Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte B: Texto 11 – “Piero Sraffa. Capítulo 3” (1/2). Por Alessandro Roncaglia

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

Nota de editor:

Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a primeira.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Parte B: Texto 11 – Piero Sraffa. Capítulo 3: Produção de Mercadorias através de Mercadorias (1/2)

 Por Alessandro Roncaglia

Edição  (ver aqui)

 

3.1 De Ricardo a Sraffa

Este capítulo é dedicado à principal contribuição de Sraffa: um volume relativamente pequeno – 92 páginas de texto, incluindo o Prefácio – que começou a escrever em 1927, quando se mudou para Cambridge, sendo a edição em inglês publicada em 1960 e a edição italiana algumas semanas depois [1] com o título Produção de Mercadorias Através de Mercadorias.  Nesta obra, Sraffa apresenta uma solução para o problema do valor enquadrada na tradição clássica, determinando-se simultaneamente os preços relativos e uma das duas variáveis da repartição – a taxa de salários e a taxa de lucros – sendo a outra considerada dada, determinada exogenamente.

Existe uma estreita ligação entre a edição crítica das Obras e Correspondência de Ricardo e a investigação teórica em que Sraffa estava empenhado. Nas décadas de 1930 e 1940, o seu trabalho prosseguiu por dois caminhos paralelos, com maior intensidade na edição das obras de Ricardo na década de 1930 e com uma atenção renovada ao livro no início da década de 1940 [2]; na segunda metade da década de 1950, à medida que o trabalho sobre Ricardo foi sendo finalizado (com exceção dos índices, que na altura Sraffa esperava que fossem elaborados por outra pessoa), Sraffa concentrou-se na preparação da sua contribuição mais estritamente analítica para publicação.[3]

Um ponto crucial no desenvolvimento do pensamento de Sraffa consiste – como ele próprio salienta no Prefácio do seu livro de 1960, e como veremos mais claramente no Capítulo 7 – na transição da ideia de que a análise da concorrência exige o pressuposto de rendimentos constantes à escala para a ideia de que esta análise não exige a adoção de qualquer hipótese sobre rendimentos na produção. A necessidade destas hipóteses era perturbadora para Sraffa não só devido às dificuldades analíticas que implicavam, discutidas nos seus artigos de 1925 e 1926 e diretamente relacionadas com a abordagem de equilíbrio parcial marshalliana, mas também por uma razão mais geral, metodológica, nomeadamente a sua aversão a confiar em “qualquer argumento idealista que obscurecesse […] a referência objetiva” e a sua confiança em dados “físicos” [4]. A transição teve lugar entre 1927 e 1930 (provavelmente mais perto do fim deste período), constituindo o culminar dos esforços iniciados com o artigo de 1925 para substituir a abordagem marshalliana. Neste período, Sraffa também se apercebeu de que os custos físicos, por si só, não eram suficientes para determinar os valores de troca, e que a repartição do rendimento entre salários e lucros também é relevante.

Após esta breve introdução, o resto do capítulo é dedicado à análise do conteúdo do livro de Sraffa de 1960 (ponto 3.2), à descrição das suas raízes clássicas (sobretudo ricardianas) (ponto 3.3) e à discussão de alguns tópicos do seu quadro conceptual. Assim, analisaremos a noção de técnicas socialmente necessárias (ponto 3.4), a hipótese de os salários serem pagos no fim do período de produção e o próprio conceito de período de produção (ponto 3.5). Para concluir, faremos um resumo do impacto de Sraffa na cultura económica que se traduziu naquilo que pode ser considerado uma revolução sraffiana, tão lenta na sua elaboração como na aplicação dos seus efeitos (ponto 3.6).

Na análise de Sraffa, como na dos economistas clássicos e de Marx, a condição analítica em que assenta a determinação dos preços de produção (os preços “naturais” dos economistas clássicos) consiste simplesmente na existência de uma taxa de lucro igual nos diferentes sectores. Este pressuposto corresponde à ideia, adotada por Smith e Marx entre outros, de que a unidade do sistema capitalista é garantida pelo livre fluxo de capitais de um sector para outro, na busca do emprego mais vantajoso. Nada é dito sobre as relações entre a procura e a oferta de cada mercadoria. A hipótese de que os preços de equilíbrio correspondem à igualdade entre a procura e a oferta, característica da teoria económica marginalista, não tem lugar na abordagem de Sraffa (uma questão a que voltaremos mais adiante, no ponto 3.3).

 

3.2 Produção de Mercadorias Através de Mercadorias

Vamos agora fazer um breve resumo da linha de investigação seguida na elaboração de Produção de Mercadorias Através de Mercadorias.

Quando as mercadorias são, simultaneamente, produtos e meios de produção, o seu preço não pode ser determinado independentemente do preço das outras mercadorias, nem o conjunto dos preços relativos são independentes da repartição do rendimento entre lucros e salários (que são expressos em termos da mercadoria escolhida como unidade de medida e são, portanto, salários reais). Consequentemente, é preciso considerar o sistema como um todo, com todas as relações entre os vários sectores produtivos, abordando simultaneamente a repartição do rendimento e a determinação dos preços relativos.

No primeiro passo, Sraffa (1960: 3) mostra que, num sistema de produção de mera subsistência, sem excedente, e onde “as mercadorias são produzidas por indústrias independentes e trocadas umas pelas outras”, no final do período de produção, “existe um conjunto único de valores de troca que, se adotado pelo mercado, restaura a distribuição original dos produtos e torna possível a repetição do processo”.

Se o sistema económico em consideração produz um excedente, a sua repartição deve ser determinada através do mesmo mecanismo e ao mesmo tempo que os preços das mercadorias”. (Sraffa 1960: 6). Se o salário ultrapassar o nível de subsistência, os preços relativos e o valor de uma das duas variáveis distributivas – salário ou taxa de lucro – são determinados conjuntamente, uma vez conhecidas a tecnologia e a outra variável distributiva. Quanto mais elevado for o salário, mais baixa será a taxa de lucro [5].

Relembremos aqui as equações de Sraffa para este caso (Sraffa 1960: 11):

(Aa pa + Ba pb + … +Ka pk) (1 + r) + (La w) = Apa

(Ab pa + Bb pb+… + Kb pk) (1 + r) + (Lb w) = Bpb

. . . . . . . . . . . . . . . . . .

(Ak pa + Bk pb + … + Kk pk) (1 + r) + (Lk w) = Kpk

 

Onde Aa , Ba , , Ka ; Ab , Bb , , Kb ; ; Ak , Bk , , KkLa , Lb , , Lk são as quantidades das várias mercadorias e de trabalho necessárias para a produção das quantidades A, B, … , K das k mercadorias; pa , pb , … , pk são os seus preços; w é a taxa de salário; e r representa a taxa de lucro. Assim, temos k equações para um sistema com k mercadorias e k + 2 incógnitas (k preços, a taxa de salário e a taxa de lucro).

Escolhamos uma mercadoria como unidade de medida (de modo a mantermos k-1 preços relativos como incógnitas). Consideremos então como exogenamente determinada a taxa de lucro ou a taxa de salário (que é uma taxa de salário real, sendo expressa em termos da mercadoria escolhida como padrão de medida). As k equações são agora suficientes para determinar as k incógnitas restantes.

Assumamos que o sistema produz um excedente, isto é, que a quantidade total necessária de cada mercadoria como meio de produção nos vários sectores em que é utilizada é menor ou igual à quantidade produzida, verificando-se a desigualdade estrita para pelo menos uma mercadoria. Pode então provar-se que o sistema tem soluções economicamente significativas (isto é, positivas) para as incógnitas. Pode também demonstrar-se que a taxa de lucro é uma função decrescente da taxa de salário, variando entre um máximo correspondente a uma taxa de salário igual a zero (caso em que todo o excedente constitui lucro) e zero quando a taxa de salário é máxima (e todo o excedente integra apenas salários).

Quando há um excedente, abre-se a possibilidade de produzir bens de “luxo”, ou seja, bens que não são meios de produção nem fazem parte do consumo necessário (de subsistência). No lado oposto, temos os bens “básicos”, que são bens direta ou indiretamente necessários como meios de produção em todos os processos de produção. Esta distinção será analisada mais pormenorizadamente no capítulo 4. Sraffa ilustra brevemente a distinção entre preços de produção e preços de mercado seguida da distinção entre salários necessários e salários excedentários, antes de apresentar a solução geral para o modelo no caso em que cada indústria tem um único produto (deixando assim de lado, por hipótese, o caso da produção conjunta que é abordado na segunda parte do livro).

Sraffa (1960: 12-13) analisa em seguida a variação dos preços relativos que está associada à evolução da repartição do rendimento. Como os economistas clássicos e Marx já sabiam, tais mudanças são determinadas pela “desigualdade das proporções em que o trabalho e os meios de produção são empregues nas várias indústrias”. De facto, “é impossível que os preços se mantenham inalterados quando há desigualdade de “proporções””.

Dois capítulos (Sraffa 1960: 18-33) são então dedicados à construção de um instrumento analítico específico, designado “mercadoria padrão”, e à prova da singularidade do “sistema padrão” a ela subjacente. Graças a esta construção, como veremos mais adiante (Capítulo 5), Sraffa consegue resolver o problema ricardiano de construção de uma medida de valor invariável e ilustrar características importantes da sua própria análise.

A primeira parte do livro termina com um capítulo (Sraffa 1960: 34-40) sobre a “Redução a quantidades datadas de trabalho”. Esta análise é relevante para a resolução de um conjunto de questões, incluindo a ideia smithiana de que o preço natural pode ser dividido em salários, lucros e rendas (ver o ponto 3.3) e a teoria austríaca do capital, desenvolvida por Böhm-Bawerk e adoptada por Hayek, segundo a qual o capital é medido com referência a um “período médio de produção” (discutido mais adiante, ponto 6.2).

Na segunda parte do livro, a análise de Sraffa sobre os preços de produção considera o caso dos bens de produção conjunta e, dentro desta categoria, os de capital fixo e os meios de produção escassos ou não reprodutíveis, como a terra [6]. O livro concluiu-se com a Parte 3 que consiste num único capítulo sobre a escolha entre métodos de produção economicamente alternativos associados a diferentes variações na taxa de lucro (o que, como veremos mais à frente, no ponto 6.3, é relevante para a crítica das teorias marginalistas) e com quatro apêndices, incluindo as “Referências de literatura”, onde Sraffa se associa explicitamente aos economistas clássicos.

 

3.3 A análise de Sraffa e a abordagem clássica: Crítica das teorias do ‘custo de produção’ e distinção entre preços de mercado e preços naturais

Sraffa refere no prefácio do seu livro que o ponto de vista que adota é semelhante ao dos economistas clássicos, como Smith e Ricardo. Na secção 7 do livro, Sraffa (1960: 9) discute o significado dos preços que são objeto da sua análise. Aí afirma que “termos clássicos como “preço necessário”, “preço natural” ou “preço de produção” se adequariam ao caso da sua própria teoria.

Sraffa apresenta a sua conceção da utilização adequada destes termos clássicos sob a forma de negação, ou seja, em termos do que não significam. Desta forma, destaca os principais erros que devem ser evitados numa análise adequada da determinação dos preços relativos. Em primeiro lugar, explica que a expressão “custo de produção” é demasiado unilateral: a ideia de que os preços dos produtos são determinados pelos custos, ou seja, pelas quantidades e preços dos meios diretamente necessários à sua produção, implica um raciocínio circular uma vez que os meios de produção são um subconjunto das mercadorias que constituem o produto. Em geral (com exceção das mercadorias não básicas), existe uma relação bidirecional entre os preços das mercadorias e os seus custos de produção: é necessário conhecer os preços para determinar os custos de produção e estes, por sua vez, precisam de ser considerados para calcular os preços. Assim, para determinar o preço de uma mercadoria básica é necessário considerar todo o sistema de relações técnicas entre os vários sectores produtivos: não só a utilização direta ou indireta de outras mercadorias na produção da mercadoria em questão, mas também a utilização dessa mercadoria específica na produção de todas as outras mercadorias e dela própria deve ser tomada diretamente em consideração.

Esta especificação do conceito de preços de produção implica uma referência crítica às chamadas teorias da “adição de componentes” segundo as quais o preço de uma mercadoria é dado pela soma dos elementos que entram no seu custo de produção [7]. Este tipo de teoria foi duramente criticado primeiro por Ricardo e depois por Marx, que a atribuiu a Adam Smith. Neste contexto, Sraffa recorda também ‘os “custos reais” de Marshall e a “quantidade de capital” que está implícita na teoria da produtividade marginal’.[8]

Segundo a teoria atribuída a Adam Smith, ‘”logo que as existências se acumulam nas mãos de determinados indivíduos” e “logo que a terra de um país se torna propriedade privada”, chega-se ao preço das mercadorias por um processo de soma de salários, lucros e rendas’ [9]. Isto implica que o preço pode ser inteiramente reduzido a salários, lucros e rendas e aqui Adam Smith parece estar a considerar implicitamente estes custos como sendo independentes uns dos outros. De facto, a sua afirmação de que o aumento dos salários produziria um aumento dos preços pode ser racionalizada atribuindo-lhe este pressuposto implícito [10].  Ricardo, numa linha ininterrupta que se estende desde o seu Essay on Profits até aos Princípios, esforça-se por demonstrar que um aumento dos salários reais produz uma redução dos lucros, enquanto faz com que alguns preços subam e outros desçam, quando considerados em termos da mercadoria particular escolhida como unidade de medida [11]. Levando ao extremo a sua crítica à posição de Adam Smith, Ricardo (1817: 62-3) vai ao ponto de mostrar que, adotando um padrão de medida muito particular (uma mercadoria produzida apenas por trabalho e com o período de produção mais curto possível), todos os preços descem quando os salários sobem – exatamente o oposto da conclusão a que Smith chegou, ou melhor, a que está implícita na hipótese que lhe é atribuída.

Recordemos neste ponto que a teoria do valor-trabalho que Ricardo finalmente adotou nos seus Princípios, não é tanto o resultado de qualquer crença particular de que os preços das mercadorias são proporcionais à quantidade de trabalho direta ou indiretamente necessária para a sua produção [12], mas antes um instrumento para fornecer uma base para a sua crítica à teoria dos preços que atribui a Smith. A teoria do valor‑trabalho é, assim, utilizada por Ricardo como um instrumento para demonstrar com mais veemência que as variáveis de repartição não são independentes umas das outras. Ao fixar o salário ao nível de subsistência, pode demonstrar-se que a taxa de lucro depende exclusivamente das condições de produção das indústrias direta ou indiretamente envolvidas na produção de bens-salário. No quadro da teoria ricardiana a renda é apenas considerada como renda diferencial e, assim, os lucros podem ser diretamente identificados com o produto excedente do sistema económico. Com o problema da repartição do rendimento assim resolvido, o terreno está pronto para a abordagem da questão dos preços relativos.

Como já foi referido, a teoria da “adição de componentes” dos preços exige que o custo de produção de cada mercadoria seja totalmente redutível a salários, lucros e rendas. Adam Smith (1776: 68-71) parece acreditar que esta hipótese pode ser provada simplesmente observando que os preços dos meios de produção são também compostos por salários, lucros, rendas e os preços dos restantes meios de produção, que também poderiam ser assim divididos e assim por diante, numa sequência que ele parece considerar finita. Ricardo não se preocupa com este aspeto particular da teoria de Adam Smith e limita a sua crítica à consideração implícita deste autor de que os salários e os lucros são independentes [13]. Mais tarde, Marx (e depois Sraffa) viriam a demonstrar que a crença de Adam Smith numa tal “decomposição” total do preço de cada mercadoria está também errada.

A explicação para este erro reside numa deficiência bem conhecida da análise de Adam Smith, nomeadamente a subestimação da importância daquilo a que Marx chama “capital constante”, ou seja, as mercadorias produzidas e reprodutíveis utilizadas no processo de produção. Com efeito, sempre que existe pelo menos uma mercadoria direta ou indiretamente necessária à produção de todas as outras (um produto de base, na terminologia de Sraffa), a decomposição total é impossível. Se os custos de produção de uma mercadoria forem reduzidos a salários, lucros, rendas e ao preço dos meios de produção e se estes últimos forem novamente decompostos em salários, lucros, rendas e no preço dos seus meios de produção e assim sucessivamente, nunca se chegará a um resíduo de mercadorias cujo custo de produção consista apenas em salários, lucros e rendas porque, por definição, não existe nenhuma mercadoria que não necessite de pelo menos uma mercadoria de base para a sua produção. Haverá sempre um resíduo composto pelas mercadorias de base do sistema considerado, mesmo que o valor deste “resíduo de mercadorias” seja reduzido ao mínimo desejado através de um número suficiente de fases de redução.

Uma consequência adicional da impossibilidade de decomposição total do preço em lucros, salários e rendas (exceto como limite de um processo de redução levado ao infinito) é que existe um limite finito para o valor máximo da taxa de lucro, correspondente a uma taxa de salários nula. Se a decomposição total fosse possível, a taxa de lucro correspondente a uma taxa de salário nula seria infinita, pois a taxa de lucro seria obtida a partir da divisão de uma quantidade finita (o lucro total, que seria igual à produção total) por uma quantidade nula (o capital adiantado, que seria composto inteiramente por salários, supostamente iguais a zero) [14].

Depois de sublinhar que a sua teoria dos preços é radicalmente diferente da “adição de componentes”, Sraffa (1960: 8) salienta também que seria enganador dizer, no contexto da sua análise, que o preço “depende tanto do lado da procura como do lado da oferta” e sublinha ainda que a sua análise “não contém qualquer referência aos preços de mercado”. A terminologia proposta por Sraffa, nomeadamente a designação de “preços de produção”, é precisamente a utilizada pelos economistas clássicos para distinguir os preços considerados como variáveis teóricas nas suas análises dos “preços de mercado”, ou seja, os preços que se encontram quotidianamente nos mercados [15].

O facto de Sraffa nunca referir “equilíbrio económico” ou “preços de equilíbrio” quando descreve o seu sistema também merece ser sublinhado. Na ausência de qualquer consideração sobre os fatores que determinam as quantidades oferecidas ou procuradas das várias mercadorias, não há razão para supor que os preços de produção devam ser tais que igualem a quantidade procurada com a quantidade oferecida para qualquer mercadoria no longo prazo ou que os preços de mercado devam cumprir essa função no curto (ou muito curto) prazo. De facto, a análise clássica (e a sraffiana) não contempla uma dicotomia longo versus curto prazos; antes põe em questão a dicotomia entre variáveis reais e teóricas. Além disso, sem uma análise teórica dos preços de mercado, que são considerados variáveis verificadas e não teóricas, a relação entre os preços de mercado e os preços de produção permanece indeterminada. Por conseguinte, não existe qualquer prova textual que permita atribuir a Sraffa a ideia de que os preços de produção são “centros de gravidade” dos preços de mercado. Cabe, então, tentar perceber em que sentido os “preços de produção” constituem um referencial teórico que aumenta a nossa compreensão da realidade económica. Vejamos agora esta questão.

Já foi repetidamente indicado que a perspetiva de Sraffa é em muitos aspetos – embora não em todos – semelhante à dos economistas clássicos. Estes concebem explicitamente o quadro geral da sua análise dos preços relativos e da repartição do rendimento de uma forma que pode ser resumida do seguinte modo. A determinação dos preços é estudada num dado momento no tempo, dada a tecnologia prevalecente. Mas a tecnologia só pode ser considerada como dada com referência a um determinado instante de tempo, pois está sujeita a uma evolução contínua. A tecnologia está sempre a reagir a mudanças ocorridas no passado (expansão do mercado, divisão crescente do trabalho) e a passar por um processo de constante renovação [16]. Por outras palavras, a análise de preços dos economistas clássicos examina a situação de um sistema económico num dado momento, como uma fotografia do sistema [17]. Deste modo, todas as variáveis económicas que não são objeto de análise podem ser consideradas como dadas. A investigação teórica pode centrar a atenção no movimento “virtual” de variáveis específicas e nas relações entre essas variáveis, como se estas fossem consideradas “isoladas no vácuo”.

No caso da Produção de Mercadorias Através de Mercadorias, a escolha das variáveis a analisar recai sobre as relações existentes entre os preços de produção e as variáveis de repartição, a taxa de salários e a taxa de lucros. Tudo o resto (tecnologia, níveis de produção) é considerado como dado.

No entanto, é necessário sublinhar que esta escolha não representa uma recusa a priori de analisar os problemas da evolução tecnológica, da determinação dos níveis de produção, ou das políticas das empresas. Pelo contrário, representa simplesmente uma decisão de analisar cada problema particular separadamente, um de cada vez, isolado dos outros. As hipóteses e os métodos de análise não têm necessariamente de ser os mesmos para todos os problemas. É necessário escolher, para cada problema particular, apenas as variáveis mais relevantes para a análise do problema em questão, deixando de lado os fatores que, como diz Ricardo, conduzem apenas a “modificações” na análise, mas não a alterações na sua substância [18]. Assim, na análise dos preços de produção e da sua relação com a repartição do rendimento, Sraffa abstrai da evolução tecnológica, das alterações nos níveis de atividade, das diferenças nas formas de mercado prevalecentes em cada sector específico da economia, dos diferentes tipos de trabalho, etc. Os preços de produção de Sraffa representam, portanto, da forma mais simples possível, as condições de reprodução de uma sociedade capitalista baseada na divisão do trabalho.

 

(continua)

 


Notas

[1] A edição italiana foi preparada, como já foi referido, sob o impulso e com a ajuda decisiva do amigo de longa data de Sraffa, o banqueiro Raffaele Mattioli. O editor, Giulio Einaudi, era também amigo de Sraffa e filho do seu professor, Luigi Einaudi; durante anos, Sraffa foi um conselheiro muito respeitado do seu editor, que desempenhou um papel importante na formação da cultura de esquerda em Itália.

[2] Há cerca de uma década que se anuncia a publicação de uma edição em vários volumes dos Sraffa Papers pela Cambridge University Press, sob a direcção geral de Heinz Kurz. Para uma apresentação geral dos Sraffa Papers cf. Kurz (1998), Smith (1998, 2000); o catálogo preparado por Jonathan Smith está disponível na Internet em http://www.lib.trin.cam.ac.uk. Entretanto, a disponibilização dos documentos de Sraffa no Trinity College, em Cambridge estimulou, a um ritmo crescente ao longo da última década, investigações sobre o desenvolvimento original das ideias de Sraffa na segunda metade da década de 1920 (Garegnani 2004, Rosselli 2004); o papel das influências marxianas (De Vivo 2004, Gilibert 2004); os desenvolvimentos nas décadas de 1930 e 1940 (De Vivo 2000, 2001 Rosselli 2001 centrou-se no trabalho de edição das obras de Ricardo, Pasinetti 2001, Gilibert 2004); a biografia de Sraffa (Bellofiore e Potier 1998, Naldi 1998, Potier 2000, Daniele 2000, D’Orsi 2001, Naldi 2001 e 2004, Marcuzzo 2001 e 2004);  questões específicas, como a moeda e a banca (Panico 1998 e 2001, Bellofiore 2001); e a interação de Sraffa com os seus amigos matemáticos enquanto trabalhava no seu livro de 1960 (Kurz e Salvadori 2001, 2004, 2008). No entanto, convém recordar que esta literatura, embora interessante e útil em si mesma, só pode ter uma influência indireta na interpretação do pensamento de Sraffa, que – como ele sempre insistiu – deve basear-se nas publicações. Por outras palavras, na hierarquia das fontes, o material publicado deve sempre ter precedência sobre o material não publicado (e este, evidentemente, deve ter precedência sobre a tradição oral).

[3] No início da década de 1950, o trabalho de Sraffa foi retardado por “um terrível acidente de alpinismo num dia santo tristemente famoso na Noruega” (Pasinetti 2007: 178).

[4] Kurz (1998: 24-5) cita a passagem acima referida a partir dos Documentos de Sraffa D3/12/9.46, onde são mencionadas algumas notas de um artigo sobre “Goethe’s view of nature”, e recorda a preferência de Sraffa pela “perspetiva clínica de  Petty” (Documentos de Sraffa D3/12/4.3). A este respeito, cf. também Naldi (2004: 100). Sobre Petty e Sracf. Roncaglia (1977).

[5] Cf. Pasinetti 1975, Capítulo 5, para um tratamento mais vasto deste modelo simples.

[6]Sobre os problemas que surgem com a transição dos sistemas de produção simples para a produção conjunta – problemas relativos à positividade dos preços, à definição de bases, à monotonia da curva salário-lucro, à escolha dos métodos de produção – existe uma vasta literatura, referida mais adiante (ponto 8.3).

[7] Estas foram baptizadas de “teorias da adição das componentes” por Maurice Dobb (1973: 46, 122) na sequência da exposição em Sraffa (1951).

[8] Sraffa (1960: 9). Dobb (1973: 122) assinala que é possível identificar, como já o fizera Schumpeter, uma “linha Smith-Mill-Marshall” a este respeito. Na minha opinião, o papel de Smith e J. S. Mill nesta linha de descendência deve ser tratado com a maior prudência uma vez que a sua representação da economia nos aspetos mais importantes corresponde à de outros economistas clássicos, como Ricardo, pelo que a diferença entre eles e Marshall é, de facto, grande. Cf. Roncaglia (2001).

[9] Sraffa (1951: xxxv). As passagens de Wealth of Nations citadas por Sraffa estão em Smith (1776: 65, 67).

[10] Adam Smith e todos os escritores que o seguiram sem exceção (que eu saiba) defenderam que um aumento do preço do trabalho seria uniformemente seguido por um aumento do preço de todas as mercadorias” (Ricardo 1817: 46). A posição atribuída a Smith é prejudicada pelo pressuposto, comum a todos os economistas clássicos, de que os salários e os preços são medidos em termos de uma mercadoria (geralmente ouro) e não em papel-moeda inconvertível.

[11] Inicialmente, antes do Ensaio sobre os lucros de 1815, Ricardo partilhava a posição de Smith. Ver, por exemplo, a carta a Malthus de 25 de julho de 1814 em Ricardo (1951-5, vol.

6: 114). Sraffa analisa o papel desta posição no desenvolvimento do pensamento de Ricardo em Sraffa (1951: xxxiii ff).

[12] O próprio Ricardo está plenamente consciente do erro implícito nesta afirmação e aponta-o explicitamente logo nas primeiras páginas dos Princípios. Ver secções IV e V do Capítulo 1, Ricardo (1817: 30-43). De facto, Ricardo preocupa-se com o problema e refere-o em inúmeras passagens ao longo da sua obra.

[13] “Qualquer preço limita-se, quer imediatamente, quer em última análise, a ser constituído pelas mesmas três parcelas – renda, trabalho e lucro” (Smith 1776: 68).

[14] Marx debruça-se longamente sobre este ponto: cf., por exemplo, Marx (1905-10, vol. 1: 78-125); ou Marx (1894: 815-30). Sobre a perspetiva de Sraffa, ver Sraffa (1960: 35).

[15] Este ponto é discutido em Roncaglia (1990b, 2009a) e, com referência a Smith, em Roncaglia (2001: 139-45). Também é sublinhado nos documentos de Sraffa (D3/12/11, citado por Garegnani 2004: 182): “Quando A. Smith, etc., dizia “natural” não se referia, de modo algum, ao valor “normal” ou “médio”, nem ao “longo prazo”. Referia-se à relação física, verdadeiramente natural, entre as mercadorias que é determinada pelas equações”.

[16] Torrens (1821) é mais explícito sobre este ponto. A sua posição a este respeito é discutida em Roncaglia (1972).

[17] A metáfora da “fotografia” (ou “instantâneo”, como o meu italiano foi inicialmente traduzido), originalmente proposta na minha dissertação de licenciatura (Roncaglia 1969: 73), e depois em Roncaglia (1975: 119), opõe-se tanto às interpretações do esquema de Sraffa como sendo o lado da oferta de um modelo de equilíbrio geral (cf., por exemplo, Hahn 1982) como à noção de “posições de longo prazo” de Garegnani (1976b), sobre a qual veja-se o ponto 8.5 mais adiante e Roncaglia (2009a). Numa carta a Rüdinger Soltwedel de 28 de fevereiro de 1968 (Sraffa Papers, C 294/2, citada por Bellofiore e Potier 1998:  bem como por Potier 2000: e Pasinetti 2007: 190), Sraffa utiliza o termo “fotografia” em relação à sua análise. Num artigo interessante, Ginzburg (2000: 126n), claramente sem saber que o próprio Sraffa a tinha usado, critica a metáfora da fotografia – e através dela a minha interpretação da análise de Sraffa – como implicando a ausência de qualquer abstração; no entanto, não há qualquer implicação deste tipo na minha interpretação, como mostra a discussão da hipótese de técnicas “socialmente necessárias” na secção seguinte; cf. também Roncaglia (1975: 27-9).

[18] Desenvolveremos este aspeto mais adiante, no ponto 7.5, com base numa discussão sobre a relação de Sraffa com o pensamento de Wittgenstein.

 


O autor: Alessandro Roncaglia [1947-] foi professor catedrático de Economia Política na Faculdade de Ciências Estatísticas da Universidade de Roma La Sapienza (1981-2017), sócio correspondente da Academia dei Lincei, diretor das revistas Moneta e credito e PSL Quarterly Review e presidente da Sociedade Italiana de Economistas. Autor de Breve História do Pensamento Económico, Economistas que se Equivocam, As raízes culturais da crise (2015), A era da desagregação: história do pensamento económico contemporâneo, A riqueza das ideias, Uma história do pensamento económico (2005), Economistas Clássicos, O mito da mão invisível (2011), Sraffa e a teoria dos preços (1978), Piero Sraffa, his life, thought and cultural heritage (2000).

 

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