CARTA DE BRAGA – ‘Não esqueço nem perdoo!’ por António Oliveira

Podemos ver isto escrito em cartazes e cartões, nas fotos de algumas manifestações por esse mundo fora, mas ouvi-o muitas vezes quando, para lá voltei acasos e andanças da vida que nunca controlamos uns anos depois de também lá ter feito a maior parte do serviço militar; e por lá fiquei, colaborando com quem tinha combatido, novos conhecimentos e novas amizades, consequência de outra maneira de nos olharmos de frente, olhos nos olhos, às vezes com uma Cuca bem geladinha no meio e, já sem medo das palavras.

A franqueza e a claridade da linguagem, são as armas e a melhor maneira para usar e resolver os problemas de qualquer ordem, da filosofia, ao campo do social e mesmo da política, universos perfeitamente adequados para a confusão, se os interlocutores não quiserem ou não souberem dominar as suas emoções, principalmente as de um passado doloroso para ambos, que não era fácil pôr de lado naquela altura.

Havia mágoas profundas de um lado e do outro, mas a juventude ainda não tinha trinta anos naquela altura e a vontade de andar em frente, de nos mostrarmos empenhados na construção de um futuro prazenteiro para todos, acabou por descobrir como até a semântica, o significado de cada palavra, fosse entendido da mesma maneira, independentemente das experiências anteriores e das diferenças ideológicas.

Tudo isto parecerá ‘conversa de chacha’ para encher este espaço que os criadores de ‘A viagem dos argonautas’ puseram à minha disposição, mas é importante salientar como todos os que se enfrentaram com uma guerra, sabem perfeitamente como cheira, como sabe, como dói e como pesa na mente e no coração, e como esse peso se sente muito mais quando se encostam para dormir, mesmo muitos anos depois.

Por isso as guerras continuam vivas, até quando os ‘mandões’ de cada lado as dão oficialmente por acabadas, e aquela afirmação é bem o melhor exemplo, de como o trauma se perpetua na memória colectiva dos povos que as sofreram, de como também se criam ‘heróis’ e ‘vítimas’, todos à procura de uma ‘paga’ extra, seja qual for a espécie, por uma guerra também arrastar e servir, para muitas e variadas coisas.

Hoje, as guerras estão outra vez aí, já chegaram, já se instalaram e há mais à porta para entrar, só à espera que um despenteado qualquer dê a volta ao trinco, para elas entrarem à ganância, como o ‘vilão em casa do sogro’, aforismo antigo, mas aqui usado por ser de entendimento comum; alguns dos tais heróis e das tais vítimas até já estão bem lá dentro, a apaparicar o sogro, por haver mesmo muita coisa para apanhar!

Mas é conveniente ter em atenção que, hoje, a hegemonia económica e política do Ocidente parece ter chegado ao fim, primazia marcada por alguém ter reparado um dia, na tampa da chaleira a saltar, mas agora os vapores, fumos e calores são outros, apadrinhados por cultos e crenças a saber muito bem o valor dos investimentos, a saber melhor como podem ‘falar’ para as desigualdades brutais proporcionadas pela tal hegemonia; usam mesmo termos fora do contexto como futebol, ténis, polícias, véus, cartas de condução e outras limitações, como ‘elas’ só andarem quatro passos atrás dos ‘eles’, que não passam de minudências só para os cotas com a mania dos direitos humanos, além dos lítios e outros minerais que as novas inteligências agora exigem, por, aparentemente, este planeta ter esgotado, já em Julho, a riqueza ‘autorizada’ para 2023.

Os media traziam no passado dia 24 ‘relógio do fim do mundo está só a 90 segundos do apocalipse – nunca tinha estado tão próximo’. E ainda temos todo este 2024 pela frente!!!

Para terminar esta Carta, cheia de questões que dariam para muitas teses, acrescento as palavras de dois pensadores que não sou capaz de ignorar – o primeiro, o filósofo Viriato Soromenho Marques, numa das suas crónicas no DN, por esta afirmação, ‘O que me preocupa é o processo de degradação de um dos valores fundamentais da tradição ocidental, precisamente por parte daqueles que gritam a sua fé na democracia’ e, referindo depois a importância do helénico Homero, ‘Essa sabedoria revela a unidade da condição humana, esse frágil tesouro de universalismo e compaixão, talvez a última defesa contra a eclosão do inferno na Terra’.

O segundo pensador, Eduardo Galeano, o conhecido e já desaparecido jornalista uruguaio, exprime esta preocupação numa frase bem mais simples, ‘Vamos direitos ao precipício, mas em que carros!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply