CARTA DE BRAGA – “quarta feira de cinzas” por António Oliveira

Começo por ‘tomar’ as palavras do sacerdote e filósofo Anselmo Borges no DN, para nos lembrar a arrogância do ser humano, em algumas épocas da sua existência, ‘Um dia os homens disseram: construamos uma cidade e uma Torre cujo ápice penetre nos céus. A Bíblia vê̂ neste projecto uma iniciativa de arrogância e orgulho insensatos, aquela desmesura que os gregos também condenavam, porque arrasta maldição e catástrofe, o abismo da destruição. No meio da arrogância e da desmesura, os seres humanos, em vez de se compreenderem e unirem, guerreiam-se e matam-se na barbárie. Aí está o sentido bíblico da confusão das línguas’.

Hoje a ‘desmesura’ está noutros campos, nas palavras de Filipe Gil, editor do DN, ‘Salvo raras excepções, esta nova geração não lê mais do que aquilo a que é obrigado no ensino – e detesta – nem entra numa livraria a não ser que seja obrigado. É uma geração que, por exemplo, também já não compreende o tempo nos filmes menos recentes’, porque, depois de uma pergunta sobre a ausência de resposta sobre estas questões, ‘em menos de nada, estavam novamente a olhar para o telemóvel a consumir vídeos de 15 segundos nas redes sociais’.

São inúmeras as tentativas para se dar uma explicação correcta e decente a esta nova Babel, para ‘Estes tempos sem memória, e não buscam reter o instante, porque aprenderam que nada dura. A avidez das metamorfoses deixou de ser paixão e raiva, para se tornar numa resignação mascarada de euforia’, de acordo com o poeta Luís Castro Mendes, numa das suas regulares e imperdíveis crónicas também no DN.

E Cátia Mazari Oliveira, ‘A Garota Não’, agradeceu com um poema, o ‘Globo de Ouro’ para Melhor Intérprete da 27ª edição desta iniciativa da SIC, de que também ‘tomei’ dois versos ‘Vivemos o tempo mais corrido de sempre, / Das metas, dos objectivos, do “nem que me esfarrape’, que também poderão dar uma achega a esta questão.

Se agarrarmos no Priberam ou em qualquer outro dicionário, de preferência etimológico, encontraremos uma quantidade enorme de palavras para poder entender os diversos campos do saber e da vida quotidiana, por estarmos frente a uma repetitiva série de factos e expressões, variando entre a banalidade, escárnio e o desdém, abusando de frases feitas e das opiniões mais em voga, porque ter opinião própria exige conhecimento, informação, trabalho, tempo e reflexão, bem longe dos tais vídeos de 15 segundos.

Filipe Gil, volta ao tema na mesma crónica que denominou ‘A sociedade do resumo’, com uma afirmação também recorrente entre as pessoas mais antigas ‘A culpa é nossa, dos pais, dos tios, da geração que hoje tem trinta e muitos, quarentas e cinquentas. Estamos a deixar que esta sociedade do resumo aconteça. Não estamos a passar valores, estamos ocupados a trabalhar para pagar as contas e queremos que os nossos filhos ganhem muito dinheiro, transmitimos isso’.

Uma verdade que se incorpora nas mais diversas actividades, mas que na política poderá ter um efeito devastador e, ‘tomando’ agora as palavras do filósofo Parra Montero, ‘Nas entrevistas, conferências de imprensa ou debates parlamentares, os políticos actuam como se fossem actores escolhidos para interpretar um papel, aprendido previamente. E, na representação, tem mais interesse a parafernália cénica que os rodeia, que os espectadores ou votantes que os escolheram elegeram’.

Talvez por isso, leio num outro cronista, ‘A democracia é vista por mais de um terço da população mundial, como um sistema inoperante, burocrático, antiquado e aborrecido, que não garante nem ordem nem segurança. Era o mesmo que pensava a maioria dos italianos e alemães que, nos anos trinta do século passado, entregaram o poder, por via aparentemente democrática, a Mussolini e a Hitler. Stalin já controlava a tirania soviética, desde a morte de Lenine em 1924’.

eneko

Publico.es, 09.02.24

E a propósito daquela ‘ordem e segurança’, e dos caminhos para os quais essa expressão está a arrastar os tais ‘actores’, como todos os dias vemos bem, nos noticiários de todo o mundo, há uma nota com que o poeta Luís Castro Mendes faz o favor de nos alertar, também no DN, ‘Quando os problemas reais são a ameaça do justicialismo populista, que mina, corrói e visa destruir a democracia, e o enfraquecimento crescente do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública, que põem gravemente em causa o Estado Social!

Mas hoje é ‘Quarta feira de Cinzas’! Em princípio, devemos encerrar os carnavais todos em que estivemos ou ainda estamos metidos, empurrar para bem longe o tal justicialismo, e evitar tudo o que nos mostra eneko no diário digital ‘Publico.es’, daqui ao lado.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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