Exposição de Finalistas LAP – Multimédia | ‘Micose’
Inauguração e performances na quinta-feira, dia 22 de fevereiro, às 16h, na Casa do Campo Pequeno, Porto
Participam na exposição:
Amanda Lima
Ana Pinheiro
Ana Sofia Tarroso
April
Carolina
Catarina Barros
Constanssa
femcelswag
Hugo Aston
Isabel Rosas
Izzy Benigno
José Miguel Pereira
Leonor Pio
Marianna London
Martim Novais
Natália Fernandes
Nika
Paulo Senra
Rita Torres
Sofia Chitas Gouveia
óscaralhinho
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Micose coletiva
Os fungos são um reino à parte nos ciclos biológicos. Não são plantas, nem animais ou bactérias. São um mundo separado e a ciência que os estuda é a micologia. Em trânsito entre o mundo animal e vegetal ficam num limbo que os torna por vezes inclassificáveis. São amiúde invisíveis ou inconspícuos, escondidos ou camuflados. Noutros momentos fazem-se notar de modo exuberante, como acontece com alguns cogumelos. O reino dos fungos é diverso, mas une-os a capacidade de adaptação e o facto de se nutrirem por absorção. Destacam-se pelas suas associações mutualísticas e a sua importância ecológica na decomposição é indiscutível, à semelhança, por exemplo, das bactérias.
As micoses são infeções provocadas por fungos que se alojam nos corpos. São, pois, o resultado do labor de habitantes incómodos, por vezes oportunistas, que se intrometem na vida dos seus hospedeiros. Esta exposição na Casa do Campo Pequeno, edifício de história burguesa habitado por fantasmas e implantado como um objeto singular no meio da cidade, toma precisamente como mote esta ideia infeciosa, esta presença incómoda de um grupo de jovens artistas que chegam para a ocupar de forma mais ou menos surpreendente e insidiosa.
Aproximem-se e olhem com atenção. Acham mesmo que estão a entrar num palacete histórico e burguês? Olhem novamente. Observem as paredes, a sua forma e a decoração ostensiva. Vejam a humidade que escorre e corrói o passado, o pó que se acumulou ao longo dos anos ou as marcas da usura do tempo e das gentes. Se repararem com cuidado em cada pormenor, das paredes coloridas ao belo jardim, esta casa não é um objeto inerte. É um ser vivo.
Este grupo de estudantes esteve na casa faz algum tempo, uma e outra vez. Toda a gente estava curiosa – talvez curiosa demais. Algum tempo depois, estranhas criações começaram a surgir, cascatas de coisas em decomposição, verdadeiras infeções. Pães cobertos de fungos, tóxicos e radiantes, guilhotinas coquette, corpos decompostos e recompostos em drag. Vieram também silicones coalhados, música estridente, materiais translúcidos, canibalismo, corpos suspensos, sangue, alucinações cinemáticas. E cuidado, até o chá pode estar infetado! Nada de performance: só rituais; pilhas de carnificina. Ao mesmo tempo, estranhas criaturas, mais ou menos invisíveis, também povoam os muros e esperam ainda ser capturadas.
“Tomai e comei, pois este é o meu corpo.” O que teria acontecido se aquele corpo fosse pão estragado? Ou cordyceps, esse fungo entomopatogênico, malcozinhado? É este o ecossistema em que se encontram agora. Venham, vejam, toquem e, quem sabe, comam. Ou não façam nada disso porque, na verdade, não importa. Façam o que fizerem, já foram infetados.
Virginia de Diego e Miguel Leal
Fevereiro de 2024
Esta é uma exposição dos estudantes do 4º ano de Multimédia da Licenciatura em Artes Plásticas da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e só foi possível pela generosidade do António Moutinho Cardoso, que nos abriu as portas da Casa do Campo Pequeno e nos recebeu de braços abertos.
Org.: Licenciatura em Artes Plásticas – Multimédia, FBAUP
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Exposição de Finalistas LAP – Multimédia | Micose
Patente de 22 de fevereiro a 2 de março 2024
Horário: entre as 14h às 17h (exceto segunda-feira)
Local: Casa do Campo Pequeno
Rua da Maternidade, 13
Porto

