Increasing Returns and the Representative Firm – A symposium», The Economic Journal, volume XL, mars 1930, pp.79-116.
- Op. cit., p.93.
- Veja-se a carta de Piero Sraffa a Joseph Schumpeter de 8 maio de 1930, conservada em «Schumpeter Papers», «Harvard University Archives», Cambridge, Mass.
- Austin Robinson, «Keynes and his Cambridge Colleagues», editado por Don Patinkin e J. Clark Leith, Keynes, Cambridge and the General Theory, Londres: MacMillan, 1977, p.29.
- Austin Robinson, «lecturer in Economics» desde 1929, acaba de ser nomeado por Arthur Cecil Pigou secretário da «Faculty of Economies and Politics» de Cambridge.
- Veja-se J.M. Keynes: «Mary Paley Marshall», em Essays in Biography, The Collected Writings, MacMillan-St Martin’s Press, volume X, 1972, p.249.
- Londres: MacMillan, 1932.
- Londres: MacMillan, 1933.
- The Economic Journal, volume XLVIII, setembro de 1938; veja a carta de J.T. Dunlop a J.M. Keynes de 10 de maio de 1938, em Keynes, The General Theory and after – A supplement, The Collected Writings, MacMillan, Cambridge U. Press, volume XXIX, 1979, p.285.
- David Ricardo tinha sido um dos fundadores deste círculo em 1821.
- Londres: Routledge, 1925.
- Tivemos conhecimento deste contacto através de uma alusão numa carta de Angelo Tasca a Piero Sraffa, datada de 15 de outubro de 1929, mantida na Fundação Feltrinelli em Milão. Harry Pollitt substituiu Albert Inkpin, Secretário-Geral do Partido de 1920 a 1929.
- Henri Bartoli: «Chronique de la pensée économique en Italie», Revue Economique, volume 32, no 1, janeiro de 1981, p.184. John Maynard Keynes escreveu um pequeno estudo sobre Ramsey, acompanhado por uma antologia de reflexões em Essays in Biography, The Collected Writings, MacMillan-St Martin’s Press, volume X, 1972, pp. 335-346.
- Georg-Henrik Von Wright: «Biographical Sketch» em Norman Malcolm: Ludwig Wittgenstein – A memoir, Oxford: Oxford U Press, 1958, tradução francesa «Notice biographique» reeditado em Ludwig Wittgenstein, De la certitude, coll. Idées, Gallimard, 1976, p.23.
- Sublinhado por LW, em Wittgenstein, Tractatus logico-philosophicus, seguido de Investigations philosophiques, Gallimard, 1961, p.112.Sobre as relações entre entre Sraffa e Wittgenstein, veja-se o estudo de Paolo Albani, Teoria economica e linguaggio scientifico: elementi per uno studio sul rapporto Sraffa-Wittgenstein, Economia Politica – Rivista di teoria e analisi (Bologne), anno I, no 1, avril 1984, pp. 107-142. pp.107-142.
- Numa entrevista de 1960 com Ferruccio Rossi-Landi, um defensor da tese da influência marxista de Sraffa sobre Wittgenstein (F. RossiLandi: Il linguaggio come lavoro e come mercato, Milan: Bompiani, 1968, p.107).
- Richard F. Kahn: The Making of Keynes’ General Theory, Raffaele Mattioli Lectures, Cambridge U. Press, 1984, p.171; A.N.L. Munby: «The Book Collector» editado por Milo Keynes, Essays on John Maynard Keynes, Cambridge U. Press, 1975, pp.290-298.
- Joseph Schumpeter: Ten great economists – From Marx to Keynes, New-York: Oxford U. Press, 1951, pp.272-273, note 13.
- Cambridge: Cambridge U. Press, 1938. Esta «Introduction» comum está hoje reeditada em J.M. Keynes, Social, political and literary writings, The Collected Writings, MacMillan – Cambridge U. Press, volume XXVIII, 1982, pp.373-390 (capítulo 4, «Hume»). Existe uma tradução francesa do livro de Hume Hume, por Didier Deleule: Abrégé du Traité de la nature humaine, Paris: Aubier, 1971.
- John Maynard Keynes: The General Theory and after: a supplement, The Collected Writings, MacMillan-Cambridge, U. Press, volume XXIX, 1979, p.3.
- Piero Sraffa: carta a Tatiana Schucht, 9 setembro de 1931, em Nuove lettere di Antonio Gramsci con altre lettere de Piero Sraffa, Riuniti, 1986, pp.69-70.
- Ver J.M. Keynes: A Treatise on Money, vol. I, capítulo 18 («Changes due to investment factors»), e vol. 2 capítulo 37 («Methods of National Management» – III – «The Control of the Rate of Investment», Parágrafo IV- «The slump of 1930») em The Collected Writings, MacMillan, St Martin’s Press, 1971, resp. vol. V, pp.248-262 e vol. VI, pp.338-347.
- Ver J.M. Keynes: Activities 1929-1931 – Rethinking Employment and Unemployment Policies, The Collected Writings, volume XX, MacMillan-Cambridge U. Press, 1981, principalmente pp.72-75 et 128-140.
- Ver J.M. Keynes: The General Theory and after, Part I, Preparation, The Collected Writings, volume XIII, MacMillan, St Martin’s Press, 1973, p.83.
- O seu amigo Raffaele Mattioli encarregar-se-á de encontrar um tradutor (veja-se infra, p.120).
- Joan Robinson: «Reminiscences» (1977) em Contributions to Modem Economics, Basil Blackwell, 1978, p.XII.
- Keynes, na época, trabalha à semana em Londres, depois passa um longo fim-de-semana em Cambridge.
- Sobre a organização do «Circus», veja-se Donald Moggridge, «The Cambridge Circus – 1930-1931», em J.M. Keynes, The General Theory and after – Part. I, Preparation, The Collected Writings, volume XIII, MacMillan – St Martin Press, 1973, pp.337-343. Sobre os temas de discussões, ver Joan Robinson, «Reminiscences» (1977), em Contributions to Modem Economies, Basil Blackwell, 1978, pp.XII-XV, e Richard Ferdinand Kahn: The Making of Keynes’ General Theory – Raffaele Mattioli Lectures, Cambridge U. Press, 1984, pp.106-109.
- Carta publicada em J.M. Keynes: The General Theory and after – Part. I, Preparation, The Collected Writings, volume XIII, MacMillan – St Martin Press, 1973, pp.207-209. A resposta de Keynes é de 15 de maio de 1931, em op. cit., pp.209-211.
- Austin Robinson: «Keynes and his Cambridge Colleagues», editado por Don Patinkin e J. Clark Leith, Keynes, Cambridge and the General Theory, MacMillan, 1977, p.29.
- «(Sraffa) had a great reputation, at least among the students, as a Marx scholar», Lorie Tarshie, «Keynes as seen by his students in the 1930s», editado por Don Patinkin e J. Clark Leith, Keynes, Cambridge and the General Theory, MacMillan, 1977, p.52.
- «Piero Sraffa, of course, was the best Marxian scholar among us». Austin Robinson, em «Discussion», op. cit., p.88.
- Para estes anos, dispõe-se de uma carta não datada de Sraffa para Keynes, e de duas cartas, também sem data, de Keynes para Sraffa, publicadas em Keynes: The General Theory and after – A Supplement, The Collected Writings, volume XXIX, MacMillan, Cambridge U. Press, 1979, pp. 157 e 158-160, respetivamente.
- «Piero of course made some exhausting difficulties, but nothing of real consequence, I am glad to say», carta de J.M. Keynes a Lydia Keynes, 3 dezembro de 1933, «Keynes Papers», «King’s College», Cambridge, citado par Robert Skidelsky, «Keynes e Sraffa: un caso di non-communicazione», editado por Riccardo Bellofiore, Tra teoria economica e grande cultura europea: Piero Sraffa, Milan: Franco Angeli, 1986, p.78.
- Um excerto desta carta dos «Keynes Papers», «King’s College», Cambridge, está publicada par Robert Skidelsky, em op. cit., p.78.
- Piero Sraffa: carta a Celestino Arena, 12 agosto de 1938, publicada por Alberto Zanni, «Sulla mancata apparizione della «Teoria generale» di Keynes in una seconda serie della «Nuova collana di economisti» (con corrispondenze inediti)», Quaderni di storia dell’economia politica, anno II, no3, 1985, p.266. Nesta carta, Sraffa indica que obteve a autorização do autor para uma tradução italiana da Teoria Geral nesta coleção e declara-se pronto a colaborar numa «escolha de escritos polémicos» (não precisados) de Keynes, colocados no mesmo volume. De facto, estes projetos não terão seguimento e a tradução italiana de Alberto Campolongo só aparecerá em 1947.
Jean-Pierre Potier é professor emérito de ciências económicas na Universidade Lumière Lyon 2. Sobre as obras e publicações do autor ver aqui e aqui.



