ANTÓNIO MOTA REDOL – A CENTRAL NUCLEAR DE ZAPORIJIA, NA UCRÂNIA

 

Antecedentes

A central nuclear de Zaporijia deixou de ser notícia dos meios de comunicação social portugueses, em que os “comentadores” que nada sabem do assunto “previam” uma situação catastrófica. Alguns diziam que poderia verificar-se uma explosão 10 vezes mais potente do que a verificada em Chernobyl, em 1986. Afinal, não se verificou ali um novo Chernobyl, risco que esses “comentadores” quiseram utilizar para diabolizar a Federação Russa e Putin, embora alguns desejassem que acontecesse mesmo, para acentuarem ainda mais essa diabolização, por desconhecerem as consequências catastróficas do sucedido em 1986, ou, conhecendo-as, as negligenciassem, numa insensibilidade pela vida humana, como hoje se verifica com muitos deles, que não se vê indignarem-se com o que se passa em Gaza.

Não se deu uma catástrofe, nem se podia dar nas circunstâncias decorrentes dos combates verificados nas vizinhanças da central, nomeadamente de artilharia, com recurso a munições de 152 e 155 mm, utilizadas pelas tropas em presença.

Na altura própria, informei que essas munições não eram capazes de destruir ou sequer furar os contentores de betão com 1,30-1,50 m de espessura, que envolve a cuba de aço especial de 20-30 cm de espessura, no interior da qual está o núcleo onde se realiza a reacção de fissão, e que isso só seria possível com mísseis de grande potência especiais para furar betão e lançados de avião. O que pressupunha uma acção deliberada, que as forças russas não executariam, pois a central estava ocupada por tropas suas e uma catástrofe iria atingir a zona ocupada da Ucrânia, incluindo a Crimeia e a própria Federação Russa. Além disso, esta não quereria destruir uma central, a maior central nuclear da Europa, que lhe será útil para produzir energia eléctrica para a região ocupada.

As diatribes dos meios de comunicação diminuíram quando em Setembro de 2022 a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), embora presidida (Director-Geral) por um embaixador de carreira argentino alinhado com as posições dos EUA e da União Europeia (era hábito esta agência da ONU ser presidida por uma técnico de energia nuclear), apresentou um relatório assinado pelo Director-Geral, Rafael Grossi, mas elaborado com base em relatórios técnicos, o qual informava sobre a situação real na central, quais as partes da central atingidas por munições, que não incluíam a zona mais delicada, o núcleo do reactor. Edifícios administrativos tinham os vidros partidos e a estrutura de betão que guardava o combustível utilizado tinha sido atingida, mas sem que produtos radioactivos tivessem vindo para o exterior. As tropas russas estavam, então, estacionadas no edifício da turbina-alternador, o qual está completamente isolado do núcleo do reactor.

Mas o relatório do Director-Geral ocultou que a central estava a ser bombardeada por forças ucranianas – embora os meios de comunicação social sugerissem que eram as tropas russas, o que era um disparate para quem pensasse um pouco, pelas razões que foram ditas atrás – e ignorou o abaixo-assinado com cerca de 20.000 assinaturas que lhe foi entregue por uma delegação de habitantes da zona, que lhe pedia que interferisse junto do Governo ucraniano no sentido das suas topas deixarem de bombardear a central. Essa entrega foi filmada num vídeo que circulou. Aliás, alguns desses bombardeamentos verificaram-se nos dias antecedentes à visita da AEIA, parecendo que a Ucrânia pretendia que a Agência desistisse de visitar a central, pois sabia que as notícias que fazia circular eram falsas. O Director-Geral, que visitou Zelenski no dia em que chegou à Ucrânia a 29 de Agosto, teve reuniões com autoridades ucranianas nos dias seguintes e apenas esteve em Zaporijia no dia 1 de Setembro, tendo apresentado o seu relatório em Viena em conferência de imprensa no dia 2, não pôde ocultar o que os técnicos escreveram nos seus relatórios, pois estes, para defesa da sua integridade e prestígio como técnicos, não terão querido falsear a realidade.

Mas apesar de o Director-Geral ter ocultado factos relevantes, o Governo ucraniano condenou o relatório, considerando-o favorável às posições russas.

De notar que o Director-Geral contactou frequentemente as autoridades ucranianas, promoveu missões a outras centrais incluindo a desactivada central de Chernobyl, que ainda tem uma zona de exclusão passados tantos anos do acidente e sujeita a controlos constantes, deu relevo a Zaporijia no Relatório Anual da AIEA de 2022, apresentou sete pontos relativos à segurança desta central, mas não há notícia de ter contactado as autoridades da Federação Russa.

A situação actual

No dia 1 de Fevereiro último, a AIEA publicou uma informação em que se escrevia que o Director-Geral visitou a central pela 4ª vez em dois anos na semana que terminou a 28 de Janeiro. No entanto, desde a visita a 1 de Setembro de 2022, um grupo de técnicos da AEIA esteve ali em permanência.

A central encontra-se, de momento, sem produzir energia eléctrica, mas se 5 dos reactores estão em situação dominada de “cold shut-down”, isto é, completamente desligados, embora os seus núcleos em estado de arrefecimento progressivo, mas ainda quentes – no interior do núcleo a temperatura pode ultrapassar os 2.000º Centígrados e a água do circuito de arrefecimento anda pelos 300º Centígrados – um deles encontra-se em situação de “hot shut-down”, isto é, está activo a produzir vapor de água e calor para fornecer à cidade de Enerhodar.

A informação nada diz se os bombardeamentos ucranianos continuam, mas, em relatórios anteriores, era dito que os bombardeamentos prosseguiam, mas sem identificar a origem.

Mas é necessário perceber porque se verificavam esses bombardeamentos. Inicialmente o Governo ucraniano queria fazer crer que eles eram de origem russa. Mas quando deixou de ser possível tirar esse aproveitamento político, continuou-os, pois o objectivo não era destruir a central, nem partes, porque se o fizesse iria afectar também a zona da Ucrânia que está sob o seu controlo. O objectivo seria, certamente, bombardeando as linhas eléctricas anexas à central e a ela ligadas, evitar que a Federação Russa pudesse utilizar a central para fornecimento de energia à zona que controlava ou, talvez, para obrigar a central a não fornecer energia, como acabou por acontecer. Aliás, ao bombardear as linhas eléctricas anexas a outras centrais ucranianas existentes na zona controlada pelo Governo, o objectivo russo é cortar o fornecimento de energia a empresas e às populações.

A informação referida reporta ainda que parte do pessoal (4.500 trabalhadores) da empresa ucraniana Energoatom que gere a central, adoptou a nacionalidade russa e assinou contratos com a operadora russa. Também novo pessoal veio da Federação Russa. Aliás esta empresa, deve ser a Rosatom, a qual continua a fornecer urânio enriquecido aos EUA e a alguns países da União Europeia, apesar das sanções, pois este combustível não está incluído nestas!

A AEIA informa ainda que o nível de radiação é normal no exterior da central e nas instalações que guardam o perigoso combustível usado. Já agora, recorda-se que estes resíduos existentes no combustível usado têm uma vida de várias muitas dezenas de milhares de anos e que ainda não foi encontrada uma solução para o seu armazenamento definitivo, apesar dos inúmeros estudos e experiências realizados. Todas as centrais nucleares do mundo continuam, assim, a guardar nas suas instalações toneladas destes resíduos altamente radioactivos. Nalguns casos, esse armazenamento começa a tornar-se incomportável, razão pela qual em Espanha, por exemplo, foram construídas duas instalações na central de Almaraz (o ATI – Armazém Temporário Individualizado), perto da fronteira portuguesa, com o objectivo de guardar, também provisoriamente, combustível usado nesta e noutras centrais espanholas.

Também vem a propósito dizer que nas imediações das centrais nucleares o nível de radiação existente é sempre bastante superior à radioactividade natural, devido à fuga de elementos líquidos e gasosos.

Quanto às outras centrais ucranianas não se dá qualquer notícia na recente informação da AEIA, a não ser que a sua segurança está assegurada, o que demonstra a parcialidade do Director-Geral da AEIA, um político de profissão!

Dias depois, o Director-Geral da AIEA voltou a encontrar-se com Zelensky e com outras autoridades. Entretanto, as autoridades russas que controlam a central e que continuam a ocupá-la militarmente, proibiram os trabalhadores ucranianos da Energatom de ali entrarem. Há indícios de que o Director-Geral irá finalmente a Moscovo.

(Nota – As informações da AEIA podem ser consultadas no seu portal)

 

 

4 Comments

  1. O mais irritante e que a mim provoca nojo até vomitar é a omissão das mídias branquelentas ocidentais, cooptadas pelo capitalismo inconsequente, referente às explosões em Fukushima das centrais nucleares da General Eletric no Japão, à época do maremoto ao norte daquele país. Foram três reatores a explodir e poucos comentários sobre aquela catástrofe nuclear sem precedentes.

    Gustavo Horta (gustavohorta.wordpress.com)

  2. O mais irritante e que a mim provoca nojo até vomitar é a omissão das mídias branquelentas ocidentais, cooptadas pelo capitalismo inconsequente, referente às explosões em Fukushima das centrais nucleares da General Eletric no Japão, à época do maremoto ao norte daquele país. Foram três reatores a explodir e poucos comentários sobre aquela catástrofe nuclear sem precedentes.

    Gustavo Horta (gustavohorta.wordpress.com)

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